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Para dizer que me lembrei das flores

Hoje resolvi falar da Rosa. Já passara da meia idade. Pouco mais de 70 anos. Um sorriso bonito, um olhar contagiante, coração forte e pulmão virgem. Provavelmente ainda muitos anos de vida pela frente. Mas ele resolveu turbilhoar esse caminho. Ele lhe retirou parte do seu brilho. Ele a entregou um motivo que, depois de vivenciadas tantas justificativas para sorrir, lhe desse apenas, vontade de chorar. (…) Estive com Rosa, em minha casa. Havia outros. Um almoço aconchegante. Ela esboçava algumas palavras sobre tudo, mas em um súbito, em uma manifestação que atraia atenção de todos, acabou por não concluir nada. Franziu a testa, tentou retomar o raciocínio… As pessoas a observavam com curiosidade, alguns até gargalharam… Cogitei que ela tivesse exagerado no vinho. A princípio aquilo a enfureceu, pois era culpa dele e ele não tinha o direito de lhe amputar essa inata característica de comunicadora. Ocorre que do sofrimento que ele causaria, concluiríamos, aos poucos, que não seria possível se furtar. Daí por diante, tudo apenas piorou, pois ele foi ainda mais incisivo e impiedoso noutras oportunidades. (…) Ele levou sua alegria, sua graça e lhe trouxe uma frustração profunda. Olhando em seus olhos era possível notar seu descontentamento em progressão. Parece que a vida se esvaia. Sofri junto com Rosa, sofri com a nossa impotência. O que podemos fazer? Rosa tinha consciência de que perdeu o melhor de si, e pior, tinha consciência do que ocorria na hora em que acontecia (antes não notasse, nem entendesse) e sabia que não era capaz de evitar aquele constrangimento – não sabia, contudo, que não havia motivos para ser constrangedor, mas Rosa era vaidosa e essa sua característica, antes uma qualidade inestimável, hoje, inimiga. Tantas vezes me perguntei porque ele agia assim… Em uma de nossas conversas, como de costume ela interrompeu a ideia a caminho do desdobramento… respirou fundo, me fitou em silêncio, desapontada consigo mesmo, frustrada com a  situação, com a forma com que ele a deixou e cansada de resistir. Mantive-me também calado, não sabia exatamente o que pronunciar, não tinha certeza das palavras que ela gostaria de dizer, portanto, não havia como oferecer auxílio. Ambos, atônitos e eu, inconscientemente sem conseguir evitar o olhar de piedade. “É que… Foi quando… quando… O que é mesmo?”, dizia ela, como quem tem uma pequena falha na memória. Teria sido natural, se lágrimas não escorressem dos seus olhos, pelos vários minutos (intermináveis) em que tentou formular uma frase curta e banal. Não era possível!  Logo ela, Rosa! Acostumada a “prosear” por horas… Nesse dia, não conseguiu concluir nenhuma frase, sequer proferiu palavras lógicas. Permanecemos inertes por horas. De cabeça baixa, resolveu não insistir e esboçou um sinal de sorriso de quem se dá por vencido em um rosto molhado pelo choro. Doía nela. Doía em mim. É aí onde ele é mais cruel, quando torna todos ao redor, reféns das suas circunstâncias. Por esse dia, por me impedir de ajudar Rosa, por permitir que Rosa assistisse como expectadora de si mesma o seu próprio definhamento cognitivo e intelectual, eu nunca vou perdoá-lo. Prefiro concluir aqui, calado, refletindo essa crueldade silenciosa que ele, Alzheimer, é capaz de irradiar. À Rosa, no nosso último contato (ela estava em um daqueles dias bons), eu lhe disse, categoricamente: – Não importa do que você se recorde, eu estarei aqui; ainda que você não reconheça sua casa, farei com que você tenha motivos para se contentar em estar lá… se você não reconhecer o meu rosto, farei com que goste da presença daquele estranho, estando ali apenas para te agradar…  lhe calçarei os sapatos, lhe amarrarei os cadarços, lhe servirei comida no prato, enquanto a vida me permitir respirar. Quero crer em uma vida no céu, onde as fantasias humanas permitam que as rosas que daqui partiram, se habitem para sempre por lá. Afinal, o mundo se torna mais escuro a cada murchar de uma flor.

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Bosquejos de Vincent – Parte Final

Vide: Bosquejos de Vincent Parte III

Press Play, a música complementa a leitura.

“Que posso fazer por mim, um ser detentor de poucos dotes? Um homem desprovido de qualquer sorte, a face da morte estarrecida em dois rostos. Um lado da partida enterrada a sangue e ferro, a outra que vive, mas que pouco prospera, uma despedida mórbida que aguarda, uma alma ainda encarnada, que apodrece… Helena?”

Abro a porta e permaneço ali, parado, fitando o longe, aguardando os minutos, complacente com o convite do qual não me foste dado o direito de recusar. Submetido a um julgamento de um crime infiel contra alguém quem eu não dei o direito de declinar… Na diferença das nossas significâncias e na semelhança das nossas sentenças, eu lhe proclamo “perdoe-me!”.

Retomo para dentro, mas a porta se mantém aberta, deixando adentrar a friagem das 3h da madrugada… A espinha gela na presença do inóspito, posso escutar a tua voz, mas trazida por outro, por aquele que tem sede da minha alma, tem sina pelo meu mal interior, mas não serei objeto de uma tramoia. Sinto saudade, sinto seu chamado, mas ciente estou de que não fostes tu quem voltastes a me encontrar… Procuro o material prateado (que ainda tem marcas suas), com o qual me causo algumas dores externas, das quais já não me incomodo mais. Vou gotejando rubro, cada degrau que subo aumenta o peso em minhas pernas, visto um colar de fibras entrelaçadas, faço-lhe um arranjo firme… um paço em frente… “Helena, adeus”.

Não sinto mais o frio, o suor, a dor… Ainda há um sangue irrelevante que a pouco se empossa. O chão da sala é palco de um espetáculo vermelho, preto e cinza… a porta aberta, meu corpo balança e os pés não tocam o chão. Há um silêncio absoluto e o cão está ali, deitado ao lado, no carpete, pois viera conferir… O vento volta forte, felicita a minha chegada, parece cantar como nunca, bate a porta de entrada e as janelas balançam. Minha alma sangra e meus olhos se fecham.

“Perdão, Helena. Fiz com que partisse, e tu, fizeste que com me buscassem. Mas os nossos caminhos são díspares e o meu demônio agora dorme, ciente de que não nos sentiremos nunca mais”.

