A sanidade é uma questão de hábito

Despretensiosamente eu clamo: “Tornei-me louco?”. Confesso que com algum cinismo eu venho fingindo que acredito. Perco-me nas minhas ideias, me afundo nas minhas palavras, custo me encontrar, quando consigo. As coisas simples tem se mostrado tão complexas e a antítese da complexidade, tão nua. Tornei-me louco, eu digo.

A ausência de platéia me faz ir contrário à poesia. Escrever passou a ser terapêutico, mas o público ao qual me refiro não são as pessoas, apenas os motivos. A ausência de propósito torna as coisas um pouco mais fáceis, ainda que seja menos sublime… Nesse caso, entretanto, não tem por que alguém além de eu entender o que eu digo. Se não tem rumo, não tem alvo. Se nada alcança é como se o “nada” fosse tudo o que tenho escrito. Era para incomodar, mas receio que me conforta. Tornei-me louco, e tenho dito.

Quero brincar com as palavras e canalizar o meu pensamento em um abismo que nem ao autor faz sentido. Só utilizar a atividade cerebral, gastar o vocabulário, me postar em meio a um exercício de erudição, com êxito ou em martírio; ver a cor (em sinestesia!) do cognitivo. Entendeu? Não? É apontar um caminho e destrinchá-lo. Partir de uma frase ou de uma sílaba. É uma relação como a da droga e o viciado. Daí vem abstinência. Quer tentar de todas as maneiras possíveis conseguir saciar o vício. Um objetivo insolvente, que o corpo pede e a alma suplica. Nesse caso, inquestionavelmente “os fins justificam os meios”.

Depois de concluso, é como a seringa usada. Deixada de lado, abre-se um sorriso, vai dormir contente e anestesiado. Como se o corpo se propusesse a uma descarga abrupta de endorfina (mas não é neurotransmissão, é subsunção digital). A diferença é que o texto, independente da estrutura, é visto pelo criador como uma obra prima ainda que embaixo de uma verborragia qualquer. Esse louco aqui é contente por entender, em meio a esse Frankenstein dos escritos, que tipo de louco que ele é. Press save and next.

“Escrever é que é o verdadeiro prazer; ser lido é um prazer superficial”.

(Virgínia Woolf)

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