Arquivo mensal: novembro 2009

Infância Proibida

  Sou menino, sou moço, sou bobo. Que posso, tão tolo, fazer por mim? Eu notava por entre as janelas um alvoroço passar. Eu seguia desenfreado, caindo em buracos, ciente de que a busca não teria fim e o desfecho estava tão longe de mim quanto eu da minha resposta. Bastavam as perguntas certas. A curiosidade começava no par de pernas que não estavam expostas por minha culpa. Subia os contornos do corpo e perdia na dúvida de um alguém nu. O meu corpo reagia como eu não queria, mal sabia para que servia aquilo que se despertara assim, alicerçado na imagem e em prol da imaginação e da vontade… E que vontade! Do que? Não tenho certeza, mas o desejo era o anseio que não me cabia aos membros e que por para fora era como consolidar um sentimento ruim.

  Um dia, no olho mágico, andando disperso vi o ato se consumar. Nem tudo fazia sentido, mas o que eu queria era o exercício que estavam ali, a praticar. Ciente da minha insignificância me retirei do local. Passei as páginas esperando Nelson me falar, exatamente o que eu precisava ouvir. “A fidelidade devia ser facultativa”, me pareceu sugestivo, se estavam de laços dados poderia, a criatura, optar por caluniar.

  Dito e feito. Não me peça que explique, a carne falou por si, o tato ganhara vida e a cena se enrijeceu. Não foi preciso poupar contato, o ato ficou marcado, foi bem melhor que por trás da fechadura. Voltou para o seu amado, fingira que nunca me viu, fui dito como o coitado menino, o amante dos dias escuros, que luz alguma possa clarear. “Pega lá o teu Rodrigues, ocupe a mente e pare de pensar lorota!” … Nelson mais uma vez mestre, me disse, “amar é ser fiel a quem nos trai”.

Aceitei a condição e descobri no quarto ao lado, outro recanto de travessuras.

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Contento-me com a estupidez

Ir para ficar sentado; chamar para ficar calado; sorrir para não ser notado; fingir-se contente com o descaso; ausentar-se do ânimo para o futuro, abster-se à diversão, às festas, ao tumulto… Seriedade sem motivo; permanente olhar inibido; pouco caso com casos alheios… Um motivo para tudo; infinda racionalidade; fazer tolos os seus, permitir-se ao cansaço. Adiar o abraço; poupar os comentários; limitar as ocasiões. Mudar de ideia; mudar de vida; abandonar as roupas… Mudar as músicas, mudar a trilha; fazer-se em ti uma “outra”…  Maldita maturidade.

Casou-se com o descrer, na ausência do pudor

  No horário que até mesmo o vento respeita o silêncio da noite, devemos estar em casa, embaixo dos cobertores. Madalena não, essa era exceção, mas quem importa?

  O tecido é justo e na escuridão das ruas todo aquele aglomerado de cores torna-se mórbido, mas não faz diferença, já que apenas a sugestão do traje é suficiente…

  Devemos chamar de destino o episódio pelo qual não optamos por acontecer, mas não era o caso. João quis estar ali, foi mais do que acaso, foi descaso, com aquela que, segundo ele, o menospreza e não reconhece o valor que tens. “Que esteja dormindo e nem note quando eu chegar” – pensou.

  Essa era mais “viva” que aquela. Tendo um preço ou não. É sempre um financiamento mesmo, tanto à que limpa a casa quanto à “mãe-de-todos”, a diferença é no retorno, ou melhor, na retribuição. O “reconhecimento” na rua era maior e o prazer da carne satisfaz o tédio tão como anestesia qualquer dor na consciência.

