Arquivo mensal: dezembro 2009

Certa Maria da Graça e a desgraça do “destino”

  Era só para fazer show. O intuito sempre foi o mesmo: Chamar atenção. Era o dono da graça, da praça, da raça em extinção: Palhaços do abraço! Despertava-me um sorriso singelo, daqueles que nem fazendo força é possível parar de rir. A ponto de doer-me os músculos que abrigavam os dentes amarelados pela nicotina que desatina o pensamento e a cor.

  Eu queria não pensar em nada, tão como não desejar nada, só assistir aquele momento, fazendo-o ínfimo, mesmo que só no coração. Ele rodopiava, nem me notava, na verdade não notava nada ao seu redor… Era tão seguro de si  que sozinho construía a própria alegria, pouco ciente da capacidade de semear a felicidade por onde estivesse a passar. Olhou mesmo pra mim? Não, deve ser impressão minha – pensei. Errado, para variar. Veio em minha direção, meu coração mais em prantos do que pulos, como se estivesse a engolir um anfíbio vivo e pulsante. Olhou-me aos olhos, desviou ao chão, intimidado. Devo ter-lhe constrangido com uma prévia seriedade de quem não crê no que se passa.

  Todos os dias nós estivemos ali, os dois… Astro e platéia, príncipe e plebéia, arquibancada e show. Hoje, justamente hoje, o jogo tomou novas regras e os dois lados tornaram-se um só. Sonhava que um dia isso poderia acontecer, mas sonhos não são para ser realizados, sonhos são para ser idealizados, para alimentar a tristeza do que dorme acordado, para disfarçar a dor.

  Não, sonhos não se realizam. Contudo, ou sonhei o sonho errado, ou um engano havia se consumado, ou eu ainda estivesse dormindo. Se foi um, ou se foi outro, pouco sei… Na verdade nada sei, já que juntos, nossos lábios preencheram a paisagem. Eu não podia me permitir pensar. Após o ato, o silêncio malicioso nos impediu de falar e a magia se consolidou sem os nossos esforços.

  Podia ser João, podia ser Pedro… Tanto faz já que o “circo” de alegria eu nunca mais vi. Entretanto, poupei as lágrimas. O beijo, eu guardei na gaveta da chave que já sumi. O pensamente era leve, a imaginação se perdeu no tempo e a lembrança, venceu a velhice enquanto pode, deu lá seus últimos suspiros e, atualmente, luta para lembrar porque sou infeliz.

  Um pulmão teve que desistir da tosse, o outro ainda exala a fumaça, aquela que já não desatina, mas ainda me faz abrir a boca. Quem importa? O clichê está consumado, um dia todos hão de morrer. Não sei se foi Deus, não sei se foi castigo… Assim sucedeu minha lástima, assim fizeram comigo. Desejo que as horas passem mais rápido e que esteja em ruínas o que me sustenta de pé, já que me faltam motivos para tal.  Ainda penso, “o criador negligenciou a criação. Deu-lhe a vida sem pedir a questão, mas esqueceu de buscá-la por aqui”.

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Ilusão Póstuma

Ele disse que estava cansado de ser ultrajado

e fazer de trapo até o que não era seu.

Ele resolveu criar o próprio buraco, sem entender ao certo, qual o dom que Deus lhe deu.

Ele rezou para estar errado e ser ele o culpado, não aquele que o fez

Ele rezou, para todos os lados, cansado da dúvida,

Ou sua voz era surda, ou o aquele que cria se desfez em meio à falta de esperança dos que habitam por aqui.

 

Ou morreria ao acaso, ou faria pouco caso de ti

Ou a vida em si era o descaso, ou faltavam-lhe motivos para sorrir.

Se o sofrer fosse diferente, se o amor fosse resistente, se tivesse alguém para contar, talvez não estivesse cansado, nem desamparado, buscando a forma mais covarde de se livrar da dor.

Ele desistiu dos remédios, já que nunca os conheceu, e da única coisa que se alimenta é o rancor…

 

Ninguém entende, mas ele é um ser, de tão latente, que por anos esperou a oportunidade de voar!

Ele é um pássaro frustrado, que ganhou asas, mas nunca abriram a gaiola para que pudesse mostrar.

Ele tinha as notas, mas os instrumentos musicais não quiseram lhe emprestar

Ele tinha a vontade, mas impediram que ele a usasse, fazendo-o desacreditar…

 

Ele queria se ausentar, pois suas forçar se fragmentam e seus sonhos sangram.

Ele já quis levantar, no dia que teve pernas e acreditou em anjos… Mas hoje ele está assim, aceitando os corredores íntimos, os cadeados ínfimos, a vontade de não ser, o desejo de não ter… Sim, o cheiro de morte fez ressurgir os sentidos adormecidos.

Esse vazio ele conhece,

Ele entende, apesar de que não sabe explicar.

Essa sensação pertinente, de noite que não acorda,

De Sol que não volta… Alguém está pronto para partir, alguém está pronto para sentir o que nunca mais acontecerá…

 

Ninguém estará preparado quando o tal “dia certo” chegar,

Mas eles disseram eloquentes: “escrito está, em algum lugar, que de um modo ou de outro,

Tudo faz parte”.

Nada é milagre, e o mundo é um reality show sem platéia.

 

…Ele sabe que a vida é mesmo uma navalha, chorar faz parte mas, assim como a arte, as lágrimas foram impedidas de cantar.

O fio vai se romper não sobrará ninguém para limpar… Nem as lembranças esquecidas, nem desejos adormecidos, nem o anseio em voltar atrás.

O que podia fazer já foi feito,

Viver é que foi desfeito. As luzes se apagaram por lá.

Ele se foi como um rei sem um reino

Um mar sem água.

Como uma mãe sem poder amamentar.

 

Tem coisas que não se escolhem

Morrer, para ele, era mais do que se libertar.

Esteja preparado. A maioria das pessoas não escolhe,

contudo, amados ou não, todos morrem.  

Na ausência de espelho, não teremos a quem culpar.

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