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De Quincas Borba a Eduardo Cunha: O que os “machadianos” têm a dizer sobre a conjuntura política atual?

                                    

 

“… Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”.

(Quincas Borba de Machado de Assis)

Há certas riquezas que inevitavelmente não podem ser desfrutadas por todos e a literatura realista brasileira sugeria como resultado natural desse conflito de interesses a lei do mais forte. Aperfeiçoada ao longo do tempo e afastada de um imaginário meramente fisiológico, hoje, mais atual que nunca.

Para nós, qualidade de vida, direitos e dignidade. Para as tribos de Quincas, batatas. Machado de Assis por meio dos personagens Quincas Borba e Rubião, há muito fazia uma leitura da sociedade moderna e a sua relação com a “finitude” dos seus recursos – falemos de Brasil. Você pode até imaginar uma metáfora óbvia, na qual os políticos representam uma das tribos, nós representamos a outra e nosso dinheiro, as batatas. Mas não. Somos o avesso do humanitismo Machadiano. Cultuamos essa “guerra” pelos recursos e saldamos os vitoriosos, sem ao menos fazer parte de qualquer dos lados, embora sejamos os cultivadores do tubérculo.

Não vim aqui falar só de literatura. Antes fosse. O enredo é até semelhante, os personagens é que não são fictícios. Nas terras (já não mais) tupiniquins, uns governam, outros resistem, outros assistem, ninguém colabora. No primeiro capítulo do ensaio, a reação do povo, personagem que não participa da guerra, mas entrega batatas.

– PSDB protocola pedido de cassação do mandato de Dilma.

– TCU aponta “pedaladas fiscais” que podem gerar impeachment.

– Eduardo Cunha aprova análise de pedido de impeachment.

– Hélio Bicudo e Miguel Reale protocolam pedido de impeachment na Câmara.

– Internautas criam petição online pro- impeachment para incentivar parlamentares.

– Cunha rejeita um dos quatro pedidos de impeachment.

– TSE retoma pedido de cassação de mandato de Dilma.

– Oposição realiza abaixo-assinado para manifestar desejo de impeachment.

– Surge movimento parlamentar Pro- impeachment (com site institucional e tudo mais).

– TCU avalia contas e tomará decisão que pode gerar impeachment da presidente.

À nossa revelia seletiva, há que se indagar o acontecimento de outros fatos…

-Quem está discutindo se o Cunha (que bem poderia ser o Brás Cubas ainda vivo) pode perder o cargo pelas contas (inclusive já bloqueadas) que mantém irregularmente na Suíça? [Fonte: http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,suica-confirma-cunha-foi-informado-sobre-congelamento-de-seus-ativos,1775162%5D

-Quem está observando a Câmara facilitando dívidas de outros entes com a União (o que agrava a situação financeira desta)? [Fonte: http://g1.globo.com/politica/noticia/2015/03/camara-aprova-aplicacao-imediata-de-lei-das-dividas-estaduais-e-municipais.html%5D

-Quem reclamou quando o Senado aprovou o PERDÃO de 2 bilhões (isto é 10 VEZES mais que toda a economia gerada com a proposta da reforma ministerial) para planos de saúde? [fonte: http://oglobo.globo.com/economia/defesa-do-consumidor/perdao-de-2-bilhoes-para-os-planos-de-saude-12136524%5D

-Quem achou um desperdício a Medida Provisória aprovada na câmara e negligenciada no senado que propõe (embora alguns aumentos de tributos) a criação de um shopping para os parlamentares orçado em 1 BILHÃO? [Fonte: http://oglobo.globo.com/brasil/senado-aprova-ultima-mp-do-ajuste-fiscal-mas-se-rebela-contra-parlashopping-16286423].