Espiando um acanhado cotidiano: A Contrafação

De longe pude notar a balbúrdia. Um pouco de gente, dessa como eu, que não tem muito que fazer. Um botequim de quase nenhum consumidor, mas alguma platéia. A princípio um vestígio de conversa fiada que encadeou o tumulto. Um homem grande, forte, gesticulava a esmo. Tinha raiva incontida e alguma certeza no que dizia, ainda que meia dúzia de homens ao seu redor discordasse. Falava um bocado de palavrões, arremessou uma cadeira contra dona Judite, que na passagem pestanejou um “bem feito”.

Não podia ser contido pelos companheiros ou pelos curiosos, o que ele queria era a verdade. De longe, sentado em uma das cadeiras que sobrava, observei com atenção e nem um gole de cevada pude desfrutar, enquanto um senhor assustado se aproximava. Esperei atônito. O homem meio amarelo, convicto de atuar naquela cena de alguma maneira significativa. Veio dar ao dono da fúria o que lhe era de direito e tirar-lhe um peso que tanto lhe afortunava.

Um homem de parco tamanho e aparente fraqueza, que poderia ser morto ali mesmo! Era como se cada suspiro seu fosse a certeza de que ainda podia… se estava vivo, portanto, devia continuar. Seus passos ficavam mais pesados a cada centímetro que se aproximava daquele cenário, sinto que ensaiava essa cena centena de vezes. Dentre orgulhos e caprichos, estava prestes a eivar aquele ambiente de um regionalismo tolo cujo uma reação impiedosa ascenderia o sentimento de glória. Glória fracassada e triste, mas ainda glória, entre “machos” como ele, como eu, ou como tantos de nós. Adentrou, parou de frente ao homem grande, que tinha um companheiro tentando segurar-lhe cada braço… Olhou para cima e iniciou:

“Meu senhor, não se incomode a fim de sanar uma dúvida que farei sem pestanejar. – o homem sentira-se desafiado. Quem seria aquele raquítico tomando seu tempo? – Fora um beijo? Sim, eu lhe digo, ou melhor, lhe confesso – neste momento sua raiva pareceu tomar projeções inimagináveis, mas se conteve. Não sabia se podia acreditar, precisava ouvir até o final – Teve um pouco do seu mérito, já que o seu descrédito enquanto pátrio familiar, enquanto amigo e companheiro, fez com que ela procurasse novo abrigo. Foste um ato uno que em mim, postou-se a eternizar-se. É bem maior que qualquer sonho e se eu morrer sozinho eu terei do que, e de quem, me lembrar, com pouco orgulho, mas muito sentimento. Se o céu existe, terei do que me gabar ao chegar. Se acabar junto a terra, eu levo o que a lembrança deixar. De uma forma ou outra, estou convicto, embora em meio a tanto risco, que vivo aquilo que um amor podia proporcionar-me. O amor tem dessas, o senhor sabes? Não, não sabes, porque o senhor nunca o sentiu. O que o senhor tem é desejo, é libido e propriedade o que às minhas vistas, culmina em destreza. O que aconteceu comigo é só aqui, dentro do peito, ainda que seja um ato covarde e um sentimento suicida. Não estou aqui para me desculpar, embora deveria… Mas a vida há de convir, que sendo justo ou injusto, algumas coisas simplesmente acontecem, sem que alguém faça um juízo de errado ou certo. Postei-me numa condição em que o resultado virá de seu arbítrio”.

Um silêncio inconveniente se apossou do momento, sem trégua. Encaravam-se, estáticos. O desconforto instaurou-se na calma. O suor descia à face do pequeno homem… O traído e o traidor, cada um propondo a sua significância, cada qual dono da sua justificativa, da sua justiça, da sua razão… O grandalhão e o poeta falido. Uma mulher, dois homens e um delito. Sem meias palavras, o marido desviou-se daquele e partiu cabisbaixo. O poeta seguiu em frente, apanhou um trem sem destino, realizado e sem pretensão de olhar para trás. Da adúltera não se teve notícia. Pouco se acredita que esteja viva tão como aquele que, desse modo, usurpou da sua liberdade. Judite passou uma vassoura no chão empoeirado, as cadeiras foram reorganizadas. A minha cerveja ainda estava gelada, antes de partir, esperei a tarde acabar e o crepúsculo borrar o céu. Apanhei o chapéu, deixei as moedas, algum dia eu voltaria por lá e seria, quem sabe, expectador doutras histórias.

Bosquejos de Vincent – parte III

 

Vide: Bosquejos de Vincent Parte I

Vide: Bosquejos de Vincent Parte II

 

Os minutos castigavam-me como suplícios intermináveis. Loucura e verdade confrontavam em meu cérebro. As verdades que eu sabia; as que me esperavam; e as falsas. A loucura consequência do meu próprio ato, a ausência de sanidade antônima à presença de uma fuga e sinônima da minha dor.  Postei-me, como de costume a caminhar… Ficar cerrado em cárcere faria daquilo tudo mais meticuloso. Crueldade que alguém, em apreço, assistia. Eu não faria questão de cooperar. Ao menos, ainda não.

Ouvi um latido, me pareceu longe demais pra alcançá-lo. Mas era uma oportunidade única. Embora limitado a uma dicotomia plausível e repugnante: Ou era a resposta, ou proposta do demônio. Ciente daquela armadilha, e do meu destino dantesco, encarei ruas e ruas disposto a ter – seja dádiva, ou castigo – a personificação animal, daquele que viria me punir pelo ocorrido. E proclamei, aos berros, “Na ode complacente das dores, no frio martirizante oriundo das torres, Helena, chegou a hora de nos reencontrarmos!”.

Autógrafo de epitáfio lúcido

Santo Deus, que quarto sujo. Que desordem. Claro que de cabeça para baixo, tudo parece que é confusão. Mas ainda acho que devia ter limpado. Devia ter arrumado as gavetas, escutado o meu CD preferido. Eu podia mesmo era ter assistido mais uma vez ao Tarantino. O cigarro vai terminar primeiro, antes que eu perceba que não estou mais ali. As cinzas caem ironicamente e eu vejo graça em assistir a desgraça acontecer. Meu suspiro é leve como pluma, existe um ar que circula, mas já não me vitaliza. Exatamente como a chuva lá fora, que pouco molha, mas incisivamente esfria. …E como, está tão frio que minhas juntas doem e já não sinto minhas pernas. Talvez seja apenas o meu corpo que já não mantém calor como antes, ainda que conflitando com espasmos. Talvez seja a cessão da minha capacidade de sentir e qualquer outra relação a isso é mero vício da fala a fim de criar sinestesia. Está nublado, ou são minhas vistas? O dia está triste ou é só minha ex-vida? Se ao menos pudesse acender a luz… Percebo que as despedidas são deveras demasiantes ainda que não se tenha a quem despedir… Acompanhe.

