Arquivo mensal: julho 2010

Abstraindo vida por um empirismo banal

O dia era frio, em vários aspectos. Exatamente como Rick Fitts (American Beauty 1999) descreve um dia qualquer, em que há eletricidade no ar e o tempo antecede a neve. No caso em questão, só choveria. O vento suave e gelado arrepiava cada fio de cabelo do corpo. Leve. Constante, sentia que minha alma era levada junto. A sujeira ao chão ganhava forma, as nuvens faziam desenhos. A poeira, acrobacias circulares como se houvesse um padrão… O silêncio era pertinente, só uma folha seca que insistia em arranhar o asfalto, contribuindo discretamente com o espetáculo. A luminosidade diminuía junto à temperatura. Seria Deus?

O que era leve voava sem rumo. Pedaços de coisas se arrastavam indo para algum lugar. Portas fechadas. Os primeiros relâmpagos rasgando o céu eram sinais de que seria divertido. A primeira gota pingou no meu braço. Apenas o óbvio: Perfeitamente úmida. Escorreu como se procurasse saída. Eu me contive ali, parado. A segunda gota fez sinal no chão. Pesada, veloz, como se não soubéssemos de onde vinha. Nessa hora acreditei realmente estar vivo. Além disso, descobri a grande dádiva da vida, que independente de qualquer propósito, ou doutrina, é “sentir”.

A água poupou demais apresentações. Caiu elegantemente furiosa. Lavou-me os cabelos, molhou-me os pés por dentro dos sapatos. Senti-me instantaneamente encharcado. Senti-me, instantaneamente satisfeito. Senti-la, foi sentir-me feliz. Eu estava prestes a morrer afogado em meus batimentos cardíacos, podia sentir cada partícula de sangue que percorria minhas veias enquanto a água mantinha-se a escorrer de cada centímetro do meu corpo.

Trinta minutos depois, caminhava para a casa, de cabeça erguida e sorriso estampado. A tempestade havia parado e eu era uma goteira humana. A triste certeza: A vida voltou ao stand by, enquanto isso a rotina é ativada. Damo-nos, sem saber, com a ausência de Deus, e pior, a ausência de “sentidos”. Onde chuva é apenas chuva, ou fenômeno meteorológico. Ao contrário de nascer, viver é opção, não obstante uma questão de percepção mais aplicada às coisas. Simples assim, um empirismo banal e rotineiro.

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Paráfrase de Fernandes com Marinho e vice-versa

Ando sendo um escritor medíocre. Tão quanto a frase medíocre, qual medíocre me intitulo. Falta-me vida – disse. Falta vida nas minhas palavras. Tenho essa certeza quando leio aos meus ídolos, aos meus amigos, àqueles quais com a alma escrevem (assim acredito). O contrário, receio – respondeu o poeta. Tens-lhe muita vida, por isso não escreves. Eu, quando essa tinha, queria viver. Escrever, apenas quando aquela não puder mais, ou não mais possível for o meu usufruto. Faz todo um sentido, claro, como não?! Mas como explicar essa vontade que me corrói em vida. Teria, eu, duas delas? Socorra-me, caro poeta. Ele o fez – Enquanto pude viver também queria me subordinar à escrita. Mas temos que aprender que as coisas se pautam em “momentos”. Vivemos para transformar a coisa vivida, no conseguinte, em poesia. Não se pode escrever acerca do que não se conhece. É preciso se jogar na vida antes de transformá-la em linhas. Compreendo meu caro. Mas o entendimento é até certa medida. Sinto que fazemos jus ao brocardo de que as palavras refletem o estado de espírito daquele que as possui. Ou é momento ou acúmulo de experiência – deduzi. Cautela, cautela. Fiquemos com “experiências”. Não digo que vivi tudo que escrevi, mas me entranho no texto de uma forma que ele realmente sai de mim, compreende? Ele é minha vivência, por mais que imaginada, sempre vivida. Claro. Isso, provavelmente explica as minhas vontades e as minhas frases reprimidas que não se esvaem na presença de vida. O poeta se manteve – aproveite a fase qual disse, no início dessa conversa, que o senhor se encontra. A escrita vem depois, naturalmente. Quando a gente tem o que contar, independente se tem alguém pra saber.