– Quem consegue lembrar que os crimes da Lava-Jato – aquele grande “esquema do PT” contra Petrobras (sic) – envolveu PP, PMDB e PSDB (inclusive com repasses ao ex-presidente do PSDB, Sérgio Guerra)? [Aqui não faltam fontes, mas esse texto condiz com o assunto: http://jornalggn.com.br/noticia/lava-jato-1%C2%AA-condenacao-envolve-supostos-desvios-para-psdb-pp-e-psb]

– Quem está preocupado com o aumento dos salários e benefícios que o congresso tem votado em benefício próprio? E que pode gerar efeito cascata nos Estados. [fonte: http://www.contasabertas.com.br/website/arquivos/10924%5D

– Quem está de olho na constante pauta de reajuste de vencimentos de servidores públicos de carreira? Reflitamos: A advocacia pública sofria defasagem salarial? Sim. Os servidores do judiciário, MP (Ministério Público) e MP de Contas sofrem com ausência de reajuste e perda real do valor dos seus vencimentos? Sim. Todas as carreiras devem, no decorrer do tempo, serem beneficiadas por reajustes, acompanhando o processo inflacionário e inseridas em um processo de valorização institucional linear? Sim. Ocorre que, o surgimento desse tipo de pauta este ano com as contas como estão e com o impacto que elas podem gerar, não é apenas uma coincidência. [fontes: http://www.brasilpost.com.br/2015/08/06/derrota-governo-na-camara_n_7946584.html  +  http://g1.globo.com/politica/noticia/2015/06/senado-aprova-aumento-de-ate-78-para-servidores-do-judiciario.html e http://g1.globo.com/politica/noticia/2015/08/senado-aprova-aumento-de-41-ate-2019-para-servidores-do-mp.html].

“ Não é só nas ações que a consciência passa gradualmente da novidade ao costume, e do temor à indiferença. Os simples pecados de pensamento são sujeitos a essa alteração, e o uso de cuidar nas coisas afeiçoa tanto a elas, que, afinal, o espírito não as estranha, nem as repele.”

Com o que estamos preocupados, afinal? Sejamos mais criteriosos. Essa “síndrome de Estocolmo” que alimentamos com a oposição do “pro-impeachment” – enquanto eles adotam uma série de medidas que, para prejudicar a governança do executivo federal, atinge diretamente a população – no mais sutil dos eufemismos, não parece sábio. Seríamos Rubião cultivando afeto por Cristiano e Sofia*? [personagens da obra de Machado de Assis, onde aquele primeiro, inundado pela confiança ingênua depositada nos dois últimos, é reduzido à ruína].

Permitam-me um palavriado popular: Se o barco afunda, você vai junto! Quem ganha? Com certeza ganha o Vice, o partido dele, seus aliados e os que se articularem para o novo mandato. Nada ganhamos eu e você.  Contudo, vamos ao óbvio (que negamos): Pode tirar a Dilma e colocar o Obama e a Angela Merkel para governar o Brasil que não haverá “a solução” para o problema econômico.

Mesmo se um franciscano assumir no lugar da Dilma, ele também terá de adotar medidas de austeridade (que machucam a população) para pagar as contas (e sim, boa parte delas resultado de escolhas do Partido dos Trabalhadores, mas manifeste este inconformismo na eleição), e o motivo é o de que essa conversa de reduzir o próprio salário e cortar ministérios (embora atitude necessária e correta!) tem impacto irrisório na resposta bilionária que precisa ser dada às contas públicas.

Digo-vos com honestidade que não faço uma defesa ao governo de Dilma, mas um apelo à sociedade! Qual seja: E-v-o-l-u-a-m-o-s.

 

“…não há serenidade moral que corte uma polegada sequer às abas do tempo”

O inconformismo com o PT é válido. Os erros na política financeira realizada pelo partido na última década são evidentes. Mas quando a prioridade é apenas impedir a Dilma Roussef de governar, defende-se um suicídio político-social. Esta inquietação ideológica podemos externar em 2018. Por enquanto, paremos de defender um congresso (pro-impeachmt) que aumenta os gastos do país apenas para prejudicar o governo, como se prejudicar o governo não fosse a mesma coisa que prejudicar a minha vida e a sua. Saiba que se a possibilidade de ajustar as contas se tornar cada vez mais distante e dificultosa, mais distante também será a nossa possibilidade de deixar de sentir a crise que ela suscita (e tem custado caro).

Priorizemos o mínimo de raciocínio político em detrimento das nossas paixões. Por paixão, Rubião de “Quincas Borba” perdeu toda a sua fortuna e morreu enxergando-se afortunado, mesmo que vítima da própria ingenuidade em meio a uma sociedade de máscaras, que usufruía de riquezas que vieram do acaso – à filosofia humanitista empregada na obra, a moral não é pressuposto da convivência, mas pelo contrário. A dissimulação e o convencimento é subterfúgio para a manutenção de uma relação de domínio (ainda que ideológico).

