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Para dizer que me lembrei das flores

Hoje resolvi falar da Rosa. Já passara da meia idade. Pouco mais de 70 anos. Um sorriso bonito, um olhar contagiante, coração forte e pulmão virgem. Provavelmente ainda muitos anos de vida pela frente. Mas ele resolveu turbilhoar esse caminho. Ele lhe retirou parte do seu brilho. Ele a entregou um motivo que, depois de vivenciadas tantas justificativas para sorrir, lhe desse apenas, vontade de chorar. (…) Estive com Rosa, em minha casa. Havia outros. Um almoço aconchegante. Ela esboçava algumas palavras sobre tudo, mas em um súbito, em uma manifestação que atraia atenção de todos, acabou por não concluir nada. Franziu a testa, tentou retomar o raciocínio… As pessoas a observavam com curiosidade, alguns até gargalharam… Cogitei que ela tivesse exagerado no vinho. A princípio aquilo a enfureceu, pois era culpa dele e ele não tinha o direito de lhe amputar essa inata característica de comunicadora. Ocorre que do sofrimento que ele causaria, concluiríamos, aos poucos, que não seria possível se furtar. Daí por diante, tudo apenas piorou, pois ele foi ainda mais incisivo e impiedoso noutras oportunidades. (…) Ele levou sua alegria, sua graça e lhe trouxe uma frustração profunda. Olhando em seus olhos era possível notar seu descontentamento em progressão. Parece que a vida se esvaia. Sofri junto com Rosa, sofri com a nossa impotência. O que podemos fazer? Rosa tinha consciência de que perdeu o melhor de si, e pior, tinha consciência do que ocorria na hora em que acontecia (antes não notasse, nem entendesse) e sabia que não era capaz de evitar aquele constrangimento – não sabia, contudo, que não havia motivos para ser constrangedor, mas Rosa era vaidosa e essa sua característica, antes uma qualidade inestimável, hoje, inimiga. Tantas vezes me perguntei porque ele agia assim… Em uma de nossas conversas, como de costume ela interrompeu a ideia a caminho do desdobramento… respirou fundo, me fitou em silêncio, desapontada consigo mesmo, frustrada com a  situação, com a forma com que ele a deixou e cansada de resistir. Mantive-me também calado, não sabia exatamente o que pronunciar, não tinha certeza das palavras que ela gostaria de dizer, portanto, não havia como oferecer auxílio. Ambos, atônitos e eu, inconscientemente sem conseguir evitar o olhar de piedade. “É que… Foi quando… quando… O que é mesmo?”, dizia ela, como quem tem uma pequena falha na memória. Teria sido natural, se lágrimas não escorressem dos seus olhos, pelos vários minutos (intermináveis) em que tentou formular uma frase curta e banal. Não era possível!  Logo ela, Rosa! Acostumada a “prosear” por horas… Nesse dia, não conseguiu concluir nenhuma frase, sequer proferiu palavras lógicas. Permanecemos inertes por horas. De cabeça baixa, resolveu não insistir e esboçou um sinal de sorriso de quem se dá por vencido em um rosto molhado pelo choro. Doía nela. Doía em mim. É aí onde ele é mais cruel, quando torna todos ao redor, reféns das suas circunstâncias. Por esse dia, por me impedir de ajudar Rosa, por permitir que Rosa assistisse como expectadora de si mesma o seu próprio definhamento cognitivo e intelectual, eu nunca vou perdoá-lo. Prefiro concluir aqui, calado, refletindo essa crueldade silenciosa que ele, Alzheimer, é capaz de irradiar. À Rosa, no nosso último contato (ela estava em um daqueles dias bons), eu lhe disse, categoricamente: – Não importa do que você se recorde, eu estarei aqui; ainda que você não reconheça sua casa, farei com que você tenha motivos para se contentar em estar lá… se você não reconhecer o meu rosto, farei com que goste da presença daquele estranho, estando ali apenas para te agradar…  lhe calçarei os sapatos, lhe amarrarei os cadarços, lhe servirei comida no prato, enquanto a vida me permitir respirar. Quero crer em uma vida no céu, onde as fantasias humanas permitam que as rosas que daqui partiram, se habitem para sempre por lá. Afinal, o mundo se torna mais escuro a cada murchar de uma flor.

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