Marilena Chauí: expoente filosófico ou espetáculo de museologia?

As contradições de uma pensadora, entre o espetáculo dos horrores de uma cognição vazia.

“A classe média é fascista, arrogante e ignorante”. Este jargão vendido pela dona Chauí me enfastia. Veja bem, ela define que quem detém os meios de produção e as riquezas, são capitalistas; quem vende a sua mão de obra, é operário; e a classe média (a qual ela atinge deliberadamente) não é nem um, nem outro, apenas aquela que se tornou mais “abonada” (expressão da autora) no meio do caminho sinuoso desta sociedade segmentada. Confesso que a princípio fiquei confuso: Seriam os herdeiros (não trabalham, não produzem e ganharam dinheiro)? Omiti, evidentemente, a minha ignorância, até o dia em que eu saísse dela e compreendesse a aclamada filósofa.

A autora defende que a referida classe detém de características como o individualismo, competição, consumismo… Ouso (já que estou a milhares longe do gabarito da renomada autora) discordar. Essas características são das sociedades modernas, das grandes cidades, da ascensão do capital em escala global etc. Não digo que não são um problema, apenas que não são exclusivas. O discurso acaba, em tese, sendo um pouco hipócrita, já que, como ela sustenta que é uma classe com características diferentes sobre um modelo pronto (clássico), ela concorda com a perspectiva econômica que construiu a nivelação das classes, assim, tornar-se classe média (nesse ponto de vista), é galgar uma melhor condição social; é a superação de condições financeiras inferiores… Quiçá, permitir o operário de alcançar o seu sonho: Ser ele o detentor dos meios de produção.

Quando o pobre luta por espaço, luta por emergir socialmente, o objeto acaba sendo se tornar, quem sabe, a classe média de amanhã. Por conseguinte, ela ataca a nova característica desta classe, que é o fato de se encontrar em uma situação financeira mais promissora que ontem. Aqui há o perigo de se suscitar que as classes mantenham status quo ante, ou seja, essa filosofia acaba se arriscando a fomentar uma batalha contra o progresso e instiga um ideal quase como de um comunismo nos moldes mais primitivos. O que ela sugere? Retrocederem ao escambo (em contrapartida ao avanço do poder de compra)? Viverem (os pobres que não podem emergir) em uma eterna vida cooperativa e, consequentemente, isolada de um sistema autoimune? Marilena Chauí, meus caros, não é classe média vale lembrar, é rica.

Segundo ela, a referida classe média é a que ocupa “posição intermediária da pequena propriedade comercial, agrícola e das profissões liberais”, aquela que, ainda lhe parafraseando, sonha ser a burguesia detentora dos meios de produção social e teme ser classe trabalhadora. Não me venham dizer que eu não entendi a definição classista que ela criou, já que as incoerências são implícitas, pois como classe média e trabalhadora são definições objetivamente díspares?  Com base em que não há uma nova sociedade trabalhadora e em ascensão? …E então o que define a nova classe social emergente, porém “antiprodutiva”? Mas isso não importa, pois é a criadora destas reflexões que não consegue respondê-las, não seríamos capazes.

Eventualmente eu paro para ouvi-la, para ler suas entrevistas, para escutar trechos de suas palestras e não consigo sair da mesma impressão: a de que toda reflexão (nesse sentido) que ela levanta, se resume num emaranhado de repetições de ideias contraproducentes na tentativa paradoxal de refletir(?) através da agressão. Eu não duvido da sua inteligência (obviamente), duvido é da relevância, tanto das suas ideias, como da existência dos seus debates, para o planeta.

É uma pessoa generalista, que vive estancada no tempo. A sociedade que ela utiliza como parâmetro de suas análises – que possuem como referência ela mesma! Quem é petulante, afinal? –, é da década de 60, enquanto seu discurso é reproduzido hoje (2013!!). No mínimo, a grande(?) expoente da filosofia de esquerda(?), é anacrônica.  Dona de uma retórica grosseira e pouco pragmática, ela consegue ser uma paródia, às avessas, do Olavo de Carvalho. Se a “nova classe média” é arrogante, eu não sei, mas a filósofa que a define assim, é com certeza.

A classe média que essa senhora chama de conservadora é expoente das grandes novas perspectivas da vida em sociedade. Inaugurou novos conceitos de família, colocou em pauta os tabus nacionais, discutiu a liberdade individual, o direito da mulher (sim! As grandes idealizadoras de movimentos feministas são classe média)…Fascista e arrogante seriam as definições ideais?

Sabe aquela senhorinha rabugenta que foi tirada do interior e trazida a muito custo para a cidade grande? Pois bem, imagine-a agora com doutorado em filosofia, é como eu a identifico.  Não me incomodo com as suas verborragias, mas com quem as propaga. “Conheça melhor! Leia seus livros! Ela é inspiradora!”, coisas que li outro dia. Eu posso estar equivocado, posso vir a pensar diferente no futuro, isso não é um problema, vivemos em um constante aperfeiçoamento e se isso realmente vir a acontecer, garanto que farei um texto apenas para me retificar, mas por ora, o melhor que essa senhora faz é continuar, quietinha, na idade da pedra.

– O famoso e aclamado vídeo em uma das vezes em que ela aponta a “Maldição da classe média” pode ser assistido aqui.

 

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(Em)frente; Dias que não voltarão mais

Você Já percebeu como temos um hábito contínuo de saudar momentos superados? Já fiz esse  tipo de indagação antes, mas reitero. Qual o porque da nostalgia e dos saudosismos? Não posso concordar com a máxima de que somos movidos pela insatisfação, onde o passado sempre terá um aperitivo que o presente parece faltar, numa simbiose vital entre saudade e inconformismo. Sinto-me na liberdade de atribuir a essa ideia, novas significâncias. Concluo: sentimos falta dos sentimentos! E não é que deixamos de sentir, no mais lato significado, mas é que a absorção das emoções se dá em momentos distintos. Primeiro é uma descarga momentânea, onde você ri, ou chora, felicita, lamenta etc. – ela traduz um comportamento; e um momento posterior, onde o sentimento se cristaliza e se torna lembrança, eternizando uma sensação que a priori era momentânea. Essa segunda etapa leva tempo para ser notada, então a impressão imediata é a de que tudo que a gente já viveu (descargas sensoriais simultâneas) parece ser melhor do que o que vivemos nesse instante (que é a absorção daquelas sensações). Eu tento agir e pensar diferente. Dou uma carga maior de relevância aos meus momentos. Sentimento se traduz em um pouco de tudo.

