Arquivo mensal: março 2010

Condenados pela dúvida

Perguntaram-me as horas, mas eu não sabia responder. O relógio estava parado, o celular sem bateria, o Sol ardia. Sabia apenas que não era cedo. Olhar desconfiado, meio sem jeito, eu disse: Não sei.

Se tivesse me perguntado a cotação do dólar, eu chutaria algo perto de um e oitenta. Se tivesse me perguntado a sentença do casal Nardoni, também seria mais fácil, “trinta e poucos para um, vinte e poucos para o outro, homicídios qualificados, do pai foi mais grave devido ao laço sanguíneo – assassinato da filha”. Foi uma notícia que protagonizou todos os noticiários durante alguns dias. As horas não.

Talvez eu estivesse louco em dar tanta importância ao ocorrido, mas depois que respondi, o homem olhou-me com um desdém imensurável. Foi como se eu tivesse mentido. Eu não tinha nenhuma obrigação moral em dizer-lhe as horas. Sem contar que é absolutamente normal um celular descarregar e um relógio parar. É claro que não existe a necessidade de carregarmos eles conosco já que estão nessas circunstâncias, mas e a possibilidade de eu não ter notado ambas “deficiências” em meus objetos, não pode ser levada em conta?

Olhou-me como se eu fosse mal educado, entretanto o fato de abrirmos mão de uma gentileza não nos remete, necessariamente, à falta de educação. Provavelmente ele contou para amigos e/ou familiares como fora mal tratado por um estranho ao qual só perguntou as horas. Possivelmente, estes disseram que as pessoas não são mais como antes, que não se respeitam não se gostam etc. Devem ter dado outros exemplos… “ah, uma vez, recusaram-me segurar a porta do elevador e olha que eu carregava um pesado vaso de plantas em mãos…” diz a mãe; “eu disse bom-dia e ela em sequer olhou para mim”, diz o outro… Daí por diante. Ficarão intrigados com a espécie humana e no caminho que as “coisas” estão tomando… Darão risadas, alguém complementará com “acho que vai chover” e vão dar continuidade ao dia, à semana, à vida, até que ocorra tudo outra vez.

Eu fui sincero, não sabia a resposta e foi o que disse. Talvez eu pudesse ser mais detalhista: “Na verdade o relógio que tenho ao pulso é uma necessidade estética já que a eficácia à qual ele se submeteria não mais existe, pois o relógio está parado, sendo assim, seu intuito está longe de ser o de mostrar a horas… Se tenho um celular?! Claro que tenho, mas os excessos de luzes, botões, entretenimento e futilidades consomem o dobro da bateria. Ligar ou receber ligações é uma ferramenta a parte diante de todas as funcionalidades. Até olhar as horas seria mais importante se ele não estivesse, nesse exato momento, desligado e sem bateria”. As pessoas estão sempre com pressa, por mais que estejam andando sem motivo ou em direção a lugar nenhum. Não, ele não esperaria eu terminar de falar. Entre indelicado e louco, eu fico com a primeira opção.

Queria ver se a mesma pergunta fosse feita em 600 a.C. e se eu tivesse uma ampulheta! “Então, caro senhor, nesse momento, nós passamos de três quartos de areia, o que corresponde a uma parcela significativa da manhã. Levando em consideração que meu objeto é dotado de setenta e oito centímetros de comprimento e raio de quinze centímetros e meio”. Bem mais interessante.

Cá entre nós, “que horas são” é uma pergunta de imensidão absurda! Em Chigado poderiam ser quatorze horas, enquanto que em Luanda, dezoito horas, ou vinte e uma horas, em Atenas. “Não sei” era o mais sensato diante da imensidão de possibilidades de respostas. Se Santos Dumont e Louis Cartier não tivessem popularizado o uso do relógio de pulso, ou melhor, se (supostamente) Louis Breguet não o tivesse criado, as pessoas ainda teriam a audácia de nos perguntar as horas? – Sem levar em consideração os celulares e demais adereços tecnológicos.