Ao vencedor, as batatas” exclamou Rubião antes de falecer como miserável, acreditando sê-lo Imperador Francês. De olhos abertos e desconfiando dos bem intencionados, fujamos das consequências enquanto há tempo.

“Antes de principiar a agonia, que foi curta, pôs a coroa na cabeça, — uma coroa que não era, ao menos, um chapéu velho ou uma bacia, onde os espectadores palpassem a ilusão. Não, senhor; ele pegou em nada, levantou nada e cingiu nada; só ele via a insígnia imperial, pesada de ouro, rútila de brilhantes e outras pedras preciosas.”

……

Nota: Tive o privilégio deste texto ter sido igualmente publicado pela revista virtual Pragmatismo Político: aqui.

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A marca que reduz uma história

Dilma corre o risco de se tornar um símbolo que não desejava. Assim como Collor é referência de Impeachment, embora a nova geração em massa nem saiba os motivos pelos quais isso veio a acontecer. O Fernando Henrique, mesmo com a resistência de uma parcela dos nossos pais que teve a caderneta reduzida ou que foi prejudicada pelas privatizações, é o cara do Plano Real. Com o passar dos anos os fatos se diluem, o contexto se apaga, mas fica um símbolo. Juscelino, por exemplo, é o cara que construiu Brasília (talvez seja também o cara do “50 anos em 5”). Não que as pessoas estejam carentes de informação, mas é como se isso deixasse de ter relevância. Fatos como o de Juscelino Kubistchek, por exemplo, ter sido o homem do Plano de Metas para o boom do desenvolvimento econômico desse país Tupiniquim, ou o homem responsável pela ascensão da indústria de base, não obstante pelo grande endividamento do Brasil, é conteúdo para livro de história. A sociedade, no geral, se satisfaz com o rótulo, o símbolo, o marco. O que se reserva para a primeira mulher a governar o país? Há uma dicotomia consequencial: Abrir o precedente ou ser o governo que disse “não” para a educação? Logo a educação.

A polêmica tem origens bem primitivas. A casa já estava em desordem quando a presidente chegou. A começar pelo fiasco sempre reiterado do ENEM. O Exame que Lula (lá em Moçambique) disse que foi um sucesso “total e absoluto”, no mesmo dia em que liminar federal havia o suspendido, após emergirem as denúncias de erros, sobretudo de impressão na folha-resposta. Resultado de extrema falta de logística, numa sucessão de erros amadores do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa (INEP) e do Ministério da Educação (ao qual aquele é vinculado). Fernando Haddad então Ministro da Educação, da maneira politizada e com alguma retórica, se esquiva das falhas e sobrecarregava as entrevistas com justificativas. A última “polêmica” lançada, – depois de prova roubada, mal impressa, questões vazadas etc – dizia respeito à discrepância das notas dadas por diferentes corretores das redações, o que ensejou uma série de ações judiciais que exigiam reavaliações.  Haddad ausentou-se do cargo antes que pudesse responder, figurando então Aloizio Mercadante.

Quem se esqueceu do kit-contra a homofobia, ou como foi pejorativamente popularizado, “kit-gay”? O Ministério da Educação rompendo os limites do “educar”, outra vez. O objetivo poderia até ser bom, mas a comunicação, horrível. Homofobia é um mal a ser combatido, mas o kit no seu inteiro teor, inserido nas salas de aula, definitivamente, não seria o caminho. As campanhas precisam ser paulatinas, reflexivas. O processo deve buscar desmembrar o preconceito travestido de conservadorismo e difundir um aprendizado pacifista e plural. O filme que conta a história bonita do travesti “Bianca” subestimaria a capacidade crítica dos adolescentes endereçados. O projeto era desde o princípio um fracasso. O secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do MEC, em audiência na Câmara, afirmou que passaram três meses discutindo se um beijo lésbico apareceria ou não. O que se sabe é que foram gastos tempo e dinheiro num projeto que nasceu para ser vetado. Sobravam motivos, faltava a educação.