Eu espero ansiosamente alguém entrar pela porta. Não para me dizer que era tudo uma brincadeira e que na verdade estou salvo. Não para dizer que vou ficar bem, isso já não importa. Era só para eu desfrutar de um último abraço ou assistir, naquele quarto, uma presença viva. Sabemos que não vai acontecer. Não há absolutamente nada pior do que frustrar-se com si mesmo. Assim o fiz. Espere que as pessoas se decepcionem com você. Espere, pois vai acontecer. Vão dizer que seus problemas são menores e que suas angústias são reversíveis. Vão lhe atribuir toda a culpa dos problemas do mundo. E estarão certos. Esperam de você o que não pode dar. E serão apoiados. Poucos méritos atribuirão àquilo que se esforçou para obter, isso quando for reconhecido. A decepção é comum e é a certeza. O sucesso, a vitória, é exceção, é surpresa pode ou não ocorrer. Eu me esbarrei no “não”.

Hoje tenho companhia. De todas que não percebi uma que sempre esteve presente. A outra, consequência. Uma que sempre me cercou e eu fugi, negligenciando as possibilidades. A outra, simplesmente consequência. Fui tão incompetente que nem a mim consegui enganar. Hoje, sou eu, a solidão e a saudade. De tudo o que eu achei que tive, é só o que levo comigo.

Daqui eu vejo meia dúzia de livros, o computador ligado e a cadeira ao chão, me acompanhando… Minha estante, meu quadro dos Beatles e o guarda-roupa, me assistiam…  Esperei por muito, muito tempo, que os sonhos batessem à porta e me tirassem da inércia. Esperei que o sorriso pudesse ser comprado e que do destino alguém se encarregasse. Por essas e outras admiro – e sugiro que façam o mesmo – aqueles que são determinados e não esperam sentados e de braços cruzados que as coisas, por si só, possam acontecer. A realidade se movimenta e precisamos de ritmo para acompanhá-la, caso contrário é fazer como eu e, mesmo sem saber, dar tempo ao tempo. De tudo o que ouvi na vida, jargões e filosofia barata, uma coisa é certa: é triste morrer sozinho.

Canja quente

Canja. Pior que muita coisa. Melhor que ficar com fome. A colher tinha uma marca de sabão. Levantei irritado, mas não pela sujeira no meu talher, apenas porque não queria me movimentar. Nada de poupar energias, só não queria um motivo para sair do sofá, me continha lá, quieto, apreciando a dádiva falida da minha existência. Para muitos (eu disse “muitos”, com toda proeminência do advérbio), eu nem existia.

Molhei, esfreguei um pouco entre os dedos e estava nova. Voltei e me sentei com ar de vitória. O “vencer” era só de voltar à minha derrota. O televisor nem entretinha ninguém, só rompia o silêncio. A canja ainda estava quente, eu soprava e só olhava para a colher, mas podia perceber Gorete despejada no outro sofá como um saco pesado de areia. Eu soprava a colher e escutava a tosse habitual de Dona Clotilde no quarto, na cama. Dizia ela que só estava esperando a sua hora, sem ânimo de incomodar, mas sei que, naquela casa, ela era quase a única que ainda torcia por si, ainda que encenasse, diariamente, um pessimismo mórbido. Os outros a viam como um estorno. Ela era, inclusive, a que menos tinha pressa de partir.

…A canja estava esfriando. Alguém mexia na cozinha, entre os pratos que ainda restavam e as panelas. Devia ser Seu Antônio, a fim de coar um café. A canja estava sem sal, sem vida. Eis a minha referência, se comparado a um alimento. Se, por conseguinte, aquela canja pudesse algum dia, servir de referência como alimento. Nesse caso, aquilo não seria uma refeição apenas, seria um ritual de canibalismo, onde me alimentava da minha própria imagem. Sem graça, sem sal e agora fria.

Gorete roncava como um carro velho subindo um caminho em declive. O café não saiu e Clotilde parou de tossir. Não se espantem com a aparente desordem. Não quero ser o novo Aluísio, ainda que com semelhante insalubridade, coletividade e ambiente catastrófico, isso aqui era diferente, era uma concepção grotesca de “Família”.

O aluguel não fora pago, a luz a ser cortada e a canja não fora consumida, restavam algumas colheradas quais eu não estava disposto a concluir. Subi para o meu quarto, que por sinal não era completamente meu, já que eu dividia com o Júnior. Não havia cômodos suficientes. Pra piorar, um novo morador estava por vir, o bebê de Glória. Para Seu Antônio aquela espelunca era como o jargão “coração de mãe, sempre cabe mais um” só que sem a mãe (e sem o pai).

O prato que deixei sobre a mesa provavelmente atraía moscas, mas na pia da cozinha não tinha espaço para mais um. E não vivíamos em um recinto de ordem e coisas postas no lugar. Um prato, copo, ou até mesmo um elefante largado na sala, não se faria por ser notado, nem seria incômodo.

Eu não tinha profissão e nenhuma profissão me queria. Eu escrevo, e quem escreve é desempregado, é vagabundo. Escrever é pra filho de rico. Eu desenho, mas quem desenha é lunático (e vagabundo). Eu toco alguns instrumentos e canto (digo, já cantei, noutras épocas), mas músico, se não é famoso, é vagabundo. Na verdade todos esses adjetivos cabem reciprocamente e, ao mesmo tempo, a todas as “profissões” sugeridas. Mas eu sou apenas um vagabundo. É mais fácil definir assim, ou assim é a maneira como, mais facilmente, me definem. Com o tempo aceitei o rótulo, a casa, a vida…

Ainda tinha canja na panela. Provavelmente seria o meu almoço de amanhã. Dona Clotilde nunca mais tossiu e demoramos um pouco para notar, se não fossem as narinas… Fiquei triste, mas não tanto como deveria. Gorete tinha um compromisso com amigas que nunca existiram. Glória tinha serviço. Eu e seu Antônio tínhamos pena, então fomos com Clotilde, jogar-lhe umas flores sobre a terra e diante da lápide feia e sem epitáfio, fazer-lhe “o nome do pai”.

Gorete, a gorda, queria o quarto, mas temia uma aparição. Eu não queria transportar-me para um espaço com ainda pior cheiro que o meu, neguei, por conseguinte. Talvez o Júnior. Esperemos, que quando chegar da escola ele decide.

Éramos todos fantasmas naquela residência. Negávamos, paulatinamente, a convivência. “Sub-vivíamos” com o que dava para comer e com e que precisávamos, ao mínimo, para existir.  Gorete era depressiva, mas ninguém via. Gorda e comia como um porco. Fazia outras coisas também como um porco, mas não há porque citarmos. Via-se presa na sua própria infelicidade e tinha a sua gordura como uma defesa, como um habitat particular mediante tanta desgraça. Introspectiva e mal educada.

