Arquivo mensal: agosto 2013

O ensaio é real, mas a cegueira é cognitiva

Com uma semana repleta de imagens internacionais fortes, eu fortaleço minha concepção hobbesiana das coisas mundanas, no mais primitivo do seu enredo, sintetizo com a célebre: “o homem é o lobo do homem”. José Saramago, escritor português em seu livro Ensaio Sobre a Cegueira ilustra brilhantemente, ainda que submerso em um ideal fictício, a essência animal que nos aflora quando postos a prova. A sobrevivência é pressuposto da resistência, é a explicação para as atitudes mais grosseiras, para a “arte” de se digladiar, se canibalizar etc. e o livro não é a única referência a esse estado natural do homo sapiens, mas é pelo qual eu mais tenho apreço, pois por mais metafórico que seja, é o mais próximo que se pode chegar de uma situação real, onde o desprezível da “gente” poderia vir a ser exposto, pois ratifica os animais que somos e por mais inteligentes que nos imaginemos, mais seres ruins, ingênuos e egoístas nos mostramos.

Eu gosto de citar o livro (também o filme – homônimo – sobre a obra, dirigido pelo brasileiro Fernando Meireles) como um exercício de reflexão àqueles que dizem que o ser humano é bom e na verdade possui apenas desvios de caráter, de conduta, de educação…  A verdade é negativa.  Somos ruins! Mas não é que somos todos sádicos, não é que nos alimentamos de maldade ou coisa do tipo, mas é que o nosso egoísmo traduzido em “sobrevivência” tem justificado atos de autodestruição incompreensíveis.

Ensaio Sobre a Cegueira traz na verdade uma dose de otimismo, pois ilustra o egoísmo em face de um instinto de sobrevivência, sobrecarregado de medo e oportunismo animal, na essência humana da carne, na nossa fraqueza, ante a tão superior e no caso fragilizada capacidade de cognição (que, em tese, nos distinguiria dos cães, por exemplo)…  É forte, mas é assimilável. É ruim, mas é compreensível. Não é que concordamos, mas entendemos as possibilidades e justificativas ainda que em conteste. A situação caótica do filme é muito melhor que o mundo de hoje, é melhor que 2013 na Síria, no Egito, quiçá nas favelas do Brasil, que não são culminadas por catástrofes (como é na história), mas por deficiências e atos vontade.

O filme ilustra em imagens cinematográficas a sobrevivência no caos, mas de forma eufêmica. A interpretação que faço é a de que “pegaram leve” na tela. O homem é capaz de ir muito além, para termos essa certeza é só entrar na internet… Essa semana, se você digitar Síria ou Egito, vai saber do que falo, porque vai encontrar facilmente vídeos de uma violência incomum, generalizada, justificada apenas pela manutenção do poder (sem entrar nos pormenores). O que ocorreria se o motivo fosse a sobrevivência? Meireles maneirou na dose.

Há uma série de discussões políticas e embates diplomáticos que norteiam as atitudes, as decisões, o uso da força, a decisão (ainda não tomada e já tardia!) de intervenção e isso é o que importa, como em um jogo de tabuleiro com pessoas no lugar dos pinos. É a burocracia da conveniência, dos acordos comerciais, das políticas de vizinhança e assim sucede… Enquanto o Obama decide se foi ou não um atentado químico (como se fosse essa a única maneira de se violar direitos da humanidade) lembramos que mais de 100.000 pessoas foram mortas em cerca de dois anos (números apenas na Síria). Segundo o líder Bashar al Assad, o que tem sido feito pelo governo é só uma tentativa de manter a ordem, para não perdê-la para os terroristas etc. Essa afirmação é uma afronta, devíamos (enquanto seres inseridos numa ótica de Estado, subordinados a um regime) nos sentirmos humilhados só em lê-la.