Sou daqueles que alimenta banalidades, assim eu sinto o amanhecer de um dia de sábado, eu sinto o prazer de um fim de tarde com música e chuveiro quente… Gosto muito das coisas que já vivi,  feliz por momentos que presenciei, pelo privilégio de tê-los na memória, mas a minha felicidade é dia-a-dia. Não serei pretensioso a ponto de dizer que nunca me rendo a saudosismos, a lembranças localizadas, dias específicos, envolto a pessoas e locais aos quais não mais pertenço… Todo esse resgate faz parte, mas a vida é (em tese!) linear, contínua e tudo é digno de sentir, de absolver, de aproveitar. Tudo! Temos (geralmente) muitos objetivos a serem conquistados, muitas metas a serem atingidas e isso que determina a importância de não preferirmos o passado (aonde menos responsabilidades existiam), nem viver apenas na expectativa de que chegue o futuro (embora onde, hipoteticamente, os desafios serão “superados”), apenas absorver os “projetos” em suas “etapas” e tirar proveito disso. A vivência é um todo, e sentir, agora, no sentido mais estrito, é o que há de mais legal no fim da história, Porque afinal, “a vida é um sopro” *.

* Citação: Oscar Niemeyer.

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Vossa mercê pensou muito pouco pra ter lido tanto!

 Esses dias fiz um comentário acerca de um problema social latente: A fofoquice misturada à propagação de preconceitos e estereótipos. Ou o mexerico do mal-falado. Diante disso fui abordado por um indivíduo que alegou: “nossa, mas quantas palavras difíceis, você fala bonito”. Eu não usei a palavra de uso popular “mexerico” nem o neologismo “fofoquice”. Se assim o fosse, não seria abordado e teria, quem sabe (ou “quiçá”?) sido entendido. A abordagem do colega sofre de algumas inverdades. A primeira é que palavras como “travestido”, “inominado” e “demagogia” – são as únicas que eu lembro em que, naquele contexto, poderiam ser consideradas “não-cotidianas” (e poderiam mesmo?) – não são nem de longe “difíceis”. Não no tempo da internet em massa, dos dicionários online e da bolha do Wikipédia, são os tempos que eu denomino “erudição de boteco”. Faço referência às épocas superadas onde no bar discutia-se futebol. Não é saudosismo, não estou qualificando os momentos, apenas diferenciando-os. Há quem diga, sem muita modéstia, que esse “novo” momento é um “avanço” impulsionado por uma releitura da erudição proveniente do século XVIII (Iluminismo) em diante, como nos grandes encontros entre os intelectuais, em meio a cafés e chás (e não cerveja!), para nobres discussões (assista “Meia Noite em Paris” de Woody Allen, saudando as primeiras décadas do século XX). Eu sou da geração 90, onde o protagonismo cerimonial do consumo de cevada era regado a banalidades (futebol!) e não discussões com pretensão de reforma política ou de encerrar a miséria no mundo (embora elas me atraiam) – a esse respeito vale mencionar um texto que li na rede nessa semana, onde o autor fazia referência exatamente a uma conversa de boteco e era enfático em uma frase que encerrava algo que eu interpreto como “ninguém vai para um bar para ficar mais inteligente, pode acontecer, mas não é o intuito”, e já no texto podia ser extraído conforme cito: “diversão não é cultura”.

Explicada a expressão (que é motivada pelo excesso de informação fácil e massiva na rede, o que causou um falso boom de erudição nas pessoas) e suas referências, continuemos… A segunda inverdade do questionamento que me foi feito é explicada pelo fato de que a disposição aparentemente retórica das ideias em face das palavras bem ornadas, não é “bonita”! Não existe “falar feio” e “falar bonito”. Existe falar sem ser entendido, e isso não é necessariamente belo, pelo contrário, é um problema. Existe também a fala “popular” e às vezes até errada (em sintaxe, concordância etc.) e isso nem sempre é “feio”, pois se é para estabelecer a comunicação sem vícios, é melhor chamarmos de “adequação”. Por favor, não me venham com críticas de perpetuação do erro, o interlocutor (desde que não seja o encarregado para tal) não pode ser culpado por um eventual analfabetismo. Eu disse para o colega em questão, que o intuito não era falar “bonito”, e que apenas proferi minha opinião sobre um assunto em meio às frases e expressões das quais estou acostumado a utilizar. Ele diria, por exemplo, que “vosmecê” é bonito? Duvido muito. E eu acho! É bonito pela história que carrega, e por ser, junto à vossemecê e vossa mercê (erudito, não?), os embriões do que veio a ser “você”. A linguagem, assim como a moral, a ética, a lei, os hábitos, não é estática. Não há necessariamente um padrão estético (e claro que estamos desprezando por completo as convenções da norma culta da língua), mas um pressuposto dialético, comunicador! Como que nefrálgico, travestido, fomentador, conjectura, frígido, podem embelezar uma frase? São palavras utilizadas em discursos com artifícios retóricos (involuntariamente ou não), mas que nem de longe traduzem “beleza”.