Glória fazia-se de feliz da vida. O que me dava certa raiva que felicidade sem motivo nenhum, ou é idiotice ou hipocrisia. Trabalha de manhã à noite. Ajudava com o que podia e ainda punha um filho no mundo. Pobre glória. Pobre em todos os sentidos. Seu Antônio, um tio, irmão de uma mãe, aposentado, porém tinha dívidas para mais três vidas… Clotilde, uma avó, morta. Júnior, um sobrinho bastardo, adolescente. Eu, vagabundo e órfão.

Os dias se passam misturados às horas e a gente nem nota. Certas coisas acontecem por acontecer. Desencadeadas por uma sequência de atos sucessivos, ou por uma palavra apenas – no meu caso, por um conjunto delas. Dentre minhas palavras rabiscadas em cadernos, algumas tomaram outro rumo. Um rascunho nas mãos de um amigo, que tinha um amigo que era amigo de outro amigo que conhecia alguém que entregava jornal em uma editora, que por sinal trocava palavras e carícias com a moça da diretoria. Ela gostou do que leu e eu gostei do fim que foi dado.

Fui convidado a me apresentar à editora. Custei encontrar uma roupa limpa, mas isso nunca importou muito. Como não possuía nenhuma ocupação pude chegar ao local combinado com duas horas de antecedência. Na verdade, havia poucas opções de transporte coletivo, eu tive que pegar o ônibus que passava mais cedo, o outro geralmente atrasava. Não estava acostumado a uma conversa de negócios e nem era capaz de concluir o que o excesso de neologismos e metáforas ditos por aquela mulher significavam. Soube, por carta, que outros editores se interessaram pelo texto e que alguém, eventualmente, se encarregaria de publicá-lo. Confesso que tudo aconteceu como um súbito. Não sei explicar bem porque na verdade, à época, não assimilei toda a sucessão de acontecimentos (dos quais, em poucas oportunidades participei).

Segundo uma revista qualquer da qual não me recordo o nome, eu havia escrito o Bestseller da realidade pobre brasileira.  Ocultada, claro, pelo futebol, pelo carnaval e pela nudez da Cléo Pires. De todas as minhas escritas, talvez a mais idiota. Auto-ajuda barata e insossa com cunho de ficção. A balbúrdia de “O Cortiço”, a interlocução de “Dom Casmurro”, uma tragédia com princípio de Sófocles, mas desfecho de amador. O personagem principal é o bonito do meu estereótipo, mas nada como Doryan Gray… As pessoas se surpreenderam e ainda me perguntam como produzi obra tão boa e completa, enquanto na verdade, são apenas paráfrases da vida alheia que ainda existem em mim. Carregado pelo clichê “ta aí, diante dos olhos e ninguém vê”, meu livro ficou famoso e meu vagabundo (antes por ocasião, agora por conveniência), cá fora das páginas, bem-sucedido, sabe-se lá o que significa isso.

De todo modo, devo assumir que tenho novos estereótipos, menos pejorativos e talvez, menos verdadeiros. Nesse país escritor não fica rico, mas a minha realidade até esmola seria capaz de modificar. Dessa forma,  a TV dobrou de tamanho e ainda rompe silêncios. Existe um carro na garagem, aliás, existe garagem. Não só o quarto passou a ser meu, mas também a sala, a cozinha, a casa (uma casa de verdade)… A energia, tudo indica, não será, por tão breve, cortada. Os outros não estavam aqui. De todo modo, acredite se quiser, a vida é muito mais que isso – só não sei como, nem onde.

Hoje, sentado no sofá, frente ao televisor, com um cotidiano diferente, com uma realidade material diferente, mas com a insignificância existencial de sempre, eu sinto falta de uma coisa: da canja quente e da colher com vestígios de sabão!

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O Condenado – personagens.

  Alfred Thompson. Escreva aí, camarada.

  Soletrar? Ah, sim, claro. A – l – f – r – e – d – t – h – o – m – p – s – o – n. Não senhor. Não sou culpado. Ao menos não do que vocês estão a me culpar. A minha história é triste, mas não acho que estamos no lugar ideal para que seja narrado o drama de uma novela… Vou dizer o que não cabe segredo e tentar ser o mais sucinto possível. Os senhores provavelmente estiveram em uma condição catedrática diferenciada, boas oportunidades na vida. Caso contrário, não estariam na posição qual se encontram, aí, do outro lado, olhando para mim. Se nossas vidas estivessem se cruzado há alguns anos, poderia ser eu, o privilegiado, adotando uma perspectiva um tanto quanto patética ao conceito de “privilégio”, claro. Estão me acusando de um homicídio, mas ninguém pode ser culpado pela morte alheia, nem mesmo o morto, digo, quando suicídio, se é que me entendem. Atribuir “culpa” a “morte” é uma enorme incoerência. Morrer não é uma lástima ou uma sentença, morrer é uma certeza, só isso… A palavra não é “matou” a palavra é “morreu”. Roubo não! Senhores, se eu tenho fome, eu como. Roubar é subtrair para si ou para outrem, algo de propriedade alheia. João Alquino era o dono do trigo e, depois de extorquido, teve de “repassá-lo” a alguém. Emanuel fez o pão que custaria 46 moedas ao povo e obtém de seu senhor, apenas 10 moedas pelo tal. O carrasco se abstém dos impostos e eu não pude pagar por esse pão da hipocrisia. Contudo, tenho fome. Tenho fome e eu preciso comer sabem do que falo? Tinha um gosto de vergonha, mas saciou a dor. Quantos desses pães têm em suas residências, camaradas? E quantas verdades? O seu trigo, senhor da cadeira maior, era diferente do trigo do senhor Alquino? Que seja. Formação de quadrilha é risório! Nem sei quem são esses que vocês insistem em dizer que são meus “companheiros do crime”. Ouvi dizer que um aí é assaltante de bancos, isso é interessante. Nem tanto pelo dinheiro, mas pelo risco. Mas repito, não sou bandido, fui parido pelo mundo e ele não quis criar. Agora, depois de 23 anos querem moralizar a incompetência do Estado. Quem precisa ser reabilitado está lá fora, na mais nobre carruagem. Não me interpretem mal, longe da minha pessoa fazer um motim, a verdade é assim mesmo, escancara as portas sem cogitar as consequências… Fiz isso na música, a madeira fina do violão fez desse o meu amigo. A gaita é só pelo som aconchegante e alimenta almas sem muitas projeções e esperanças. Os senhores gostam de blues? (…) Tráfico? E para que vender a liberdade? Ta aí uma coisa que devia ser revista, o conceito do que é tóxico e o que não. Estar drogado é estar vivo, é ter os olhos abertos diante da impunidade com os “inacessíveis”. Confesso que, por um dia, queria uma cadeira no clero. Vocês teriam um café aí pra mim? (…) Heresia? Senhores, não sejamos arcaicos e obsoletos. Como atribuir toda bondade a Deus? Se ele segurou casas em pé, dormia quando começou o dilúvio e derrubou muitas? Se lhes deu o que comer – aponta ao corpo de jurados – quem é que tira dos meus? Se lhes deu camas macias, por que os meus morrem enforcados? Por onde ele anda? Desejo que se sente aqui, conosco e concedendo-nos o prazer da sua presença suprema, participe dessa festa como réu. Com todo respeito, camaradas, um homem só pode julgar outro quando estão nas mesmas condições, o que não é o caso. Terão de nascer de novo, ou sortear um juiz entre vocês para por uma cadeira ao meu lado enquanto me retiro daqui e retomo o meu anonimato.