Em breve contexto: Um grupo pequeno de Sírios manifestava em 2011 em Deraa a favor de um grupo de estudantes presos.  Quatro foram mortos pelas tropas do governo, para conter a manifestação. O movimento ganhou força e o número de mortos (entre os manifestantes) sobe para 100. Em setembro já eram mais de 300. O recente ataque químico espreita-se ter matado mais de 1.000. O mundo se silencia, enquanto Damasco chora dentro de um país que por muitos anos sangra, pelo direito de ir e vir, pelo direito de dizer, pelo direito de mudar.  É o preço a ser pago pelo poder. A Rússia, em virtude do interesse político-econômico, apoia o governo vigente, os EUA, em tese, apoiam os rebeldes, mas na prática não auxiliam ninguém e todos nós assistimos ao massacre, que de um lado possui a luta incontestável pelo poder, sem precedentes, sem fronteiras, sem limitações… do outro, a morte de braços dados à resistência, de quem não quer assistir o país retornar às garras do autoritarismo, nem pode sucumbir-se fazendo com que a morte de tantos tenha sido em vão.

A comunidade internacional lê papéis, observa o cofre, faz contas, especula, se reúne, conversa, vota, carimba… Enquanto presenciamos, dia após dia, o espetáculo dantesco do homem sendo lobo do homem na vida real, bem diferente do livro que cito no início do texto, pois o autor (Saramago) errou! E não foi em mostrar que o homem é um ser desprezível por essência, mas por ter omitido que na verdade ele é muito pior. Por ora, o que se observa é exposto nas palavras sensíveis de um amigo: “o mundo tem se tornado cada vez mais um lugar desprezível de se viver”.

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Bosquejos de Vincent – Parte Final

Vide: Bosquejos de Vincent Parte III

Press Play, a música complementa a leitura.

“Que posso fazer por mim, um ser detentor de poucos dotes? Um homem desprovido de qualquer sorte, a face da morte estarrecida em dois rostos. Um lado da partida enterrada a sangue e ferro, a outra que vive, mas que pouco prospera, uma despedida mórbida que aguarda, uma alma ainda encarnada, que apodrece… Helena?”

Abro a porta e permaneço ali, parado, fitando o longe, aguardando os minutos, complacente com o convite do qual não me foste dado o direito de recusar. Submetido a um julgamento de um crime infiel contra alguém quem eu não dei o direito de declinar… Na diferença das nossas significâncias e na semelhança das nossas sentenças, eu lhe proclamo “perdoe-me!”.

Retomo para dentro, mas a porta se mantém aberta, deixando adentrar a friagem das 3h da madrugada… A espinha gela na presença do inóspito, posso escutar a tua voz, mas trazida por outro, por aquele que tem sede da minha alma, tem sina pelo meu mal interior, mas não serei objeto de uma tramoia. Sinto saudade, sinto seu chamado, mas ciente estou de que não fostes tu quem voltastes a me encontrar… Procuro o material prateado (que ainda tem marcas suas), com o qual me causo algumas dores externas, das quais já não me incomodo mais. Vou gotejando rubro, cada degrau que subo aumenta o peso em minhas pernas, visto um colar de fibras entrelaçadas, faço-lhe um arranjo firme… um paço em frente… “Helena, adeus”.

Não sinto mais o frio, o suor, a dor… Ainda há um sangue irrelevante que a pouco se empossa. O chão da sala é palco de um espetáculo vermelho, preto e cinza… a porta aberta, meu corpo balança e os pés não tocam o chão. Há um silêncio absoluto e o cão está ali, deitado ao lado, no carpete, pois viera conferir… O vento volta forte, felicita a minha chegada, parece cantar como nunca, bate a porta de entrada e as janelas balançam. Minha alma sangra e meus olhos se fecham.

“Perdão, Helena. Fiz com que partisse, e tu, fizeste que com me buscassem. Mas os nossos caminhos são díspares e o meu demônio agora dorme, ciente de que não nos sentiremos nunca mais”.