  Madalena diferente da mulher tradicional, era hedonista, vivia em prol dos próprios extintos, a saciá-los e entendê-los. Contudo, cedera a João o afago. Concedeu-lhe a dádiva do matrimônio, mesmo que na informalidade, já que o ato já havia se efetivado anos antes, com outra senhora, em outros cobertores…. Naquela época, esse laço quando dado, difícil de desatar. Fugira aliviado, como um viúvo sem causa, tendo a companhia daquela que abdicara de tudo que havia aprendido a gostar. De condado para condado não há muita diferença, é de costume de um povo o dom ou a lástima de “comentar”. João não se importava, tinha a confiança necessária naquela que trouxera para casa, aquela com a qual estava a compartilhar a vida.

  Ela sempre ia caminhar logo após o pôr do sol. Leva tempo para se acostumar com uma nova vida, cercada por paredes. Certo noite, assim que chegou em casa, o seu odor suave de Sândalo misturava-se a um forte Almíscar amadeirado. Bastaram alguns “tapas verbais” para chegarem à conclusão duvidosa de que não se fazem mais perfumes como antes. …Da mesma forma o batom borrado: “Era um batom barato!”. O sutiã rasgado: “Já estava velho, mal tratado”. Nem toda mãe é santa, assim como uma Madalena era digna de uma absolvição.

  – E porque está sem calcinha?

  – Veja como são as coisas, João! Lavei todas, antes de me despedir do sol, mas me esqueci de colocá-las a secar.  

  Se Madalena amava João, talvez. Ora sim, ora não, mas quem importa? …João amava era a incerteza.

Seria medo?

  Enquanto muitos “lutam” sem objetivo a fim de adquirir tantas coisas das quais não necessitam, eu só queria controlar a eternidade. Claro que a palavra “só”, nesse caso, é um tanto quanto incoerente, já que a dimensão do que eu citei é imensurável, mas para mim, ainda parece pouca coisa. Eu não queria viver para sempre, mas tornar eterno minhas sensações… Palavras que fizeram a diferença, um dia frio que me fez sorrir, aquele abraço do qual os meus braços se recusaram a esquecer. Eu queria manter vivo, aquele que se foi sem me dar muitas chances de dizer tchau, ou de contar-lhe o quanto era importante para mim, poupando assim, minhas lágrimas. Eu queria ter para sempre, os que vivos ainda estão, só para eu desfrutar da eterna companhia. Gostaria de dar o dom da eternidade às palavras que me enchem a alma, oriundas daquela que muito me faz sorrir e chorar de alegria, para que assim, essas palavras não percam o sentido; o intuito não perca a direção e dizer por dizer não passe a não ter mais sentido… Tornar sólida a memória para que ela não permita que eu desabe na lástima de ser esquecido sem esquecer. Quero eternizar o sentimento que me é retribuído, já que o meu se fez perpétuo sem eu ter a dignidade de escolher, a fim de juntos compartilharmos do “sempre”.

Se posso ou se devo, não sei, apenas quero.

Fazer política é ter memória curta

Em 1930 o Brasil conheceu o que passou a ser chamado de Populismo, com o “absolutista” Getúlio Vargas. O presidente assumiu com um golpe de Estado que durou até1934, quando assume de vez o poder através de eleições indiretas e concede ao povo a tão reivindicada constituição… Getúlio “cai nos braços” da população, mas como qualquer executivo a frente do Estado, deparou-se com questionamentos.

Historicamente as camadas sociais mais baixas são extorquidas e ultrajadas pelos aristocratas que regem a máquina da república, o que leva (teoricamente) essa classe a ter motivos para reclamar e buscar com que seus direitos sejam preservados e não se deixar levar pelo oportunismo de uma minoria.  Contudo, essa “camada social” que costuma ser despertada pela situação a qual é submetida, pode ser facilmente contida através de medidas articulistas dos que estão governando.