 – O senhor profere palavras insanas contra a corte! Há mais alguma coisa que queria acrescentar antes de declararmos a sentença?

…Posso ir ao banheiro? (…) Aliás, quando disserem que sou louco vou dizer que sim, mas essa não foi minha queda. Eu estava preparado para a loucura, ela é que não estava preparada para mim. Sentenciados, caros senhores, estamos todos nós! Mas que sejam profanadas as suas asneiras.

 O Juiz, chefe do conselho que compunha o corpo de jurados, interveio:

– Ainda não! Quero ouvi-lo. Deixe que continue. Entretanto, senhor Thompson, caso venha a se dirigir a essa corte com desacato, depreciando-a, outra vez, será queimado em praça pública sem mais!

  Como quiser excelentíssimo, queridíssimo, meritíssimo juiz. Depreciar ou não é um mero ponto de vista. Entretanto convenho a cumprir como foi dito pela sua pessoa e bem entendido pela minha. Nota-se que os senhores têm que ilustrar aqui a existência de um grau de hierarquia. O subalterno e os doutores. A roupa cara, bem postada e a roupa rasgada. Cadeira alta, cadeira baixa. É tipo a donzela e o plebeu, mas nesse caso eles não se gostam. Sem piadas? Claro, claro. Nem sabia que estava sendo engraçado. Continuando… São os que podem denegrir de um lado e o que tem a obrigação de permanecer calado, já que suas palavras atingem os seus senhores, enquanto o “bandido” que é cuspido, com muita verborragia, a mim, é interpretado como uma qualificação. É o que eu chamaria de rótulo preconceituoso, mas vou parar por aqui, pois nota-se pela expressão daquele que intercedeu para que eu tenha uns minutos a mais, que as minhas chances estão perto de se esgotar e tornar-me um belo churrasco de carne suja não está entre meus objetivos.

 – Já percebi que o senhor entendeu Senhor Thompson. Continue apenas com as partes pertinentes a esse julgamento.

  Como posso continuar postando-me em uma linha tênue de tolerância se os senhores insistem em se considerar aptos a julgar!

 – Senhor Thompson, não terá outra chance, é assim que pretende continuar? Posso parar por aqui e aplicar-lhe o que prometi!

  Não, não, muita calma camarada. Muita calma… Vamos acreditar no que os senhores constroem aqui, nessa ocasião. O que os senhores chamam de “julgamento”. Haverá um dia, camarada supremo, aliás, senhor juiz, perdoe a inconveniência dos meus vocativos. Continuando, haverá um dia em que os loucos serão idolatrados e o povo há de condenar aqueles que se vêem detentores da lei. A única lei qual eu respeito é a lei da sobrevivência, da qual respeito, mas pouco utilizo, pois quando o faço venho a parar onde estou nesse momento. Proponho aos senhores, que vão, um dia, conhecer o lugar do qual eu venho. Vejam as nossas crianças, vejam as nossas casas, vejam a nossa comida e principalmente, o quanto há nos nossos cofres, pois os bens materiais e as moedas palpáveis regem as estruturas quais os senhores se alicerçam e pouco importa para os meus. Eu não tenho medo do que os camaradas chamam de sentença. O que eu quero dizer é que não estou com medo agora, nesse instante. Fui ferido pelos seus, mas não tenho dor. Não tenho tristeza ou ódio. Poderia ter pena, já que os senhores não conseguem notar o limite da própria ignorância. Decoraram um livro de normas, decoraram como aplicá-las conforme o ensinamento de outro magistrado aristocrata. No mais são cegos, surdos e mudos. Ainda assim, não sinto pena, o que sinto é vergonha. Não é vergonha por mim, não é vergonha por algo que fiz, já que sou o detentor dos meus próprios julgamentos, dentro da minha ótica do que é certo e do que é errado. Tenho vergonha dos senhores, tenho vergonha de compartilharmos a mesma sala. Tenho vergonha de olhar nos olhos de homens que nunca saem dos seus castelos, mas se julgam detentores do poder interpretativo do que é melhor e o que é pior àquelas quais os senhores não conhecem, dos quais os senhores fogem e covardemente se protegem, já que nós não temos como nos proteger de vocês. A discrepância de nossas armas é incalculável. Enquanto temos facas, os senhores têm títulos de nobreza e tribunais. Porém, não se esqueçam que somos maioria.

 Thompson sabia o significado e as consequências de suas palavras. Esperou ansiosamente a fúria dos jurados que unanimente o mandariam para a forca em instantes. Entretanto, se surpreendeu. Estavam todos calados, na expectativa de que o réu continuasse o seu depoimento. Poderia falar por mais umas duas horas ininterruptas, mas postou-se a sintetizar suas conclusões.

   Senhores, eu ironizo o vocativo “meritíssimo”, pois a mim, não há mérito que os consagre se não o sobrenome que carregam. Não a sangue diferenciado, ou predestinação. Nessa sala, se não houvesse conhecimento de nossas situações e condições, seríamos diferentes apenas pela cadeira que sentamos. Seria um dia, quase digno de julgar. Quero alertá-los, camaradas, que nós, podemos ser punidos todos os dias, que não vai fazer diferença. Nascemos inerentes à punição! Somos castigados diariamente pela vida e a privação de nossa liberdade está longe de nos intimidar. E podem matar cem de nós por dia, que eu tenho certeza que duzentos estão a nascer e aptos para incomodar. Estamos encontrando os meios, estamos nos equipando de armas legítimas, estamos partindo para uma guerra. Aqueles como eu serão lembrados e taxados como um incentivo. Os que sobreviverem, é óbvio. Pode demorar, mas os loucos, como eu, porão o seu sistema a ruir. Vamos “subir” pra buscar o que é nosso. Com Deus ou sem Deus, na terra dos homens vence o que melhor lutar. Se for um céu que nos espera, compartilharemos de um reino, estando todos no mesmo nível. Nesse caso, vou procurá-los para fazer devidas cobranças, senhores juízes. Se eu, e os como eu, dito súditos, formos para o inferno, ótimo, pois povoado será esse lugar, pelos mais nobres homens que habitaram essa escória, qual chamam de terra. No mais, prefiro que apenas a morte nos espere como sempre acreditei. Tenham fé, no seu Deus, camaradas, pois a minha fé está no novo conceito de justiça que os meus estão se preparando para construir.