Mas não basta estabelecer a comunicação. Não se faz suficiente um texto cheio de expressões incomuns acompanhadas de um glossário ou nota de rodapé, a comunicação se reflete bem mais nos seus resultados do que na sua propagação (considerando, evidentemente o óbvio, que é a certa dependência entre ambos), a esse respeito, cito uma ideia que é simples, mas de um filósofo complexo (ao menos pra mim):

“Os professores ensinam para ganhar dinheiro e não se esforçam pela sabedoria, mas pelo crédito que ganham dando a impressão de possuí-la. E os alunos não aprendem para ganhar conhecimento e se instruir, mas para poder tagarelar e para ganhar ares de importantes”  (Arthur Schopenhauer)

…A informação não se resume na comunicação em si, mas na absorção da ideia. Serei cuidadoso ao tagarelar, sejam reflexões reformistas, sejam babaquices, no intuito de difundir o amontoado de palavras e me distanciar, o quanto possível, do tal “falar bonito”. Nessa prática, vou “verborragiando”, na esperança calejada de ser entendido.

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De todas as vontades guardadas, você foi a única que “alforriou” os meus desejos. De todas as mágoas engarrafadas, foste a que eu saboreei com duas pedras de gelo. De todos os refúgios isolados, você foi o abrigo que encontrei primeiro. De todas as verdades escancaradas, a única que acreditei sem devaneios. De todas as tolices e mancadas, o erro que eu escolhi sem medo. De todas as duvidas entrelaçadas a certeza que anteviu ao receio. De todas as dores amordaçadas, a cura em meio ao desespero.

E como um coletivo de cores numa moldura, você reluziu. De todos os sentidos, em minha ocasião, foi a quem sentiu. A única que ao passar por mim me viu, e veio.

Num Complexo da vivencia cujas explicações eu não sei, de tantas ocasiões e corações assim, na oportunidade de lhe falar direi: foste a única, nessa overdose de sentidos que eu, definitivamente amei. E embora você categoricamente saiba, eu repito: és a última que amarei.

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O coletivo que fomenta o protagonismo dos discriminadores

Por trás de Marco Feliciano existe um coletivo em demasia de opressores silenciosos. É inegável que a sua eleição surte consequências sociais negativas. Qualquer referência a direitos humanos, naquele espaço, será fragilizada, é uma ironia lamentável. Sem contar que parte do progresso alcançado pela comissão até hoje, será desconsiderado, além de muitos outros malefícios que tendem a surgir. Mas a sua figura, colocada em visibilidade, deixa de ilustrar aqueles que o apoiam. Tê-lo como protagonista, não pode servir para tapar o pano de fundo que são aqueles que concordam com suas ideias, mas passam despercebidos, se diluem em compartilhamento, em rede social, de nota de repúdio. Gente como Jair Bolsonaro, Silas Malafaia e Cia, serve para fazermos uma autocrítica generalizada. Se eles alcançaram o posto em que se encontram, tiveram apoio, seja um voto, declarado; seja uma omissão.

Os opressores silenciosos são o verdadeiro mal, pois não são notados, não são coibidos… Geralmente se camuflam numa frase do tipo “não é que eu seja preconceituoso, mas…”, e a gente concorda, chama de “liberdade de expressão”, chama de “cada um pensa de um jeito”, chama de tanta coisa eufêmica para evitar o aspecto de acusação e o conflito, e acabamos colhendo frutos difíceis de conter. Quando dizemos que um Deputado antissemita é perigoso, porque tem poder em mãos, mas um profissional liberal qualquer, com as mesmas ideias enrustidas, não é, migramos da condição de reféns para a de coniventes, porque criamos para eles (os “silenciosos”) uma zona de conforto que permite que o preconceito e a intolerância se perpetuem (enquanto o assunto sobre o Presidente da Comissão não dura duas semanas). Eu diria que o Deputado a que esse texto se refere cumpre uma função social (aberrante, não?), pois a sua evidência permite uma discussão (ainda que temporária) sobre premissas fundamentais que sofreram uma agressão, mas que geralmente passariam despercebidas – respeito, dignidade, igualdade etc.

Gente como Marco Feliciano nos faz lembrar que a segregação ainda derrama sangue e que o âmago desse problema não está no Parlamento, mas dentro de casa, na faculdade, no trabalho… Os episódios deixam de ser trágicos, quando a gente deixa de lembrar que eles existiram. Consecutivamente, deixa de ser importante se a gente não está na pele de quem vai sentir. Quando justificamos a nossa omissão com “diplomacia”, incorremos no risco de não sermos distinguidos dos opressores. É como na ilustração: O Deputado faz o preconceito parecer algo ruim, mas o seu colega de classe (por exemplo), faz parecer normal. É contra o primeiro que você reage, mas foi pelo apoio do segundo que o primeiro triunfou. Não suscito um confronto entre defensores da igualdade contra discriminadores, apenas chamo atenção para que assumamos a responsabilidade de saber lidar com a situação no dia-a-dia, evitando a banalização e reconhecendo que a mudança não é congressista, mas sim voltada à cultura! O processo é gradual, mas se amplifica se nos destinarmos, exaustivamente, como parte desse todo.

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A sanidade é uma questão de hábito

Despretensiosamente eu clamo: “Tornei-me louco?”. Confesso que com algum cinismo eu venho fingindo que acredito. Perco-me nas minhas ideias, me afundo nas minhas palavras, custo me encontrar, quando consigo. As coisas simples tem se mostrado tão complexas e a antítese da complexidade, tão nua. Tornei-me louco, eu digo.

A ausência de platéia me faz ir contrário à poesia. Escrever passou a ser terapêutico, mas o público ao qual me refiro não são as pessoas, apenas os motivos. A ausência de propósito torna as coisas um pouco mais fáceis, ainda que seja menos sublime… Nesse caso, entretanto, não tem por que alguém além de eu entender o que eu digo. Se não tem rumo, não tem alvo. Se nada alcança é como se o “nada” fosse tudo o que tenho escrito. Era para incomodar, mas receio que me conforta. Tornei-me louco, e tenho dito.

Quero brincar com as palavras e canalizar o meu pensamento em um abismo que nem ao autor faz sentido. Só utilizar a atividade cerebral, gastar o vocabulário, me postar em meio a um exercício de erudição, com êxito ou em martírio; ver a cor (em sinestesia!) do cognitivo. Entendeu? Não? É apontar um caminho e destrinchá-lo. Partir de uma frase ou de uma sílaba. É uma relação como a da droga e o viciado. Daí vem abstinência. Quer tentar de todas as maneiras possíveis conseguir saciar o vício. Um objetivo insolvente, que o corpo pede e a alma suplica. Nesse caso, inquestionavelmente “os fins justificam os meios”.