Os escândalos do MEC não se encerram por aqui, mas é Dilma que nos interessa. Mesmo intitulada presidente da “faxina”, o Ministro Haddad foi poupado na era do “Tolerância Zero”. Saiu por conta própria em face das eleições municipais. Apadrinhado por ninguém menos que Luís Inácio Lula da Silva. Em respeito ao mais poupado presidente da história, sacrificou-se, por muito tempo, um dos Ministérios mais importantes para o país.

Muito além do Ministério, a crise invadiu a sala de aula. Uma insatisfação de décadas, somada a propostas do passado que não foram efetivadas, culminou numa greve em cadeia dos professores das Instituições de Ensino Superior, tão como dos servidores técnico-administrativos. Ainda que atingido por problemas internos que perduram – como a briga entre sindicados, e de sindicatos com os próprios representados – o movimento ganhou força e se esbarrou, desde início, com a resistência do Governo Federal. Regado a frases pouco democráticas como “só negocio se voltarem ao trabalho” (Dilma Roussef), o governo à braço-de-ferro, lançou um diálogo não muito amigável, mas mascarado de bons propósitos. O reajuste máximo (para quem está no topo da carreira, cerca 10% da categoria) só seria alcançado em 2015, os outros níveis em 3 anos. A publicidade pouco informativa e meramente ilustrativa satisfaz uma ideia de negociação assídua e de interesse salarial excessivo por parte dos docentes, ocultando a fragilidade do (pouco) que foi proposto e a obscuridade em cima da qual se constrói a carreira docente no país. Mateus Prado, em coluna no IG, traduz melhor essas palavras:

“A progressão de níveis nas carreiras não apresenta nenhuma lógica. Em alguns lugares da “tabela”, 24 meses de trabalho oferecem 1,5% de aumento na carreira, em outros 9%, e a salada de porcentagens sem conexão é continua. O mesmo acontece para os professores que adquirirem aperfeiçoamento, especialização, pós, mestrado ou doutorado. A “subida nos degraus da carreira” não apresenta nenhuma lógica, nem mesmo a do tempo de serviço ou da relação com aperfeiçoamento e especialização do professor. É essa falta de lógica que alguns sindicatos estão chamando de desestruturação da carreira, em que não fica claro ao professor como vai ser sua história profissional e como serão seus vencimentos, já que parte deles não é contabilizado como salário. No caso do professor titular doutor, por exemplo, somente 40% do valor divulgado é salário, o resto é um monte de linhas no contra-chegue com dezenas de gratificações que podem, inclusive, ser extintas a qualquer momento. Uma parte da categoria, ainda, descontada a inflação, receberá menos em 2015 do que atualmente.

Mesmo diante dessa grave situação, que faz com que seja cada vez mais difícil atrair melhores talentos para a educação, o governo não concentra o debate na proposta, mas desvia seu foco para pressionar pelo fim da greve com uma estratégia que envolve várias ações paralelas. “

Com mais de 70 dias de greve, Dilma se vê numa dicotomia (que existe desde que a greve foi deflagrada); negociar dentro daquilo que anseiam os professores e, dessa forma, abrir um precedente grevista que teme não ser capaz de controlar, ou ratificar a rigidez do governo e dar por encerradas as negociações, deixar que as consequências se prolonguem e se perpetuar como aquela que disse “não” à educação, sobretudo pelo fato de que a insatisfação, cedo ou tarde, retomará um projeto de greve. E o contexto nos inunda dessa ausência de certezas, o que nos faz refletir como o que foi supracitado, à base de possibilidades.

A política não pode ter pretensões proféticas. Os desdobramentos ainda podem surpreender, mas é inevitável, arrumar um conflito direto com a classe estudantil tem consequências severas.  Os estudantes, quando ouvirem o nome Dilma, terão um símbolo nada positivo para remeter. Embora a presidenta goze de mais de 70% de índices de aprovação, o contorno que faz do seu governo é que se encarregará de preencher as páginas dos livros didáticos, não obstante, as lacunas de nossa criatividade simbológica, somando-se ao acervo que guarda Juscelino, Collor, Lula… A população matriculada em Instituições de Ensino Superior pode estar apenas em torno de 6,5 milhões, mas somados aos professores, técnicos, amigos e familiares, além do resto da população que consegue ficar a par do que acontece através das cortinas, muita  gente se lembrará dessa história. Se dessa maneira for, Dilma Roussef caminhará para ser aquela que negligenciou o ato de educar.

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