Alguns minutos de silêncio. O Juiz se pronuncia.  

Eu intercedo por esta corte. Hoje tomo a responsabilidade de calar os meus colegas. O senhor está longe de se assemelhar a qualquer indivíduo que já passou por aqui. O senhor não vai mudar o meu conceito sofre crimes como furto, os inoportunos como a morte, muito menos a minha fé. O senhor é dotado de uma ousadia inconsequente, porém oriunda de sua indignação, qual, como o senhor mesmo disse, eu não vivencio, mas conheço. Um tribunal não pode se auto-sentenciar como detentor de medo produzido pelo réu. Mas confesso que esse receio, hoje aqui, nasceu em nós, corpo de jurados. Alguns interpretariam como uma forma de ameaça do réu para com a autoridade que o julga. Mas esses, eu acredito que não são detentores de poder de interpretação. São os que o senhor chama de “surdos, mudos e cegos”, conceito qual eu me enquadraria na sua ótica de argumentação. É um contrassenso eu concordar, mas uma ignorância eu negar. Deus esteve aqui presente, por mais que o senhor não venha a crer na sua existência. Deus esteve aqui, não como réu, mas com o réu e com os juízes. Ele intermediou a cerimônia. Graças a ele eu faço uma nova sentença. O senhor, Sr. Thompson é um indivíduo único, uma rara criação de Deus…

  Meritíssimo, ou como preferir ser chamado. Por favor, poupe o discurso, não se desvie do seu caminho. Cumpra o primeiro ato digno da sua vida, eu não entrei aqui para sair vivo. Não me decepcione.

 O Juiz ficou aturdido. Sabia o que Alfred queria, e sabia que, infelizmente, teria que dar a ele. O tribunal estava agitado, aqueles privilegiados que assistiam quase não conseguiam se conter em euforia.

 – Senhor Thompson, muito me impressiona o quanto suas palavras de ares insanos, são possuidoras de verdades e de promessas. Custo acreditar que o senhor descobriu e já utiliza as tais “armas legítimas”. Agora tudo faz sentido. Sei que morrendo o senhor será bem mais repercutido do que em vida. O discurso desdenhando a morte já ilustrava a sua cobiça pela condenação, mas fui cego e surdo no exato momento em que você queria. O senhor é realmente grande demais para caber nesse mundo. Dou-lhe o mérito por eu retirar-lhe o rótulo de bandido. É músico, profere um blues muito apreciado nas periferias. No que posso deduzir um conselheiro aos fracos e um compositor de letras revolucionárias. Plantando na mente das pessoas uma semente que a lembrança da sua existência vai cultivar até que todos possam, pelas próprias mãos, fazer as devidas reivindicações, no dia que forem loucos como o senhor e entenderem que são a maioria. Muito bem. Cometeu os delitos dos quais sabia que, mesmo convencendo-nos de que era honesto e concretizando o respeito que precisa para entrar para a história, não poderíamos deixar de aplicar-lhe a sansão, qual também precisa. Fui mudo, quando o senhor precisou falar. Sabe bem que a primeira coisa da qual seus “loucos” vão cobrar é a sua morte.

   Errei em subestimá-lo, camarada superior.

 O juiz suspirou e esboçou um ar de catarse e frustração de quem sabe que cavou a própria cova…

 – Eu declaro o senhor Alfred Thompson, culpado pelos crimes de assassinato, furto e heresia. Sentenciado a pena de morte por decapitação, conforme manda o código de leis diante da acumulação dos crimes citados e suas devidas qualificações penais.

Thompson abriu um leve sorriso e foi levado para a guilhotina por alguns militares enquanto os outros disparavam tiros contra a multidão que atirava pedras nos juízes. Antes de ser decapitado, o condenado ainda indagou:

   Qual será a reação de Deus quando o herege for santificado?

 

 

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Enquanto isso, na tribuna de honra do transcendente :.Parte I

… Cinco adjetivos e seus discursos envolvidos foram convidados pelos filósofos a sentar e beber.

O Misantropo:

– É preciso uma pessoa para fazer o papel de medíocre. Aliás, é preciso um para sobressair aos outros, pois todos nós somos medíocres. Somos lixo, um escarro do mundo, uma lastimável parcela de massa ambulante, produto de uma sociedade que por vez é de nosso fruto, ou seja, somos oriundos de nossa própria incompetência. Eis que assumimos o papel de lixos hipócritas. É como querer crucificar o cara que você vê no espelho. Não são os Deuses grandes demais, nós é que somos muito pequenos, e por via da transmissão de credibilidade, somos comparados a eles… Como se ambos partíssemos de uma mesma origem e pudéssemos todos terminar com um mesmo fim. Isso favorece para que algumas religiões sejam tão questionáveis e o homem tão absoluto quanto a sua pouca importância – se tratando de existência, se é que me entendem. Tiro um peso dos ombros. Não por agredir a mim mesmo – tão como meus semelhantes -, mas por cuspir na cara do mundo.

Nietzsche refutou:

– Um amigo deve ser mestre, tanto na arte de adivinhar, quanto na permanecer calado. Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno. Feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade. *

O Hermético, não podia ficar calado, quis dar um disparo de voz, uma contribuição que a muito não intervém:

– Eu não sei se sei bem, mas sei que de algo tomo conhecimento. Simples assim. Digam-me vocês, quais são as tendências? Ou melhor – entretanto, contrapondo minhas próprias ideias – o que é sensato e o que não? Quantos são os sinônimos para que as coisas façam sentido, ou o sentido redundante, que provém da essência adjacente do ser, em sua ontologia metafísica, física, psíquica e imoral, para que nos provoque a epifania comum e cotidiana, da qual nos abstemos a fim de não ter fim algum? Temos a pretensão em pensar, entretanto, sem muitos objetivos e sem muitos sujeitos acrescidos de valor?

Platão:

– Pode ser que sim, pode ser que não…

O Cético, já irritado:

– Não sei ao certo quais são os mais sensatos, quais são ouvidos e quais não. Não faço ideia do que seja justiça, já que vejo na injustiça parte da minha razão. Não vejo explicações nem a ausência delas. Por um tempo acreditei que eu era o problema, que o erro era ser o cego. Mas a questão não é particular, se não posso provar, questiono. “Para que?”, “Por quê?” e “quem?” sanaria meus desejos. Sou quase uma doença, mas eu persisto na crença imunda do “não crer”. Que seja da melhor maneira, até que me provem o contrário, ou até que eu aceite que, definitivamente, não há mais salvação. Diante das circunstâncias e das inconveniências, deixemos os dias passarem, deixemos as dores curarem e que as respostas se materializem diante dos nossos olhos, oriundas das nossas próprias cabeças.