Depois de concluso, é como a seringa usada. Deixada de lado, abre-se um sorriso, vai dormir contente e anestesiado. Como se o corpo se propusesse a uma descarga abrupta de endorfina (mas não é neurotransmissão, é subsunção digital). A diferença é que o texto, independente da estrutura, é visto pelo criador como uma obra prima ainda que embaixo de uma verborragia qualquer. Esse louco aqui é contente por entender, em meio a esse Frankenstein dos escritos, que tipo de louco que ele é. Press save and next.

“Escrever é que é o verdadeiro prazer; ser lido é um prazer superficial”.

(Virgínia Woolf)

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O Blog  “Jurisprudência” Literária, no qual escrevo artigos com temas jurídicos de cunho acadêmico, foi atualizado depois de muito tempo!

Faça a leitura:

A justiça pode irritar porque é precária. A verdade não se impacienta porque é eterna”*

Atualização!

A sociedade-vítima é mãe de seu violentador

Falar de algumas questões “masculinas” exige um tato que por muito tempo eu não tive. É uma exposição cruel ilustrar o podre dos semelhantes de gênero. Mas não tem absolutamente nada a ver com “protecionismo” de “categoria”. Nunca! Não tem nenhum vínculo com a ideia pobre de “defender o time”. Era mais uma questão de vergonha e um pouco de receio. Um homem falar sobre outro homem é um exercício de autocrítica e os motivos são tão latentes e a crítica tão severa que eu simplesmente não conseguia e hoje tento pela primeira vez porque a indignação superou a decepção há tempos.

Não é novidade que rotineiramente mulheres são agredidas, humilhadas e, principalmente, estupradas. O último mês foi marcado por alguns episódios. A indiana de Nova Déli, estuprada coletivamente dentro de um ônibus e depois, no Brasil (São Paulo), a estagiária que suicidou após suposto estupro em confraternização de um renomado escritório de advocacia, caso qual pretendo destacar. É o mesmo crime em circunstâncias diferentes, com peculiaridades diferentes e o segundo, inclusive, pode nem ter ocorrido, mas a sua incidência em outras ocasiões é o que por ora interessa. Vou falar sobre o assunto de maneira genérica para ser prudente.

Existe uma cultura de domínio que vulgariza o que aparentemente é frágil e atribui à fragilidade em si a responsabilidade por qualquer degradação ou qualquer inferiorização que aquela pessoa (mulher) venha a sofrer. Essa circunstância de “dominar” que se exterioriza
num apelo sexual faz jus ao princípio animalesco e rudimentar de atribuir a força ao fálico. Historicamente até se “justifica” levando em conta um objeto em forma de falo (e em biologia podemos falar em potência, sustentação sanguínea, enrijecimento etc.) ilustrando a força dos inanimados deuses. Uma analogia anatômica que excluía a mulher que numa cultura milenar era vista como sexo frágil. Eu serei enfático: Cultura milenar! Quando elaboro uma frase com uma constatação histórica, como a anterior, o faço com um desdém de quem sente o conforto de viver em uma época muito distante da relatada. Aí está! A ideia é absolutamente primata, mas a sua valorização é atual e a sua perpetuação é uma escolha. Pois nesses séculos todos aprendemos muitas coisas, inclusive que somos iguais, que as mulheres são fortes sim, são importantes sim… Se nós não agimos em consonância com essa evolução “conceitual”, definitivamente não é porque não sabemos, é até ingênuo atrelar à ignorância, é apenas porque não queremos. Essa antítese nós, homens (me refiro aos que não são machistas), negligenciamos.

O estupro e o assédio até poderia ter um vínculo mais estreito com correntes Freudianas e com teorias acerca do ímpeto animal pelo prazer que diante de pessoas razoáveis é contido, mas diante de outros não tão portadores desse autocontrole fisiológico não, mas é pior que isso. O ato, o crime, a humilhação, parte da mente ao invés do corpo, é um engenho sustentado por um motivo e incentivado por uma coletividade que acha graça. É um círculo vicioso e não um impulso. Um artigo publicado no portal “Pragmatismo Político” afirmou que “não é uma questão de gênero” e sim de poder. Tendo a concordar com a segunda parte. Há a concepção de que o exercício do poder de um só existe em detrimento da fragilidade de outro. Será? Qual o preço e quais os privilégios (além da superestimação do ego fomentada por uma sociedade que satiriza e maquia o abuso sexual) dessa condição “afortunada”?

Ter poder é tentador, claro! Possuí-lo é uma questão privilegiada que confunde status e sobrevivência. Não tenho medo de pessoas que possuem poder, o que tenho medo é do seu exercício. Uma professora da Universidade uma vez me disse, parafraseando o Desembargador do TJ-RS Amilton Bueno de Carvalho: “Luiz, o poder esquizofreniza o ser humano”. Hoje percebo que vivemos num conglomerado esquizofrênico, onde uma parcela “superiorizada” comanda e dita uma ética social manipulável conforme a conveniência enquanto outra parcela se sujeita, ou porque quer um dia fazer parte do seleto grupo dominador, ou porque o teme ou pior, porque o admira. E isso acontece em todos os níveis, seja em um escritório entre ricos advogados e vulneráveis estagiárias seja um ônibus na Índia com uma mulher e cinco homens. Esses violentadores não se revestem de maníacos, não são doentes mentais, não vivem à margem… São pessoas “comuns”. Pode ser o homem simples que se propaga como macho alfa do espaço onde vive, também pode ser um grande empresário ou portador de qualquer cargo que o coloque numa condição social privilegiada.