Marilena Chauí: expoente filosófico ou espetáculo de museologia?

As contradições de uma pensadora, entre o espetáculo dos horrores de uma cognição vazia.

“A classe média é fascista, arrogante e ignorante”. Este jargão vendido pela dona Chauí me enfastia. Veja bem, ela define que quem detém os meios de produção e as riquezas, são capitalistas; quem vende a sua mão de obra, é operário; e a classe média (a qual ela atinge deliberadamente) não é nem um, nem outro, apenas aquela que se tornou mais “abonada” (expressão da autora) no meio do caminho sinuoso desta sociedade segmentada. Confesso que a princípio fiquei confuso: Seriam os herdeiros (não trabalham, não produzem e ganharam dinheiro)? Omiti, evidentemente, a minha ignorância, até o dia em que eu saísse dela e compreendesse a aclamada filósofa.

A autora defende que a referida classe detém de características como o individualismo, competição, consumismo… Ouso (já que estou a milhares longe do gabarito da renomada autora) discordar. Essas características são das sociedades modernas, das grandes cidades, da ascensão do capital em escala global etc. Não digo que não são um problema, apenas que não são exclusivas. O discurso acaba, em tese, sendo um pouco hipócrita, já que, como ela sustenta que é uma classe com características diferentes sobre um modelo pronto (clássico), ela concorda com a perspectiva econômica que construiu a nivelação das classes, assim, tornar-se classe média (nesse ponto de vista), é galgar uma melhor condição social; é a superação de condições financeiras inferiores… Quiçá, permitir o operário de alcançar o seu sonho: Ser ele o detentor dos meios de produção.

Quando o pobre luta por espaço, luta por emergir socialmente, o objeto acaba sendo se tornar, quem sabe, a classe média de amanhã. Por conseguinte, ela ataca a nova característica desta classe, que é o fato de se encontrar em uma situação financeira mais promissora que ontem. Aqui há o perigo de se suscitar que as classes mantenham status quo ante, ou seja, essa filosofia acaba se arriscando a fomentar uma batalha contra o progresso e instiga um ideal quase como de um comunismo nos moldes mais primitivos. O que ela sugere? Retrocederem ao escambo (em contrapartida ao avanço do poder de compra)? Viverem (os pobres que não podem emergir) em uma eterna vida cooperativa e, consequentemente, isolada de um sistema autoimune? Marilena Chauí, meus caros, não é classe média vale lembrar, é rica.

Segundo ela, a referida classe média é a que ocupa “posição intermediária da pequena propriedade comercial, agrícola e das profissões liberais”, aquela que, ainda lhe parafraseando, sonha ser a burguesia detentora dos meios de produção social e teme ser classe trabalhadora. Não me venham dizer que eu não entendi a definição classista que ela criou, já que as incoerências são implícitas, pois como classe média e trabalhadora são definições objetivamente díspares?  Com base em que não há uma nova sociedade trabalhadora e em ascensão? …E então o que define a nova classe social emergente, porém “antiprodutiva”? Mas isso não importa, pois é a criadora destas reflexões que não consegue respondê-las, não seríamos capazes.

Eventualmente eu paro para ouvi-la, para ler suas entrevistas, para escutar trechos de suas palestras e não consigo sair da mesma impressão: a de que toda reflexão (nesse sentido) que ela levanta, se resume num emaranhado de repetições de ideias contraproducentes na tentativa paradoxal de refletir(?) através da agressão. Eu não duvido da sua inteligência (obviamente), duvido é da relevância, tanto das suas ideias, como da existência dos seus debates, para o planeta.

É uma pessoa generalista, que vive estancada no tempo. A sociedade que ela utiliza como parâmetro de suas análises – que possuem como referência ela mesma! Quem é petulante, afinal? –, é da década de 60, enquanto seu discurso é reproduzido hoje (2013!!). No mínimo, a grande(?) expoente da filosofia de esquerda(?), é anacrônica.  Dona de uma retórica grosseira e pouco pragmática, ela consegue ser uma paródia, às avessas, do Olavo de Carvalho. Se a “nova classe média” é arrogante, eu não sei, mas a filósofa que a define assim, é com certeza.