Getúlio deparou-se com os operários insatisfeitos com as condições de trabalho. Com isso, o presidente que já alimentava a elite que o “deixou” no poder – afinal, ele industrializou essa “subpotência” que é o Brasil –, incumbiu-se a realizar uma série de medidas, como a criação de sindicatos, do ministério do trabalho e leis trabalhistas, a fim de conter o proletariado, já que uma euforia por parte dos mesmos não seria saudável à “burguesia” onipotente que ascendia, e nem à imagem do presidente. O problema é que medidas paliativas não surtem efeito em longo prazo (ao menos efeitos positivos, não!), apesar de que negar os benefícios, como por exemplo, do Ministério do Trabalho, é ignorância. Os operários ainda foram bastante ultrajados anos depois, mas Vargas se consagrou como “pai dos pobres”, graças a mais hipócrita e demagoga estratégia política: O populismo! Se para Aristóteles uma democracia viciada era uma demagogia, o populismo é o vício moderno.

Cerca de setenta e cinco anos depois, somos “obrigados” a aceitar Excelentíssimo Presidente da República Luís Inácio Lula da Silva com o mesmo “direcionamento”. Quero deixar claro aos historiadores de plantão que eu não estou dizendo que Lula é populista, talvez os geógrafos políticos (quais já vi defenderem ponto de vista semelhante) acreditem nisso, mas definitivamente, não foi bem o que eu disse. Contudo, a gramática é mágica e o dicionário no final das contas só serve de base, já que palavras tendem a ganhar as “próprias formas”. Não precisamos desfazer ou reinventar o conceito de populismo, a ideia é conceder à mesma uma nova aplicabilidade.

Lula é o homem de esquerda! – Não se assustem, vamos apelar aos rótulos – Lula, o comunista! …O sindicalista que deu força às greves. Pois bem, é o mesmo homem que enriquece banqueiros desde 2002 quando assumiu o poder, não sou contra essa estratégia, mas no caso em questão, não houve “disciplina monetária” nem muita verdade. Lula realmente deu grandes passos para a economia nacional, já em ascensão antes de sua chegada, deu forças e concedeu os meios para que a nova “classe dominante” (expressão infeliz) ratificasse a sua soberania política. Foi bom para o país? Claro, ninguém nega. E quanto ao proletário, que nem aquele de Vargas que pediu respeito e atenção às autoridades? A sede agora é outra e o povo tem fome!

Lula poderia ter intensificado o crescimento estrutural (o que iria surtir efeitos longínquos e corria o risco de não levar o seu ilustre) das chamadas “comunidades carente”, – apesar de que na verdade carente é o país, por ainda sofrer de uma desigualdade social tão constante e se encarar como primeiro mundo – da mesma forma que Getúlio poderia ter ocasionado uma “reforma” mais significante, na educação, ou nas condições de vida, a fim de causar melhorias mais efetivas aos seus subordinados. Lula poderia ter investido forte na educação e na formação/especialização do cidadão “criando” pessoas íntegras capazes de lutar pela aquisição da capacidade de satisfazer seu “subsídio”, como comprar seu próprio alimento sem aceitar esmola do Estado – sustentam que é um problema imediato, mas a medida adotada não colabora com o imediatismo. Continuando a analogia, Vargas deveria ter propiciado ao siderúrgico, como por exemplo, o direito de frequentar uma instituição de ensino, sem lesar com suas obrigações profissionais e não calar o povo com sindicatos manipuladores e partidários, como até hoje são.

Um novo populista, ou entendemos tudo errado? Não há semelhança ou ainda somos politicamente alienados? Tanto Lula como Getúlio Vargas, ofereceram os cofres do Estado para a aristocracia onipotente (não diferente do FHC com os banqueiros, que persiste no governo atual) e usou de medidas paliativas a fim de coibir uma reação popular conseguindo teoricamente agradar a todos e imortalizando o conceito de “Brasil o país do futuro”. Populistas ou não, o problema é esse modo arcaico de fazer política onde o presidente se consolida e se consagra manipulando a massa. É essa a doutrina que temos que derrubar. Só existirá progresso no dia que deixarmos de nos iludir com a ordem fictícia do “bem-estar social”.

 

Friedrich Nietzsche: “Um político divide os seres humanos em duas classes: instrumentos e inimigos.”

 

 

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