Confesso que ainda sou contaminado por alguns caracteres do conservadorismo, uma convicção política aqui, uma filosófica ali… Isso nunca me prejudicou e nunca fez com que eu prejudicasse alguém, mas já vejo a emergência de me desprender disso, não quero correr o risco de ser o negligente de amanhã. Há a necessidade latente de nos apegarmos a detalhes e principalmente nos atentarmos ao que podemos definir assim. O que é pequeno (ou engraçado) para você, pode valer a vida de alguém no dia seguinte.

Como trouxe no início, o tema é intimidador, não tenho a facilidade para abordá-lo como acredito que teria alguém como Leonardo Sakamoto, mas o que eu não posso é me calar e fingir que não incomoda. Eu nem preciso convencê-los de que estou certo, pois o fato de eu me convencer das minhas próprias ideias já me fará alguém melhor. Faz-se necessária a crítica: Os “machões” em questão são sim um problema arraigado, mas tem o privilégio de uma culpa compartilhada com uma coletividade que assiste e aplaude ele provar que é macho desde a infância, quando ele ainda nem conheceu o poder.

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Do plebeu ao falso-benevolente

No peito ardendo o anseio podre que cheira à prole
No sangue jorrando o veneno dissidente, com ar de gente que no lugar de rir, chora
Na gente a dor de quem sente ideias pré-concebidas que se afloram

Que da luta de fato se atente não daqueles que em ti se escoram

Um braço forte sem jeito, num urro de misericórdia,
No tranco da força e nos ranger dos dentes contra o crivo de quem é mais forte
Na queda daquele que bate e se estala no sinistro provocado à mão
Com suor gelado sabes que um dia ele bate, mas no outro apanha como cão

Da garra em crer que pode, mas que o entrave desatina e continua…
Não ciente de que na tragédia e na dor nasce a figura do crissatã oportunista
Tem capital na práxis e discurso de que seu ideal contradiz “dominação”
Com calçado ornado, faz acreditar ser afilhado d’uma tal revolução

Mas é tudo comprado, diz que é pra pobre, mas veio de gente fina
O livro rasgado tem páginas vermelhas, relata o sangue e a luta…
fala da gente um bocado, bem ilustrado, texto cumprido de pauta curta

Dizem um tanto bonito, convencem meio mundo com aquilo,
mas é tudo muito eloquente,
“companheiro” é quem tem condição
a minha aflição pavorosa, o cognitivo dessa gente não entende

Com camisa furada, tênis de trapos, de quem quer crer que o espírito leva jeito
De que vale a fachada-santa, a palavra empenhada,
Se a minha comida vem do seu lixeiro?

A marca que reduz uma história

Dilma corre o risco de se tornar um símbolo que não desejava. Assim como Collor é referência de Impeachment, embora a nova geração em massa nem saiba os motivos pelos quais isso veio a acontecer. O Fernando Henrique, mesmo com a resistência de uma parcela dos nossos pais que teve a caderneta reduzida ou que foi prejudicada pelas privatizações, é o cara do Plano Real. Com o passar dos anos os fatos se diluem, o contexto se apaga, mas fica um símbolo. Juscelino, por exemplo, é o cara que construiu Brasília (talvez seja também o cara do “50 anos em 5”). Não que as pessoas estejam carentes de informação, mas é como se isso deixasse de ter relevância. Fatos como o de Juscelino Kubistchek, por exemplo, ter sido o homem do Plano de Metas para o boom do desenvolvimento econômico desse país Tupiniquim, ou o homem responsável pela ascensão da indústria de base, não obstante pelo grande endividamento do Brasil, é conteúdo para livro de história. A sociedade, no geral, se satisfaz com o rótulo, o símbolo, o marco. O que se reserva para a primeira mulher a governar o país? Há uma dicotomia consequencial: Abrir o precedente ou ser o governo que disse “não” para a educação? Logo a educação.

A polêmica tem origens bem primitivas. A casa já estava em desordem quando a presidente chegou. A começar pelo fiasco sempre reiterado do ENEM. O Exame que Lula (lá em Moçambique) disse que foi um sucesso “total e absoluto”, no mesmo dia em que liminar federal havia o suspendido, após emergirem as denúncias de erros, sobretudo de impressão na folha-resposta. Resultado de extrema falta de logística, numa sucessão de erros amadores do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa (INEP) e do Ministério da Educação (ao qual aquele é vinculado). Fernando Haddad então Ministro da Educação, da maneira politizada e com alguma retórica, se esquiva das falhas e sobrecarregava as entrevistas com justificativas. A última “polêmica” lançada, – depois de prova roubada, mal impressa, questões vazadas etc – dizia respeito à discrepância das notas dadas por diferentes corretores das redações, o que ensejou uma série de ações judiciais que exigiam reavaliações.  Haddad ausentou-se do cargo antes que pudesse responder, figurando então Aloizio Mercadante.

Quem se esqueceu do kit-contra a homofobia, ou como foi pejorativamente popularizado, “kit-gay”? O Ministério da Educação rompendo os limites do “educar”, outra vez. O objetivo poderia até ser bom, mas a comunicação, horrível. Homofobia é um mal a ser combatido, mas o kit no seu inteiro teor, inserido nas salas de aula, definitivamente, não seria o caminho. As campanhas precisam ser paulatinas, reflexivas. O processo deve buscar desmembrar o preconceito travestido de conservadorismo e difundir um aprendizado pacifista e plural. O filme que conta a história bonita do travesti “Bianca” subestimaria a capacidade crítica dos adolescentes endereçados. O projeto era desde o princípio um fracasso. O secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do MEC, em audiência na Câmara, afirmou que passaram três meses discutindo se um beijo lésbico apareceria ou não. O que se sabe é que foram gastos tempo e dinheiro num projeto que nasceu para ser vetado. Sobravam motivos, faltava a educação.

Os escândalos do MEC não se encerram por aqui, mas é Dilma que nos interessa. Mesmo intitulada presidente da “faxina”, o Ministro Haddad foi poupado na era do “Tolerância Zero”. Saiu por conta própria em face das eleições municipais. Apadrinhado por ninguém menos que Luís Inácio Lula da Silva. Em respeito ao mais poupado presidente da história, sacrificou-se, por muito tempo, um dos Ministérios mais importantes para o país.