O Otimista não via a razão daquelas palavras:

– Na renúncia da nossa existência, na cegueira da nossa intenção… É quando o nome se dispersa, a face se regenera, o amor se perde. A verdade enrijece e a dúvida se sobrepõe à razão. O que fiz? Como pode? Como vai ser? Perguntas que são feitas tarde, a falta de identidade fez de o drama merecer. Bastam os espelhos certos e na hora certa em fazer. É ser você mesmo e, não obstante, aceitar. Seja como fardo ou bênção. Não há muitas escolhas, mas as existentes já são suficientes. Daí por diante, são os caminhos que tomamos da forma como lidamos para no futuro podermos nos deparar com o que um dia foi semeado por nossas próprias mãos. A realidade é um sonho bem moldado, mas não é, necessariamente, uma utopia.

Platão caçoa:

– Não há ninguém, mesmo sem cultura, que não se torne poeta quando o amor toma conta dele. *

Schopenhauer complementa:

– Quanto menos inteligente um homem é, menos misteriosa lhe parece a existência! *

Aristóteles, cheio de onisciência:

– De fato a dúvida é um princípio de sabedoria. O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete. *

O Imparcial:

– Perceba que as coisas não são claras, as coisas não são óbvias, às vezes elas nada são. Dirão que essa minha frase é do Hermético, que a filosofia é fora de moda e que o pensamento é insólito, incoerente ou unilateral. Eu não direi nada, pois de um ponto de vista a outro, estamos todos certos e estamos todos errados. Contudo, não se trata, ao certo, de uma verdade absoluta.

Freud, um tanto quanto receoso:

– Essa eu explico. A felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz. *

Kant:

– Felicidade não é um ideal da razão, mas sim da imaginação!

Sócrates, a fim de causar (des)ordem, grita (em direção ao balcão):

– A conta, por favor!

Sartre:

– Deixe que eu pago.

*Citações adaptadas.

Certa Maria da Graça e a desgraça do “destino”

  Era só para fazer show. O intuito sempre foi o mesmo: Chamar atenção. Era o dono da graça, da praça, da raça em extinção: Palhaços do abraço! Despertava-me um sorriso singelo, daqueles que nem fazendo força é possível parar de rir. A ponto de doer-me os músculos que abrigavam os dentes amarelados pela nicotina que desatina o pensamento e a cor.

  Eu queria não pensar em nada, tão como não desejar nada, só assistir aquele momento, fazendo-o ínfimo, mesmo que só no coração. Ele rodopiava, nem me notava, na verdade não notava nada ao seu redor… Era tão seguro de si  que sozinho construía a própria alegria, pouco ciente da capacidade de semear a felicidade por onde estivesse a passar. Olhou mesmo pra mim? Não, deve ser impressão minha – pensei. Errado, para variar. Veio em minha direção, meu coração mais em prantos do que pulos, como se estivesse a engolir um anfíbio vivo e pulsante. Olhou-me aos olhos, desviou ao chão, intimidado. Devo ter-lhe constrangido com uma prévia seriedade de quem não crê no que se passa.

  Todos os dias nós estivemos ali, os dois… Astro e platéia, príncipe e plebéia, arquibancada e show. Hoje, justamente hoje, o jogo tomou novas regras e os dois lados tornaram-se um só. Sonhava que um dia isso poderia acontecer, mas sonhos não são para ser realizados, sonhos são para ser idealizados, para alimentar a tristeza do que dorme acordado, para disfarçar a dor.

  Não, sonhos não se realizam. Contudo, ou sonhei o sonho errado, ou um engano havia se consumado, ou eu ainda estivesse dormindo. Se foi um, ou se foi outro, pouco sei… Na verdade nada sei, já que juntos, nossos lábios preencheram a paisagem. Eu não podia me permitir pensar. Após o ato, o silêncio malicioso nos impediu de falar e a magia se consolidou sem os nossos esforços.

  Podia ser João, podia ser Pedro… Tanto faz já que o “circo” de alegria eu nunca mais vi. Entretanto, poupei as lágrimas. O beijo, eu guardei na gaveta da chave que já sumi. O pensamente era leve, a imaginação se perdeu no tempo e a lembrança, venceu a velhice enquanto pode, deu lá seus últimos suspiros e, atualmente, luta para lembrar porque sou infeliz.

  Um pulmão teve que desistir da tosse, o outro ainda exala a fumaça, aquela que já não desatina, mas ainda me faz abrir a boca. Quem importa? O clichê está consumado, um dia todos hão de morrer. Não sei se foi Deus, não sei se foi castigo… Assim sucedeu minha lástima, assim fizeram comigo. Desejo que as horas passem mais rápido e que esteja em ruínas o que me sustenta de pé, já que me faltam motivos para tal.  Ainda penso, “o criador negligenciou a criação. Deu-lhe a vida sem pedir a questão, mas esqueceu de buscá-la por aqui”.

Infância Proibida

  Sou menino, sou moço, sou bobo. Que posso, tão tolo, fazer por mim? Eu notava por entre as janelas um alvoroço passar. Eu seguia desenfreado, caindo em buracos, ciente de que a busca não teria fim e o desfecho estava tão longe de mim quanto eu da minha resposta. Bastavam as perguntas certas. A curiosidade começava no par de pernas que não estavam expostas por minha culpa. Subia os contornos do corpo e perdia na dúvida de um alguém nu. O meu corpo reagia como eu não queria, mal sabia para que servia aquilo que se despertara assim, alicerçado na imagem e em prol da imaginação e da vontade… E que vontade! Do que? Não tenho certeza, mas o desejo era o anseio que não me cabia aos membros e que por para fora era como consolidar um sentimento ruim.

  Um dia, no olho mágico, andando disperso vi o ato se consumar. Nem tudo fazia sentido, mas o que eu queria era o exercício que estavam ali, a praticar. Ciente da minha insignificância me retirei do local. Passei as páginas esperando Nelson me falar, exatamente o que eu precisava ouvir. “A fidelidade devia ser facultativa”, me pareceu sugestivo, se estavam de laços dados poderia, a criatura, optar por caluniar.