Agradeço suas palavras, caro poeta. A resenha já se faz matéria. Construída, alicerçada. Conto-lhe do que não conseguia contar. O ato, por fazer, falando do fazer… A forma metalingüística, metafórica e com demais figuras de linguagem, se aceita como texto redigido. Com começo meio e final.

Ao poeta, um grande abraço. Voltarei se me conceder outras prosas. Quando quiser! É sempre um prazer, cortesia retribuída ao caro amigo.

Nota: Diálogo adaptado. Participação  de Fernando Marinho.

Luiz Phelipe Fernandes.

Sinestesia Jurídica; à voz palpável!

   Em uma aula de Organização Judiciária do curso do Direito da UFG (Universidade Federal de Goiás) do dia 28 de Abril, abordou-se uma série de questões levantadas sob a perspectiva crítica da crônica “Os Sinos” (Ao Fórum Mundial Social) de José Saramago, célebre escritor português que infelizmente veio a óbito antes da publicação do texto que se segue. Dentre os assuntos elucidados na aula, falou-se da influência social no direito penal. 

   A justiça se consolida e se teoriza (sem levar em consideração os processos burocráticos) a partir de princípios morais adotados pela sociedade, diante de determinado padrão, estipulados como tal (através de uma óptica científica – “social-antropológica” – do indivíduo em convívio com seus semelhantes).  Essa padronização de comportamentos “aceitáveis” serve de objeto para que, no âmbito teórico, se construam as estruturas normativas que irão valer como leis, regendo a organização social. É a lei à qual o camponês de Florença apela. Partindo desse pressuposto, a justiça emana do povo e nele é exercida. 

   Muito se discutiu sobre clamor público e intervenção/participação social. No entanto, antes de distingui-las, vale lembrar que o clamor público pode, em muitos casos, se originar de uma participação social de repercussão, sendo ou não bem sucedida – é o tocar dos sinos. O clamor público pode ser uma ferramenta de manipulação de massa, pois condiciona uma grande parcela da sociedade a enxergar um determinado fato a partir do ponto de vista que é exposto. É possível, nesse caso, que se exerça de uma ação jurídica (a criação/mudança de uma lei) a fim de satisfazer os indivíduos “revoltosos”, mas sem trazer substanciais alterações para o sistema penal. É o caso, como por exemplo, da Lei Maria da Penha, que trata da articulação de uma lei que já existia e apenas ilustrou-se sua “nova” significância através de outras palavras.

   O clamor público toma corpo através dos veículos de comunicação. Nocivo ou não (à justiça), jamais deixará de existir e exercer influência. O que deve ser levado em consideração é que a participação social precisa ser dotada de maior eficácia. Isso depende não só de uma reformulação no sistema político (tornando-se mais acessível aos seus, teoricamente, subordinados – povo titular do poder), mas sim da insistência da população em questionar, de forma eficaz e incômoda aos devidos “responsáveis”, diante das deficiências do Estado. Falta àqueles camponeses a eterna disposição em  gritar, falta à ficção genial do senhor português, se materializar diante da atualidade. Falta dessa indignação, fugir ao texto e possuir os leitores tornando-os, apenas um. Intrínsecos em um propósito! Não podemos esperar que se crie, pela imprensa, uma “revolta” comprada e manipulável a fim de se produzir mídia e notícia desdenhando a valoração do justo. O autor, através do personagem, pela mais eficaz ferramenta de transmissão de ideia – a escrita, não obstante a literatura, – celebrou a “morte da justiça”. Seria a hora de questionar a legitimidade do poder, a república ou a democracia? Transmito o poder de concluir a José de Sousa Saramago:

“E não nos apercebemos, como se para isso não bastasse ter olhos, de que os nossos governos, esses que para o bem ou para o mal elegemos e de que somos, portanto os primeiros responsáveis se vão tornando cada vez mais em meros “comissários políticos” do poder econômico, com a objetiva missão de produzirem as leis que a esse poder convierem, para depois, envolvidas nos açúcares da publicidade oficial e particular interessada, serem introduzidas no mercado social sem suscitar demasiados protestos, salvo certas conhecidas minorias eternamente descontentes…”

O mestre se foi. Suas palavras ficam para se tornarem eternas e a justiça persiste com suas centenas de vidas. 

Nota:.Exposta aqui a primeira postagem do meu novo blog, “ ‘Jurisprudência’ Literária”.

Confiram: http://jusliteraria.wordpress.com/

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