Muito além do Ministério, a crise invadiu a sala de aula. Uma insatisfação de décadas, somada a propostas do passado que não foram efetivadas, culminou numa greve em cadeia dos professores das Instituições de Ensino Superior, tão como dos servidores técnico-administrativos. Ainda que atingido por problemas internos que perduram – como a briga entre sindicados, e de sindicatos com os próprios representados – o movimento ganhou força e se esbarrou, desde início, com a resistência do Governo Federal. Regado a frases pouco democráticas como “só negocio se voltarem ao trabalho” (Dilma Roussef), o governo à braço-de-ferro, lançou um diálogo não muito amigável, mas mascarado de bons propósitos. O reajuste máximo (para quem está no topo da carreira, cerca 10% da categoria) só seria alcançado em 2015, os outros níveis em 3 anos. A publicidade pouco informativa e meramente ilustrativa satisfaz uma ideia de negociação assídua e de interesse salarial excessivo por parte dos docentes, ocultando a fragilidade do (pouco) que foi proposto e a obscuridade em cima da qual se constrói a carreira docente no país. Mateus Prado, em coluna no IG, traduz melhor essas palavras:

“A progressão de níveis nas carreiras não apresenta nenhuma lógica. Em alguns lugares da “tabela”, 24 meses de trabalho oferecem 1,5% de aumento na carreira, em outros 9%, e a salada de porcentagens sem conexão é continua. O mesmo acontece para os professores que adquirirem aperfeiçoamento, especialização, pós, mestrado ou doutorado. A “subida nos degraus da carreira” não apresenta nenhuma lógica, nem mesmo a do tempo de serviço ou da relação com aperfeiçoamento e especialização do professor. É essa falta de lógica que alguns sindicatos estão chamando de desestruturação da carreira, em que não fica claro ao professor como vai ser sua história profissional e como serão seus vencimentos, já que parte deles não é contabilizado como salário. No caso do professor titular doutor, por exemplo, somente 40% do valor divulgado é salário, o resto é um monte de linhas no contra-chegue com dezenas de gratificações que podem, inclusive, ser extintas a qualquer momento. Uma parte da categoria, ainda, descontada a inflação, receberá menos em 2015 do que atualmente.

Mesmo diante dessa grave situação, que faz com que seja cada vez mais difícil atrair melhores talentos para a educação, o governo não concentra o debate na proposta, mas desvia seu foco para pressionar pelo fim da greve com uma estratégia que envolve várias ações paralelas. “

Com mais de 70 dias de greve, Dilma se vê numa dicotomia (que existe desde que a greve foi deflagrada); negociar dentro daquilo que anseiam os professores e, dessa forma, abrir um precedente grevista que teme não ser capaz de controlar, ou ratificar a rigidez do governo e dar por encerradas as negociações, deixar que as consequências se prolonguem e se perpetuar como aquela que disse “não” à educação, sobretudo pelo fato de que a insatisfação, cedo ou tarde, retomará um projeto de greve. E o contexto nos inunda dessa ausência de certezas, o que nos faz refletir como o que foi supracitado, à base de possibilidades.

A política não pode ter pretensões proféticas. Os desdobramentos ainda podem surpreender, mas é inevitável, arrumar um conflito direto com a classe estudantil tem consequências severas.  Os estudantes, quando ouvirem o nome Dilma, terão um símbolo nada positivo para remeter. Embora a presidenta goze de mais de 70% de índices de aprovação, o contorno que faz do seu governo é que se encarregará de preencher as páginas dos livros didáticos, não obstante, as lacunas de nossa criatividade simbológica, somando-se ao acervo que guarda Juscelino, Collor, Lula… A população matriculada em Instituições de Ensino Superior pode estar apenas em torno de 6,5 milhões, mas somados aos professores, técnicos, amigos e familiares, além do resto da população que consegue ficar a par do que acontece através das cortinas, muita  gente se lembrará dessa história. Se dessa maneira for, Dilma Roussef caminhará para ser aquela que negligenciou o ato de educar.

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AS REDES SOCIAIS E A FÁBRICA DE APEDEUTAS

Eu espero sinceramente que um dia as pessoas compreendam que existem, sobretudo, como funcionam, “ferramentas” chamadas de veículos de comunicação. E comunicação se escora numa relação que enseja CORRESPONDÊNCIA. Destarte venho lembrar-lhes que se tornou uma cultura lamentável a exposição de palavras e imagens grosseiras e absolutamente tendenciosas a fim de (ao menos é como interpreto) gerar conscientização. Eu gostaria de saber em que sistema  catedrático, essas pessoas aprenderam que a construção de um ser consciente se faz de maneira unilateral? Consciência une intrinsecamente conceitos como o de ética, conhecimento e ideias. Confunde-se conscientizar com convencer, impor uma falsa consciência enquanto o indivíduo precisava se conscientizar. O papel daquele que se julga nessa relação de “imposição” é o de ensinar, apenas.

Definitivamente é uma grosseria publicarem foto de vaca pendurada em matadouro clandestino e dizer que ou devemos nos tornar vegetarianos ou estamos contribuindo com isso, o mesmo se aplica a foto de feto jogado no lixo pra dizer que é contra o aborto e que quem luta pela descriminação do ato, é assassino. Porque não discutimos (no primeiro caso), a existência de matadouros não credenciados que torturam os animais, lembrando que os demais não fazem isso, tendo em vista a manutenção da qualidade da carne, já que é a violência que incomoda? Ou então (para o aborto) porque não procuramos foto de criança abandonada em orfanato, passando fome e sendo maltratada (e o Brasil é recordista nesses números) consequência da gestação em mulheres que não tinham nenhuma capacidade de colocar alguém no mundo? É questão de criminalização (justiça) ou saúde pública? A gênese, nesse caso, não seria campanha para o uso de métodos anticonceptivos? Não estou (e nem quero) discutindo o aborto ou o vegetarianismo, só quero elucidar a gravidade de se vulgarizar a comunicação na internet, vendendo um propósito disfarçado e medíocre.

