Arquivo mensal: março 2013

Vossa mercê pensou muito pouco pra ter lido tanto!

 Esses dias fiz um comentário acerca de um problema social latente: A fofoquice misturada à propagação de preconceitos e estereótipos. Ou o mexerico do mal-falado. Diante disso fui abordado por um indivíduo que alegou: “nossa, mas quantas palavras difíceis, você fala bonito”. Eu não usei a palavra de uso popular “mexerico” nem o neologismo “fofoquice”. Se assim o fosse, não seria abordado e teria, quem sabe (ou “quiçá”?) sido entendido. A abordagem do colega sofre de algumas inverdades. A primeira é que palavras como “travestido”, “inominado” e “demagogia” – são as únicas que eu lembro em que, naquele contexto, poderiam ser consideradas “não-cotidianas” (e poderiam mesmo?) – não são nem de longe “difíceis”. Não no tempo da internet em massa, dos dicionários online e da bolha do Wikipédia, são os tempos que eu denomino “erudição de boteco”. Faço referência às épocas superadas onde no bar discutia-se futebol. Não é saudosismo, não estou qualificando os momentos, apenas diferenciando-os. Há quem diga, sem muita modéstia, que esse “novo” momento é um “avanço” impulsionado por uma releitura da erudição proveniente do século XVIII (Iluminismo) em diante, como nos grandes encontros entre os intelectuais, em meio a cafés e chás (e não cerveja!), para nobres discussões (assista “Meia Noite em Paris” de Woody Allen, saudando as primeiras décadas do século XX). Eu sou da geração 90, onde o protagonismo cerimonial do consumo de cevada era regado a banalidades (futebol!) e não discussões com pretensão de reforma política ou de encerrar a miséria no mundo (embora elas me atraiam) – a esse respeito vale mencionar um texto que li na rede nessa semana, onde o autor fazia referência exatamente a uma conversa de boteco e era enfático em uma frase que encerrava algo que eu interpreto como “ninguém vai para um bar para ficar mais inteligente, pode acontecer, mas não é o intuito”, e já no texto podia ser extraído conforme cito: “diversão não é cultura”.

Explicada a expressão (que é motivada pelo excesso de informação fácil e massiva na rede, o que causou um falso boom de erudição nas pessoas) e suas referências, continuemos… A segunda inverdade do questionamento que me foi feito é explicada pelo fato de que a disposição aparentemente retórica das ideias em face das palavras bem ornadas, não é “bonita”! Não existe “falar feio” e “falar bonito”. Existe falar sem ser entendido, e isso não é necessariamente belo, pelo contrário, é um problema. Existe também a fala “popular” e às vezes até errada (em sintaxe, concordância etc.) e isso nem sempre é “feio”, pois se é para estabelecer a comunicação sem vícios, é melhor chamarmos de “adequação”. Por favor, não me venham com críticas de perpetuação do erro, o interlocutor (desde que não seja o encarregado para tal) não pode ser culpado por um eventual analfabetismo. Eu disse para o colega em questão, que o intuito não era falar “bonito”, e que apenas proferi minha opinião sobre um assunto em meio às frases e expressões das quais estou acostumado a utilizar. Ele diria, por exemplo, que “vosmecê” é bonito? Duvido muito. E eu acho! É bonito pela história que carrega, e por ser, junto à vossemecê e vossa mercê (erudito, não?), os embriões do que veio a ser “você”. A linguagem, assim como a moral, a ética, a lei, os hábitos, não é estática. Não há necessariamente um padrão estético (e claro que estamos desprezando por completo as convenções da norma culta da língua), mas um pressuposto dialético, comunicador! Como que nefrálgico, travestido, fomentador, conjectura, frígido, podem embelezar uma frase? São palavras utilizadas em discursos com artifícios retóricos (involuntariamente ou não), mas que nem de longe traduzem “beleza”.

Mas não basta estabelecer a comunicação. Não se faz suficiente um texto cheio de expressões incomuns acompanhadas de um glossário ou nota de rodapé, a comunicação se reflete bem mais nos seus resultados do que na sua propagação (considerando, evidentemente o óbvio, que é a certa dependência entre ambos), a esse respeito, cito uma ideia que é simples, mas de um filósofo complexo (ao menos pra mim):

“Os professores ensinam para ganhar dinheiro e não se esforçam pela sabedoria, mas pelo crédito que ganham dando a impressão de possuí-la. E os alunos não aprendem para ganhar conhecimento e se instruir, mas para poder tagarelar e para ganhar ares de importantes”  (Arthur Schopenhauer)

…A informação não se resume na comunicação em si, mas na absorção da ideia. Serei cuidadoso ao tagarelar, sejam reflexões reformistas, sejam babaquices, no intuito de difundir o amontoado de palavras e me distanciar, o quanto possível, do tal “falar bonito”. Nessa prática, vou “verborragiando”, na esperança calejada de ser entendido.

Anúncios
Etiquetado , , ,

De todas as vontades guardadas, você foi a única que “alforriou” os meus desejos. De todas as mágoas engarrafadas, foste a que eu saboreei com duas pedras de gelo. De todos os refúgios isolados, você foi o abrigo que encontrei primeiro. De todas as verdades escancaradas, a única que acreditei sem devaneios. De todas as tolices e mancadas, o erro que eu escolhi sem medo. De todas as duvidas entrelaçadas a certeza que anteviu ao receio. De todas as dores amordaçadas, a cura em meio ao desespero.

E como um coletivo de cores numa moldura, você reluziu. De todos os sentidos, em minha ocasião, foi a quem sentiu. A única que ao passar por mim me viu, e veio.