Eu fui a vítima! Estou irritado. Agora serei obrigado a certificar se o relógio funciona e se o celular tem carga a fim de não chatear mais ninguém? Francamente, vou continuar a semear o “não sei”. Ora e outra posso oscilar entre, “não tenho certeza, mas é tarde”, ou “queria fazer-lhe a mesma pergunta…”.

Se a teoria do caos e seus parâmetros variáveis procedem – onde o bater de asa de uma borboleta em um lugar, pode causar um terremoto em outro do outro lado do mundo -, o que fiz foi um crime! Levando em consideração a metáfora exemplificada anteriormente com a que agora procede, deixar de dizer as horas pode ser uma catástrofe irreparável! Entretanto, prefiro me abster de demais explicações. Que horas são agora? Não sei bem, ta com cara de quatro horas, cor de seis e cheiro de meia-noite…  No mais, não volte a me incomodar!

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Enquanto isso, na tribuna de honra do transcendente :.Parte I

… Cinco adjetivos e seus discursos envolvidos foram convidados pelos filósofos a sentar e beber.

O Misantropo:

– É preciso uma pessoa para fazer o papel de medíocre. Aliás, é preciso um para sobressair aos outros, pois todos nós somos medíocres. Somos lixo, um escarro do mundo, uma lastimável parcela de massa ambulante, produto de uma sociedade que por vez é de nosso fruto, ou seja, somos oriundos de nossa própria incompetência. Eis que assumimos o papel de lixos hipócritas. É como querer crucificar o cara que você vê no espelho. Não são os Deuses grandes demais, nós é que somos muito pequenos, e por via da transmissão de credibilidade, somos comparados a eles… Como se ambos partíssemos de uma mesma origem e pudéssemos todos terminar com um mesmo fim. Isso favorece para que algumas religiões sejam tão questionáveis e o homem tão absoluto quanto a sua pouca importância – se tratando de existência, se é que me entendem. Tiro um peso dos ombros. Não por agredir a mim mesmo – tão como meus semelhantes -, mas por cuspir na cara do mundo.

Nietzsche refutou:

– Um amigo deve ser mestre, tanto na arte de adivinhar, quanto na permanecer calado. Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno. Feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade. *

O Hermético, não podia ficar calado, quis dar um disparo de voz, uma contribuição que a muito não intervém:

– Eu não sei se sei bem, mas sei que de algo tomo conhecimento. Simples assim. Digam-me vocês, quais são as tendências? Ou melhor – entretanto, contrapondo minhas próprias ideias – o que é sensato e o que não? Quantos são os sinônimos para que as coisas façam sentido, ou o sentido redundante, que provém da essência adjacente do ser, em sua ontologia metafísica, física, psíquica e imoral, para que nos provoque a epifania comum e cotidiana, da qual nos abstemos a fim de não ter fim algum? Temos a pretensão em pensar, entretanto, sem muitos objetivos e sem muitos sujeitos acrescidos de valor?

Platão:

– Pode ser que sim, pode ser que não…

O Cético, já irritado:

– Não sei ao certo quais são os mais sensatos, quais são ouvidos e quais não. Não faço ideia do que seja justiça, já que vejo na injustiça parte da minha razão. Não vejo explicações nem a ausência delas. Por um tempo acreditei que eu era o problema, que o erro era ser o cego. Mas a questão não é particular, se não posso provar, questiono. “Para que?”, “Por quê?” e “quem?” sanaria meus desejos. Sou quase uma doença, mas eu persisto na crença imunda do “não crer”. Que seja da melhor maneira, até que me provem o contrário, ou até que eu aceite que, definitivamente, não há mais salvação. Diante das circunstâncias e das inconveniências, deixemos os dias passarem, deixemos as dores curarem e que as respostas se materializem diante dos nossos olhos, oriundas das nossas próprias cabeças.

O Otimista não via a razão daquelas palavras:

– Na renúncia da nossa existência, na cegueira da nossa intenção… É quando o nome se dispersa, a face se regenera, o amor se perde. A verdade enrijece e a dúvida se sobrepõe à razão. O que fiz? Como pode? Como vai ser? Perguntas que são feitas tarde, a falta de identidade fez de o drama merecer. Bastam os espelhos certos e na hora certa em fazer. É ser você mesmo e, não obstante, aceitar. Seja como fardo ou bênção. Não há muitas escolhas, mas as existentes já são suficientes. Daí por diante, são os caminhos que tomamos da forma como lidamos para no futuro podermos nos deparar com o que um dia foi semeado por nossas próprias mãos. A realidade é um sonho bem moldado, mas não é, necessariamente, uma utopia.

Platão caçoa:

– Não há ninguém, mesmo sem cultura, que não se torne poeta quando o amor toma conta dele. *

Schopenhauer complementa:

– Quanto menos inteligente um homem é, menos misteriosa lhe parece a existência! *

Aristóteles, cheio de onisciência:

– De fato a dúvida é um princípio de sabedoria. O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete. *

O Imparcial:

– Perceba que as coisas não são claras, as coisas não são óbvias, às vezes elas nada são. Dirão que essa minha frase é do Hermético, que a filosofia é fora de moda e que o pensamento é insólito, incoerente ou unilateral. Eu não direi nada, pois de um ponto de vista a outro, estamos todos certos e estamos todos errados. Contudo, não se trata, ao certo, de uma verdade absoluta.

Freud, um tanto quanto receoso:

– Essa eu explico. A felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz. *

Kant:

– Felicidade não é um ideal da razão, mas sim da imaginação!

Sócrates, a fim de causar (des)ordem, grita (em direção ao balcão):

– A conta, por favor!

Sartre:

– Deixe que eu pago.

*Citações adaptadas.

A esperança se perde aos fatos

  Em muitas ocasiões o homem falhou e pagou pelas próprias palavras. Inúmeras vezes provamos a nós mesmos que a nossa “superioridade” intelecto-racional é, de fato, a nossa ruína, a vergonha camuflada é o paradoxo de uma dádiva que nos faz (moralmente) inferiores. Não porque esse era intuito principal, sim porque para outros fins nos dispusemos.

  Noutras ocasiões há a predisposição de um amparo religioso. O lado bom é que isso realmente interfere na vida das pessoas proporcionando-lhes alguma dignidade, por mais que seja imposta (e relativa). O biólogo Richard Dawkins disse em uma entrevista que uma pessoa que deixa de fazer o “mal” apenas porque crê na eterna continuidade da vida – vida após a morte; concepções de céu e inferno – ou seja, aquele que faz o bem por medo de um “castigo” divino é, no mínimo, antiético. Onde está o caráter moral disso? Existe alguma bondade natural ou tudo é atribuído aos “desejos” de Deus?

  Hoje assisti na TV um homem que matou outro porque esse se recusou a fechar a janela do ônibus. Pensei “a que ponto chegou nosso ‘discernimento mental’? – Se procede a informação de que só usamos 10% da capacidade do cérebro, que isso seja revisto para que possamos descobrir como ir além. Qual seria o nível de instrução mental desse homem?”

  Ingenuidade minha. Quando mais controle do cérebro tivermos, maior o intuito em exercer uma dominação uns com os outros. Quanto ao assassino do ônibus, pouco importa se ele era um analfabeto ou um Doutor. Um homem chamado Harry Truman, político estadunidense, Juiz em 1922, senador em 1934 e presidente em 1945, foi (entre outras pessoas) responsável por uma das maiores tragédias da história, as bombas atômicas lançadas em Hiroshima e Nagasaki.

  Não importa se é bem instruído ou não, simplesmente são humanos. O homem é dotado de uma essência ruim que vai além do extinto de preservação de vida dos demais animais. Egoístas, dominadores, onipotentes… Somos todos iguais, o que nos difere são as circunstâncias e as armas em mãos.

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