Um dia me disseram, “mas o popular, o leigo, só entende assim”. Porque os “índices” de ignorância são massivos, para nos comunicar com esse público, nos igualaremos aos seu inaceitável nível de instrução por intermédio de uma dialética que propõe uma homogeneidade em decadência? Estamos contribuindo para que esse indivíduo nunca cresça e pior, para nós regredirmos. Não é porque ele não entende que eu usarei de uma linguagem pobre e mesquinha! A conscientização se constrói com troca de informações, não de lágrimas, não sensação de susto ou de nojo. É fácil reivindicar por melhorias na educação como um todo, na classe docente e até mesmo na estrutura física das escolas, mas educação não se restringe a uma sala de aula. O nível de instrução de quem está ao seu redor pode ser influenciado pela sua renúncia tácita ao poder de transmitir informações, quando poderia fazê-lo. Hora de dar um basta a essas fotografias que aparentemente mostram muito, mas além de não dizerem nada, omitem um aglomerado de “verdades” a serem discutidas. Transformação social não é isso.

USP na dicotomia: Glorificá-los ou criminalizá-los?

Os acontecimentos foram bem rápidos. Do dia que soube que havia estudantes se manifestando na USP até o dia em que foram retirados de lá, foi um lapso temporal quase imperceptível. Sobretudo por esse motivo, demora-se um pouco mais para se ter a certeza de uma opinião formada acerca dos fatos, até pouco, insuficientes. Meu primeiro ponto de vista, assim como de muita gente, foi contrário ao movimento e favorável à ideia publicizada de que não passava de uma balbúrdia injustificável. Em termos, isso mudou.

É inegável, até porque a informação foi fornecida pelos próprios estudantes, que o primeiro ato de manifestação veio em virtude da detenção de alguns alunos que faziam uso de maconha nos arredores do campus. O primeiro ponto a se abordar é o aspecto formal do problema em questão que, embora seja possível não ter sido a primeira reação e, destarte, um episódio pífio (segundo os alunos) diante de uma “causa maior”, não deixa de ser a gênese do movimento. Entende-se: Portar maconha para uso próprio não tem a mesma roupagem de crime, reduziu-se sua relevância (é um argumento que até então não foi utilizado por eles e seria bem persistente), mas é uma discussão subjetiva. Se trabalharmos como crime aquilo que imputa uma lei penal incriminadora, talvez tenha deixado de sê-lo, mas sob o aspecto doutrinário e objetivo da acepção, onde se enquadram: conduta típica, antijurídica e culpável, não se isentou do conceito ainda aplicável. O que até então não deixa margem para discussão é que, não deixou de ser antijurídico, não obstante por se ter previsão para tal: Art. 28.  Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar será submetido às seguintes penas: I – advertência sobre os efeitos das drogas; II – prestação de serviços à comunidade; III – medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo (LEI Nº 11.343, DE 23 DE AGOSTO DE 2006).

Não compartilho da tese de que se descriminalizou, até porque o referido dispositivo está inserido no Capitulo III: Dos Crimes e das Penas. É certo que haverá retaliações, até o dia (e se um dia isso acontecer) em que não seja tipificado de nenhuma maneira. A esse respeito, não há como questionar uma detenção para que fosse lavrado um termo, até que as demais medidas legais (já ilustrado) fossem tomadas. Injustificável os estudantes utilizarem-se dos clichês de sempre (ditadura, arbitrariedade, livre-manifestação…) para justificarem a retaliação aos policiais que cumpriam com um procedimento comum. É claro que não é prudente sermos minimalistas em reduzirmos tudo a esse caso específico, mas não podemos ser levianos em deixar de considerá-lo com a relevância que merece.

Esse foi o ponto de partida para os acontecimentos subsequentes. Todos sabem que é uma cultura nas universidades de todo o país, o consumo de drogas como a maconha (sobretudo ela) – quando digo cultura, não falo apoiando nem sendo contrário à prática, apenas ilustro sua corriqueira ocorrência – mas partir daí e esperar algum apoio popular e à ascensão de outras ideias (já que os fundamentos incisivamente se modificam) é, no mínimo, falta de coerência e “estratégia”. Não podemos ser ingênuos a ponto de acreditar que quase uma centena de alunos da universidade mais prestigiada do país, que chegaram até lá através do vestibular mais concorrido (o que nos faz partir do pressuposto de que são “mentes selecionadas”) ocupariam a reitoria simplesmente pela “liberdade” de se consumir drogas. É óbvio que não! Lembrando que outras assembléias organizadas por aqueles, tão como a ocorrida após a desocupação da reitoria, levou mais de mil alunos ao debate, tornando lúcida a acepção de que a realidade do impasse é um pouco mais obscura. O atual reitor da USP é sim um homem de “escândalos ocultados” e muitas informações provenientes do corpo discente e docente nos tende a crer que algo, naquela administração da universidade, precisa ser repensado com urgência. Repudiar a balbúrdia é um ponto justo que não pode culminar na incriminação da reivindicação como um todo, tapando uma série de possíveis problemas já ocultos que serão (ainda mais) negligenciados. Que respaldo esses alunos têm (agora) para cobrarem isso? Depende muito mais de nós, que nos julgamos coerentes, que não coadunamos com condutas criminosas e que podemos ter consciência que nem tudo deva passar despercebido do que deles. Aqueles jovens, por via dos próprios atos, claro, serão os “maconheiros e baderneiros” por muito tempo e isso, mais do que um problema para eles e para suas vidas acadêmicas pode vir a ser um problema para toda a sociedade que busca nas entidades autárquicas (caso das universidades públicas) transparência e boa administração, contudo por cumprir a universidade, um papel ímpar de construção de pensamento e de desenvolvimento humano, científico e social.