A classe média que essa senhora chama de conservadora é expoente das grandes novas perspectivas da vida em sociedade. Inaugurou novos conceitos de família, colocou em pauta os tabus nacionais, discutiu a liberdade individual, o direito da mulher (sim! As grandes idealizadoras de movimentos feministas são classe média)…Fascista e arrogante seriam as definições ideais?

Sabe aquela senhorinha rabugenta que foi tirada do interior e trazida a muito custo para a cidade grande? Pois bem, imagine-a agora com doutorado em filosofia, é como eu a identifico.  Não me incomodo com as suas verborragias, mas com quem as propaga. “Conheça melhor! Leia seus livros! Ela é inspiradora!”, coisas que li outro dia. Eu posso estar equivocado, posso vir a pensar diferente no futuro, isso não é um problema, vivemos em um constante aperfeiçoamento e se isso realmente vir a acontecer, garanto que farei um texto apenas para me retificar, mas por ora, o melhor que essa senhora faz é continuar, quietinha, na idade da pedra.

– O famoso e aclamado vídeo em uma das vezes em que ela aponta a “Maldição da classe média” pode ser assistido aqui.

 

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(Em)frente; Dias que não voltarão mais

Você Já percebeu como temos um hábito contínuo de saudar momentos superados? Já fiz esse  tipo de indagação antes, mas reitero. Qual o porque da nostalgia e dos saudosismos? Não posso concordar com a máxima de que somos movidos pela insatisfação, onde o passado sempre terá um aperitivo que o presente parece faltar, numa simbiose vital entre saudade e inconformismo. Sinto-me na liberdade de atribuir a essa ideia, novas significâncias. Concluo: sentimos falta dos sentimentos! E não é que deixamos de sentir, no mais lato significado, mas é que a absorção das emoções se dá em momentos distintos. Primeiro é uma descarga momentânea, onde você ri, ou chora, felicita, lamenta etc. – ela traduz um comportamento; e um momento posterior, onde o sentimento se cristaliza e se torna lembrança, eternizando uma sensação que a priori era momentânea. Essa segunda etapa leva tempo para ser notada, então a impressão imediata é a de que tudo que a gente já viveu (descargas sensoriais simultâneas) parece ser melhor do que o que vivemos nesse instante (que é a absorção daquelas sensações). Eu tento agir e pensar diferente. Dou uma carga maior de relevância aos meus momentos. Sentimento se traduz em um pouco de tudo.

Sou daqueles que alimenta banalidades, assim eu sinto o amanhecer de um dia de sábado, eu sinto o prazer de um fim de tarde com música e chuveiro quente… Gosto muito das coisas que já vivi,  feliz por momentos que presenciei, pelo privilégio de tê-los na memória, mas a minha felicidade é dia-a-dia. Não serei pretensioso a ponto de dizer que nunca me rendo a saudosismos, a lembranças localizadas, dias específicos, envolto a pessoas e locais aos quais não mais pertenço… Todo esse resgate faz parte, mas a vida é (em tese!) linear, contínua e tudo é digno de sentir, de absolver, de aproveitar. Tudo! Temos (geralmente) muitos objetivos a serem conquistados, muitas metas a serem atingidas e isso que determina a importância de não preferirmos o passado (aonde menos responsabilidades existiam), nem viver apenas na expectativa de que chegue o futuro (embora onde, hipoteticamente, os desafios serão “superados”), apenas absorver os “projetos” em suas “etapas” e tirar proveito disso. A vivência é um todo, e sentir, agora, no sentido mais estrito, é o que há de mais legal no fim da história, Porque afinal, “a vida é um sopro” *.

* Citação: Oscar Niemeyer.

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