  Dito e feito. Não me peça que explique, a carne falou por si, o tato ganhara vida e a cena se enrijeceu. Não foi preciso poupar contato, o ato ficou marcado, foi bem melhor que por trás da fechadura. Voltou para o seu amado, fingira que nunca me viu, fui dito como o coitado menino, o amante dos dias escuros, que luz alguma possa clarear. “Pega lá o teu Rodrigues, ocupe a mente e pare de pensar lorota!” … Nelson mais uma vez mestre, me disse, “amar é ser fiel a quem nos trai”.

Aceitei a condição e descobri no quarto ao lado, outro recanto de travessuras.

Casou-se com o descrer, na ausência do pudor

  No horário que até mesmo o vento respeita o silêncio da noite, devemos estar em casa, embaixo dos cobertores. Madalena não, essa era exceção, mas quem importa?

  O tecido é justo e na escuridão das ruas todo aquele aglomerado de cores torna-se mórbido, mas não faz diferença, já que apenas a sugestão do traje é suficiente…

  Devemos chamar de destino o episódio pelo qual não optamos por acontecer, mas não era o caso. João quis estar ali, foi mais do que acaso, foi descaso, com aquela que, segundo ele, o menospreza e não reconhece o valor que tens. “Que esteja dormindo e nem note quando eu chegar” – pensou.

  Essa era mais “viva” que aquela. Tendo um preço ou não. É sempre um financiamento mesmo, tanto à que limpa a casa quanto à “mãe-de-todos”, a diferença é no retorno, ou melhor, na retribuição. O “reconhecimento” na rua era maior e o prazer da carne satisfaz o tédio tão como anestesia qualquer dor na consciência.

  Madalena diferente da mulher tradicional, era hedonista, vivia em prol dos próprios extintos, a saciá-los e entendê-los. Contudo, cedera a João o afago. Concedeu-lhe a dádiva do matrimônio, mesmo que na informalidade, já que o ato já havia se efetivado anos antes, com outra senhora, em outros cobertores…. Naquela época, esse laço quando dado, difícil de desatar. Fugira aliviado, como um viúvo sem causa, tendo a companhia daquela que abdicara de tudo que havia aprendido a gostar. De condado para condado não há muita diferença, é de costume de um povo o dom ou a lástima de “comentar”. João não se importava, tinha a confiança necessária naquela que trouxera para casa, aquela com a qual estava a compartilhar a vida.

  Ela sempre ia caminhar logo após o pôr do sol. Leva tempo para se acostumar com uma nova vida, cercada por paredes. Certo noite, assim que chegou em casa, o seu odor suave de Sândalo misturava-se a um forte Almíscar amadeirado. Bastaram alguns “tapas verbais” para chegarem à conclusão duvidosa de que não se fazem mais perfumes como antes. …Da mesma forma o batom borrado: “Era um batom barato!”. O sutiã rasgado: “Já estava velho, mal tratado”. Nem toda mãe é santa, assim como uma Madalena era digna de uma absolvição.

  – E porque está sem calcinha?

  – Veja como são as coisas, João! Lavei todas, antes de me despedir do sol, mas me esqueci de colocá-las a secar.  

  Se Madalena amava João, talvez. Ora sim, ora não, mas quem importa? …João amava era a incerteza.

Eles

vide capítulo primeiro:. https://lpfernandes.wordpress.com/2009/07/03/eles/

Capítulo segundo: Contato

  Uma semana depois e lá estavam os quatro, de volta. Dois desamparados e seus dois bêbados. É claro que ainda no início da noite todos se encaixavam apenas em “desamparados”. Estavam lá, alimentando a monotonia da vida; cinco dias de trabalho, uma noite no bar. Dormir até o meio-dia no dia seguinte e reiniciar o ciclo na segunda-feira que sucede.

 Ele, como sempre, entra pelos fundos, vem cruzando a pista até o balcão.

 Ela, como sempre, na direção contrária, que ir ao banheiro…  Cruzam-se no meio do salão.

Oi.

Eu te conheço?

Eu já te vi algumas vezes, senhorita. Mas se você me conhece, cometeu a indelicadeza de entrar no meu sonho e assistir ao que não foi convidada.

Você é maluco?

Você é?

– ...Ah, é maluco mesmo.

Nesse caso, somos dois.

O que tenho de maluca?

E o que tenho eu?

Tem algum problema?

Todos temos.

Mas tem algum agora?

Todos temos. Todo o tempo. …Ou deixa os seus em casa ao ir à padaria?

O seu caso é sério.

Talvez nem tanto quanto o seu, ou mais, ou tão quanto. Que importa?

– Sua vida é isso, um aglomerado de incertezas?

E a sua é onisciente, tens mesmo a convicção exata para tudo?

Não sei.

Agora sabe, já que “não sei”, não poderia ser a resposta.

(risos)

Eu te fiz sorrir.

Eu sorri por conta própria.

Mas eu proporcionei.

Talvez.

Ta feliz?

Não sei. Deveria?

Sorrindo não está triste, ao menos isso.

Pode ser que sim, pode ser que não.

Ah, onde estão as suas certezas?

Então quer suas dúvidas de volta?

E o louco aqui sou eu?

Por que não?

Todos temos loucuras, todos temos problemas…

Loucura, nem todos. Problemas, você já disse.

Que seja, permita-me o poder da ênfase. Se eu disser que é louca, é louca, então todos podemos ser.

Não, se disser que sou louca, direi que não.

É a sua palavra contra a minha, os seus olhos contra os meus… Não será de toda certeza, nem toda dúvida, será uma possibilidade. Eu acredito, você não, e nos isentaremos da verdade absoluta.

Então você gosta de filosofia?

Gosto da vida, por mais que seja mesquinha. Então você gosta de filosofia?

Gosto de ser mesquinha, por mais que não me importe com a vida. Então não vê verdade no que digo?

Vejo mais que isso. Vejo o sorriso triste que quer abraço, vejo olhos carentes onde até lágrima, está escasso. Só não vejo o coração que você insiste em camuflar.

 – Como sabe se é verdade? Com base em que você afirma tudo isso?

Não sei.

A dúvida não faz da vida um risco?

Nem sempre a dúvida é um risco e nem todo risco é desnecessário.

Deve fazer algum sentido… Mas não importa, já que só quero fugir.

De onde?

“Para onde”, seria a pergunta certa.

Para ir tem que vir, e para os dois tem que haver um motivo, incentivo ou propósito.

Definitivamente, sou mesmo a personagem das dúvidas, estava no papel errado.

Mal sabe quem és, torna-te incapaz de escolher um lado.

Não quer ir embora…?

Tudo bem, eu vou.

Hei, não terminei minha pergunta!

…Peço que continue sorrindo, encantando loucos e curiosos, como eu.

Não quer ir…

Desculpe-me se a importunei.

Embora…

Nem precisa concluir. Sou ciente da insanidade que vê em mim.

–  …Comigo.

Um silêncio interveio como “sim”…

Eu vou!

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