Volto a dizer que o ponto de partida foi o uso da maconha e isso infelizmente se tornou um estigma! Mas quem discordaria que seria assim? Para completar a sucessão de equívocos desse movimento mal articulado, após a saída dos estudantes do prédio, as imagens que se obteve acesso, foram de um patrimônio público destruído! E quando dizemos “público” não devemos fazer referência àquilo que é do Estado, como (erroneamente) acontece muito, mas aquilo que é da sociedade, é propriedade dos alunos, do cidadão paulistano e de todo brasileiro que contribui com verba federal. O patrimônio não está acima de tudo, é evidente que não, mas quando a razão e o bom-senso estão abaixo da impulsividade e da desordem é muito difícil se obter respeito. Acaba que a conservação física de um prédio passa a ser mais importante. Reitero: é provável que os “uspianos” (termo aferido pelos colunistas) tenham algo a questionar que seja do interesse de todos, mas é fato que não souberam como dizer, muito menos como começar aquilo que resultou num fim absolutamente previsível. Não é porque simplesmente ocuparam o prédio da reitoria, vale lembrar os alunos da UnB que, também por via de uma ocupação, conseguiram afastar o reitor.

Faltou inteligência naqueles que, a princípio, seriam uma referência disso. É muito recente a morte do rapaz, que com um tiro foi vítima de um assalto dentro do campus. Um caso muito noticiado que foi de conhecimento de todos e fez com que as pessoas se comovessem. Apenas questionar a presença da polícia no campus (logo agora), e partindo de uma detenção de alunos com entorpecentes numa sociedade que tem como um dos maiores problemas sociais o tráfico (para a segurança pública) e o consumo de drogas e bebida alcoólica (para a saúde pública) é, com o perdão da palavra, burrice. A falar nos ataques à mídia, sem levar em conta que ela (ainda que seja corporativista, manipuladora, alienante e todos os demais adjetivos que o pessoal pró-Marx gosta de utilizar) é o veículo de acesso da sociedade àquilo que acontece no resto do país. Quer a gente concorde ou não. O que deu força ao movimento da UnB em 2008, que culminou com o afastamento do reitor Timothy Mulholland, foram as denúncias midiáticas. Ou os estudantes algum dia conseguiriam saber (e divulgar para todo um país) que o Mulholland utilizou de dinheiro público para mobiliar sua residência? É a prova de que os estudantes da USP foram, acima de tudo, infantis.

Denúncia contra autoridades e chefes de entidades administrativas é algo que está em voga, vende a notícia. É de conhecimento de todos que os jornais e a TV abraçam isso, pois alimenta ibope (em todos os sentidos). Ainda que essas instituições tenham propósitos particulares que não “coincidem com a causa”, se virar contra elas é fruto de um idealismo cego. Questiona-se ainda a ação militar que na “calada da noite” (segundo estudante), entrou e pegou de surpresa os manifestantes. Isso era só uma questão de tempo, a sociedade foi favorável a essa ação, o vilão da vez, foram os estudantes e a força coercitiva estatal, o mocinho. É sim um “hábito governamental” tentar (às escuras) coibir os movimentos sociais, sobretudo estudantis, mas dessa vez não precisaram de muito, as próprias vítimas dessa articulação, os puseram como legítimos. Deviam agradecer por ter ocorrido de madrugada, a finalidade era evitar reação e, consequentemente, mais violência.

É certo que paira um rótulo sobre o estudante no Brasil. Falo com propriedade por ser um. Somos caçados pelas autoridades, somos vistos com receio. Mas se somos reprimidos é porque eles sabem que temos força e, acima de tudo, coragem. Mas todo movimento deve saber se articular desde a base, desde a primeira faixa e o primeiro grito, o que aqueles alunos, pouco conscientes (alimentados por uma minoria cega de “neoanarquistas” que ainda não se encontraram política e ideologicamente) conseguiram, foi serem desmoralizados nacionalmente e enfraquecer com aquilo que se chama de “movimento estudantil”.

Sem embargo, devemos ao menos ser sensatos e encarar que incriminar os manifestantes por (um dos “crimes” veiculado nas reportagens) formação de quadrilha é uma agressão! Sobretudo uma represália àqueles que, por conseguinte, pensarem em levantar a voz. A supremacia do texto da Lei deixou de preponderar, ainda mais no que tange controle das “liberdades” – não estou sendo contraditório, há um abismo enorme nesse tipo de crime, com o do exemplo de porte de maconha, ambos imputados aos estudantes.

Dizer que apoia ou é contra a PM no campus, são questões a serem debatidas pelos estudantes daquele espaço, temos apenas “informações”, não a dimensão real do que é vivido ali dentro. É natural a resistência de acadêmicos em conviver com forças policiais. Historicamente são categorias que não se entendem bem. Os estereótipos são mútuos e isso só poderia gerar desconforto e conflitos. Nesse caso há que se ponderar: Há a necessidade de ter a polícia dentro do campus? O motivo para tal, só se supriria com a atuação da PM? …Não existem outros mecanismos? Todas essas perguntas têm respostas e podem, de fato, serem deliberadas em plebiscitos e assembléias. As indagações precisavam terem sido feitas de forma democrática e articulada para, noutro momento, gerar transformações mais pragmáticas. Se, a partir daí, existisse resistência (imperativa e hierárquica, como é alegado) contra essas possíveis e necessárias modificações de atuação e de pensamento, haveria de existir, partindo dessa causa e com esse fundamento, uma atuação (planejada) um pouco mais enérgica por parte dos discentes. Não aconteceu dessa maneira e essa ruptura de processos de diálogo, resultou numa “deslegitimação” de toda uma causa (que é absolutamente possível de existir e ter coerência).

No mais é importante salientar que apenas cerca de 2% dos estudantes da USP se manifestaram, e um número bem inferior a isso esteve efetivamente à frente do movimento. Tanto o que se noticia como aquilo que, de agora em diante, os estudantes querem passar, são dados que precisam ser filtrados já que as verdades talvez nunca sejam ditas. Que os erros não se repitam e que cedo ou tarde, voltem a dar um mínimo de credibilidade a qualquer frase que termine com “estudantil”.

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