Num Complexo da vivencia cujas explicações eu não sei, de tantas ocasiões e corações assim, na oportunidade de lhe falar direi: foste a única, nessa overdose de sentidos que eu, definitivamente amei. E embora você categoricamente saiba, eu repito: és a última que amarei.

Etiquetado

O coletivo que fomenta o protagonismo dos discriminadores

Por trás de Marco Feliciano existe um coletivo em demasia de opressores silenciosos. É inegável que a sua eleição surte consequências sociais negativas. Qualquer referência a direitos humanos, naquele espaço, será fragilizada, é uma ironia lamentável. Sem contar que parte do progresso alcançado pela comissão até hoje, será desconsiderado, além de muitos outros malefícios que tendem a surgir. Mas a sua figura, colocada em visibilidade, deixa de ilustrar aqueles que o apoiam. Tê-lo como protagonista, não pode servir para tapar o pano de fundo que são aqueles que concordam com suas ideias, mas passam despercebidos, se diluem em compartilhamento, em rede social, de nota de repúdio. Gente como Jair Bolsonaro, Silas Malafaia e Cia, serve para fazermos uma autocrítica generalizada. Se eles alcançaram o posto em que se encontram, tiveram apoio, seja um voto, declarado; seja uma omissão.

Os opressores silenciosos são o verdadeiro mal, pois não são notados, não são coibidos… Geralmente se camuflam numa frase do tipo “não é que eu seja preconceituoso, mas…”, e a gente concorda, chama de “liberdade de expressão”, chama de “cada um pensa de um jeito”, chama de tanta coisa eufêmica para evitar o aspecto de acusação e o conflito, e acabamos colhendo frutos difíceis de conter. Quando dizemos que um Deputado antissemita é perigoso, porque tem poder em mãos, mas um profissional liberal qualquer, com as mesmas ideias enrustidas, não é, migramos da condição de reféns para a de coniventes, porque criamos para eles (os “silenciosos”) uma zona de conforto que permite que o preconceito e a intolerância se perpetuem (enquanto o assunto sobre o Presidente da Comissão não dura duas semanas). Eu diria que o Deputado a que esse texto se refere cumpre uma função social (aberrante, não?), pois a sua evidência permite uma discussão (ainda que temporária) sobre premissas fundamentais que sofreram uma agressão, mas que geralmente passariam despercebidas – respeito, dignidade, igualdade etc.

Gente como Marco Feliciano nos faz lembrar que a segregação ainda derrama sangue e que o âmago desse problema não está no Parlamento, mas dentro de casa, na faculdade, no trabalho… Os episódios deixam de ser trágicos, quando a gente deixa de lembrar que eles existiram. Consecutivamente, deixa de ser importante se a gente não está na pele de quem vai sentir. Quando justificamos a nossa omissão com “diplomacia”, incorremos no risco de não sermos distinguidos dos opressores. É como na ilustração: O Deputado faz o preconceito parecer algo ruim, mas o seu colega de classe (por exemplo), faz parecer normal. É contra o primeiro que você reage, mas foi pelo apoio do segundo que o primeiro triunfou. Não suscito um confronto entre defensores da igualdade contra discriminadores, apenas chamo atenção para que assumamos a responsabilidade de saber lidar com a situação no dia-a-dia, evitando a banalização e reconhecendo que a mudança não é congressista, mas sim voltada à cultura! O processo é gradual, mas se amplifica se nos destinarmos, exaustivamente, como parte desse todo.

Etiquetado , , ,

A sanidade é uma questão de hábito

Despretensiosamente eu clamo: “Tornei-me louco?”. Confesso que com algum cinismo eu venho fingindo que acredito. Perco-me nas minhas ideias, me afundo nas minhas palavras, custo me encontrar, quando consigo. As coisas simples tem se mostrado tão complexas e a antítese da complexidade, tão nua. Tornei-me louco, eu digo.

A ausência de platéia me faz ir contrário à poesia. Escrever passou a ser terapêutico, mas o público ao qual me refiro não são as pessoas, apenas os motivos. A ausência de propósito torna as coisas um pouco mais fáceis, ainda que seja menos sublime… Nesse caso, entretanto, não tem por que alguém além de eu entender o que eu digo. Se não tem rumo, não tem alvo. Se nada alcança é como se o “nada” fosse tudo o que tenho escrito. Era para incomodar, mas receio que me conforta. Tornei-me louco, e tenho dito.

Quero brincar com as palavras e canalizar o meu pensamento em um abismo que nem ao autor faz sentido. Só utilizar a atividade cerebral, gastar o vocabulário, me postar em meio a um exercício de erudição, com êxito ou em martírio; ver a cor (em sinestesia!) do cognitivo. Entendeu? Não? É apontar um caminho e destrinchá-lo. Partir de uma frase ou de uma sílaba. É uma relação como a da droga e o viciado. Daí vem abstinência. Quer tentar de todas as maneiras possíveis conseguir saciar o vício. Um objetivo insolvente, que o corpo pede e a alma suplica. Nesse caso, inquestionavelmente “os fins justificam os meios”.

Depois de concluso, é como a seringa usada. Deixada de lado, abre-se um sorriso, vai dormir contente e anestesiado. Como se o corpo se propusesse a uma descarga abrupta de endorfina (mas não é neurotransmissão, é subsunção digital). A diferença é que o texto, independente da estrutura, é visto pelo criador como uma obra prima ainda que embaixo de uma verborragia qualquer. Esse louco aqui é contente por entender, em meio a esse Frankenstein dos escritos, que tipo de louco que ele é. Press save and next.

“Escrever é que é o verdadeiro prazer; ser lido é um prazer superficial”.

(Virgínia Woolf)

Etiquetado , , ,
Anúncios
%d blogueiros gostam disto: