Vossa mercê pensou muito pouco pra ter lido tanto!

 Esses dias fiz um comentário acerca de um problema social latente: A fofoquice misturada à propagação de preconceitos e estereótipos. Ou o mexerico do mal-falado. Diante disso fui abordado por um indivíduo que alegou: “nossa, mas quantas palavras difíceis, você fala bonito”. Eu não usei a palavra de uso popular “mexerico” nem o neologismo “fofoquice”. Se assim o fosse, não seria abordado e teria, quem sabe (ou “quiçá”?) sido entendido. A abordagem do colega sofre de algumas inverdades. A primeira é que palavras como “travestido”, “inominado” e “demagogia” – são as únicas que eu lembro em que, naquele contexto, poderiam ser consideradas “não-cotidianas” (e poderiam mesmo?) – não são nem de longe “difíceis”. Não no tempo da internet em massa, dos dicionários online e da bolha do Wikipédia, são os tempos que eu denomino “erudição de boteco”. Faço referência às épocas superadas onde no bar discutia-se futebol. Não é saudosismo, não estou qualificando os momentos, apenas diferenciando-os. Há quem diga, sem muita modéstia, que esse “novo” momento é um “avanço” impulsionado por uma releitura da erudição proveniente do século XVIII (Iluminismo) em diante, como nos grandes encontros entre os intelectuais, em meio a cafés e chás (e não cerveja!), para nobres discussões (assista “Meia Noite em Paris” de Woody Allen, saudando as primeiras décadas do século XX). Eu sou da geração 90, onde o protagonismo cerimonial do consumo de cevada era regado a banalidades (futebol!) e não discussões com pretensão de reforma política ou de encerrar a miséria no mundo (embora elas me atraiam) – a esse respeito vale mencionar um texto que li na rede nessa semana, onde o autor fazia referência exatamente a uma conversa de boteco e era enfático em uma frase que encerrava algo que eu interpreto como “ninguém vai para um bar para ficar mais inteligente, pode acontecer, mas não é o intuito”, e já no texto podia ser extraído conforme cito: “diversão não é cultura”.

Explicada a expressão (que é motivada pelo excesso de informação fácil e massiva na rede, o que causou um falso boom de erudição nas pessoas) e suas referências, continuemos… A segunda inverdade do questionamento que me foi feito é explicada pelo fato de que a disposição aparentemente retórica das ideias em face das palavras bem ornadas, não é “bonita”! Não existe “falar feio” e “falar bonito”. Existe falar sem ser entendido, e isso não é necessariamente belo, pelo contrário, é um problema. Existe também a fala “popular” e às vezes até errada (em sintaxe, concordância etc.) e isso nem sempre é “feio”, pois se é para estabelecer a comunicação sem vícios, é melhor chamarmos de “adequação”. Por favor, não me venham com críticas de perpetuação do erro, o interlocutor (desde que não seja o encarregado para tal) não pode ser culpado por um eventual analfabetismo. Eu disse para o colega em questão, que o intuito não era falar “bonito”, e que apenas proferi minha opinião sobre um assunto em meio às frases e expressões das quais estou acostumado a utilizar. Ele diria, por exemplo, que “vosmecê” é bonito? Duvido muito. E eu acho! É bonito pela história que carrega, e por ser, junto à vossemecê e vossa mercê (erudito, não?), os embriões do que veio a ser “você”. A linguagem, assim como a moral, a ética, a lei, os hábitos, não é estática. Não há necessariamente um padrão estético (e claro que estamos desprezando por completo as convenções da norma culta da língua), mas um pressuposto dialético, comunicador! Como que nefrálgico, travestido, fomentador, conjectura, frígido, podem embelezar uma frase? São palavras utilizadas em discursos com artifícios retóricos (involuntariamente ou não), mas que nem de longe traduzem “beleza”.

Mas não basta estabelecer a comunicação. Não se faz suficiente um texto cheio de expressões incomuns acompanhadas de um glossário ou nota de rodapé, a comunicação se reflete bem mais nos seus resultados do que na sua propagação (considerando, evidentemente o óbvio, que é a certa dependência entre ambos), a esse respeito, cito uma ideia que é simples, mas de um filósofo complexo (ao menos pra mim):

“Os professores ensinam para ganhar dinheiro e não se esforçam pela sabedoria, mas pelo crédito que ganham dando a impressão de possuí-la. E os alunos não aprendem para ganhar conhecimento e se instruir, mas para poder tagarelar e para ganhar ares de importantes”  (Arthur Schopenhauer)

…A informação não se resume na comunicação em si, mas na absorção da ideia. Serei cuidadoso ao tagarelar, sejam reflexões reformistas, sejam babaquices, no intuito de difundir o amontoado de palavras e me distanciar, o quanto possível, do tal “falar bonito”. Nessa prática, vou “verborragiando”, na esperança calejada de ser entendido.

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