A sociedade-vítima é mãe de seu violentador

Falar de algumas questões “masculinas” exige um tato que por muito tempo eu não tive. É uma exposição cruel ilustrar o podre dos semelhantes de gênero. Mas não tem absolutamente nada a ver com “protecionismo” de “categoria”. Nunca! Não tem nenhum vínculo com a ideia pobre de “defender o time”. Era mais uma questão de vergonha e um pouco de receio. Um homem falar sobre outro homem é um exercício de autocrítica e os motivos são tão latentes e a crítica tão severa que eu simplesmente não conseguia e hoje tento pela primeira vez porque a indignação superou a decepção há tempos.

Não é novidade que rotineiramente mulheres são agredidas, humilhadas e, principalmente, estupradas. O último mês foi marcado por alguns episódios. A indiana de Nova Déli, estuprada coletivamente dentro de um ônibus e depois, no Brasil (São Paulo), a estagiária que suicidou após suposto estupro em confraternização de um renomado escritório de advocacia, caso qual pretendo destacar. É o mesmo crime em circunstâncias diferentes, com peculiaridades diferentes e o segundo, inclusive, pode nem ter ocorrido, mas a sua incidência em outras ocasiões é o que por ora interessa. Vou falar sobre o assunto de maneira genérica para ser prudente.

Existe uma cultura de domínio que vulgariza o que aparentemente é frágil e atribui à fragilidade em si a responsabilidade por qualquer degradação ou qualquer inferiorização que aquela pessoa (mulher) venha a sofrer. Essa circunstância de “dominar” que se exterioriza
num apelo sexual faz jus ao princípio animalesco e rudimentar de atribuir a força ao fálico. Historicamente até se “justifica” levando em conta um objeto em forma de falo (e em biologia podemos falar em potência, sustentação sanguínea, enrijecimento etc.) ilustrando a força dos inanimados deuses. Uma analogia anatômica que excluía a mulher que numa cultura milenar era vista como sexo frágil. Eu serei enfático: Cultura milenar! Quando elaboro uma frase com uma constatação histórica, como a anterior, o faço com um desdém de quem sente o conforto de viver em uma época muito distante da relatada. Aí está! A ideia é absolutamente primata, mas a sua valorização é atual e a sua perpetuação é uma escolha. Pois nesses séculos todos aprendemos muitas coisas, inclusive que somos iguais, que as mulheres são fortes sim, são importantes sim… Se nós não agimos em consonância com essa evolução “conceitual”, definitivamente não é porque não sabemos, é até ingênuo atrelar à ignorância, é apenas porque não queremos. Essa antítese nós, homens (me refiro aos que não são machistas), negligenciamos.

O estupro e o assédio até poderia ter um vínculo mais estreito com correntes Freudianas e com teorias acerca do ímpeto animal pelo prazer que diante de pessoas razoáveis é contido, mas diante de outros não tão portadores desse autocontrole fisiológico não, mas é pior que isso. O ato, o crime, a humilhação, parte da mente ao invés do corpo, é um engenho sustentado por um motivo e incentivado por uma coletividade que acha graça. É um círculo vicioso e não um impulso. Um artigo publicado no portal “Pragmatismo Político” afirmou que “não é uma questão de gênero” e sim de poder. Tendo a concordar com a segunda parte. Há a concepção de que o exercício do poder de um só existe em detrimento da fragilidade de outro. Será? Qual o preço e quais os privilégios (além da superestimação do ego fomentada por uma sociedade que satiriza e maquia o abuso sexual) dessa condição “afortunada”?

Ter poder é tentador, claro! Possuí-lo é uma questão privilegiada que confunde status e sobrevivência. Não tenho medo de pessoas que possuem poder, o que tenho medo é do seu exercício. Uma professora da Universidade uma vez me disse, parafraseando o Desembargador do TJ-RS Amilton Bueno de Carvalho: “Luiz, o poder esquizofreniza o ser humano”. Hoje percebo que vivemos num conglomerado esquizofrênico, onde uma parcela “superiorizada” comanda e dita uma ética social manipulável conforme a conveniência enquanto outra parcela se sujeita, ou porque quer um dia fazer parte do seleto grupo dominador, ou porque o teme ou pior, porque o admira. E isso acontece em todos os níveis, seja em um escritório entre ricos advogados e vulneráveis estagiárias seja um ônibus na Índia com uma mulher e cinco homens. Esses violentadores não se revestem de maníacos, não são doentes mentais, não vivem à margem… São pessoas “comuns”. Pode ser o homem simples que se propaga como macho alfa do espaço onde vive, também pode ser um grande empresário ou portador de qualquer cargo que o coloque numa condição social privilegiada.

Confesso que ainda sou contaminado por alguns caracteres do conservadorismo, uma convicção política aqui, uma filosófica ali… Isso nunca me prejudicou e nunca fez com que eu prejudicasse alguém, mas já vejo a emergência de me desprender disso, não quero correr o risco de ser o negligente de amanhã. Há a necessidade latente de nos apegarmos a detalhes e principalmente nos atentarmos ao que podemos definir assim. O que é pequeno (ou engraçado) para você, pode valer a vida de alguém no dia seguinte.

Como trouxe no início, o tema é intimidador, não tenho a facilidade para abordá-lo como acredito que teria alguém como Leonardo Sakamoto, mas o que eu não posso é me calar e fingir que não incomoda. Eu nem preciso convencê-los de que estou certo, pois o fato de eu me convencer das minhas próprias ideias já me fará alguém melhor. Faz-se necessária a crítica: Os “machões” em questão são sim um problema arraigado, mas tem o privilégio de uma culpa compartilhada com uma coletividade que assiste e aplaude ele provar que é macho desde a infância, quando ele ainda nem conheceu o poder.

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