A marca que reduz uma história

Dilma corre o risco de se tornar um símbolo que não desejava. Assim como Collor é referência de Impeachment, embora a nova geração em massa nem saiba os motivos pelos quais isso veio a acontecer. O Fernando Henrique, mesmo com a resistência de uma parcela dos nossos pais que teve a caderneta reduzida ou que foi prejudicada pelas privatizações, é o cara do Plano Real. Com o passar dos anos os fatos se diluem, o contexto se apaga, mas fica um símbolo. Juscelino, por exemplo, é o cara que construiu Brasília (talvez seja também o cara do “50 anos em 5”). Não que as pessoas estejam carentes de informação, mas é como se isso deixasse de ter relevância. Fatos como o de Juscelino Kubistchek, por exemplo, ter sido o homem do Plano de Metas para o boom do desenvolvimento econômico desse país Tupiniquim, ou o homem responsável pela ascensão da indústria de base, não obstante pelo grande endividamento do Brasil, é conteúdo para livro de história. A sociedade, no geral, se satisfaz com o rótulo, o símbolo, o marco. O que se reserva para a primeira mulher a governar o país? Há uma dicotomia consequencial: Abrir o precedente ou ser o governo que disse “não” para a educação? Logo a educação.

A polêmica tem origens bem primitivas. A casa já estava em desordem quando a presidente chegou. A começar pelo fiasco sempre reiterado do ENEM. O Exame que Lula (lá em Moçambique) disse que foi um sucesso “total e absoluto”, no mesmo dia em que liminar federal havia o suspendido, após emergirem as denúncias de erros, sobretudo de impressão na folha-resposta. Resultado de extrema falta de logística, numa sucessão de erros amadores do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa (INEP) e do Ministério da Educação (ao qual aquele é vinculado). Fernando Haddad então Ministro da Educação, da maneira politizada e com alguma retórica, se esquiva das falhas e sobrecarregava as entrevistas com justificativas. A última “polêmica” lançada, – depois de prova roubada, mal impressa, questões vazadas etc – dizia respeito à discrepância das notas dadas por diferentes corretores das redações, o que ensejou uma série de ações judiciais que exigiam reavaliações.  Haddad ausentou-se do cargo antes que pudesse responder, figurando então Aloizio Mercadante.

Quem se esqueceu do kit-contra a homofobia, ou como foi pejorativamente popularizado, “kit-gay”? O Ministério da Educação rompendo os limites do “educar”, outra vez. O objetivo poderia até ser bom, mas a comunicação, horrível. Homofobia é um mal a ser combatido, mas o kit no seu inteiro teor, inserido nas salas de aula, definitivamente, não seria o caminho. As campanhas precisam ser paulatinas, reflexivas. O processo deve buscar desmembrar o preconceito travestido de conservadorismo e difundir um aprendizado pacifista e plural. O filme que conta a história bonita do travesti “Bianca” subestimaria a capacidade crítica dos adolescentes endereçados. O projeto era desde o princípio um fracasso. O secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do MEC, em audiência na Câmara, afirmou que passaram três meses discutindo se um beijo lésbico apareceria ou não. O que se sabe é que foram gastos tempo e dinheiro num projeto que nasceu para ser vetado. Sobravam motivos, faltava a educação.

Os escândalos do MEC não se encerram por aqui, mas é Dilma que nos interessa. Mesmo intitulada presidente da “faxina”, o Ministro Haddad foi poupado na era do “Tolerância Zero”. Saiu por conta própria em face das eleições municipais. Apadrinhado por ninguém menos que Luís Inácio Lula da Silva. Em respeito ao mais poupado presidente da história, sacrificou-se, por muito tempo, um dos Ministérios mais importantes para o país.

Muito além do Ministério, a crise invadiu a sala de aula. Uma insatisfação de décadas, somada a propostas do passado que não foram efetivadas, culminou numa greve em cadeia dos professores das Instituições de Ensino Superior, tão como dos servidores técnico-administrativos. Ainda que atingido por problemas internos que perduram – como a briga entre sindicados, e de sindicatos com os próprios representados – o movimento ganhou força e se esbarrou, desde início, com a resistência do Governo Federal. Regado a frases pouco democráticas como “só negocio se voltarem ao trabalho” (Dilma Roussef), o governo à braço-de-ferro, lançou um diálogo não muito amigável, mas mascarado de bons propósitos. O reajuste máximo (para quem está no topo da carreira, cerca 10% da categoria) só seria alcançado em 2015, os outros níveis em 3 anos. A publicidade pouco informativa e meramente ilustrativa satisfaz uma ideia de negociação assídua e de interesse salarial excessivo por parte dos docentes, ocultando a fragilidade do (pouco) que foi proposto e a obscuridade em cima da qual se constrói a carreira docente no país. Mateus Prado, em coluna no IG, traduz melhor essas palavras:

“A progressão de níveis nas carreiras não apresenta nenhuma lógica. Em alguns lugares da “tabela”, 24 meses de trabalho oferecem 1,5% de aumento na carreira, em outros 9%, e a salada de porcentagens sem conexão é continua. O mesmo acontece para os professores que adquirirem aperfeiçoamento, especialização, pós, mestrado ou doutorado. A “subida nos degraus da carreira” não apresenta nenhuma lógica, nem mesmo a do tempo de serviço ou da relação com aperfeiçoamento e especialização do professor. É essa falta de lógica que alguns sindicatos estão chamando de desestruturação da carreira, em que não fica claro ao professor como vai ser sua história profissional e como serão seus vencimentos, já que parte deles não é contabilizado como salário. No caso do professor titular doutor, por exemplo, somente 40% do valor divulgado é salário, o resto é um monte de linhas no contra-chegue com dezenas de gratificações que podem, inclusive, ser extintas a qualquer momento. Uma parte da categoria, ainda, descontada a inflação, receberá menos em 2015 do que atualmente.

Mesmo diante dessa grave situação, que faz com que seja cada vez mais difícil atrair melhores talentos para a educação, o governo não concentra o debate na proposta, mas desvia seu foco para pressionar pelo fim da greve com uma estratégia que envolve várias ações paralelas. “

Com mais de 70 dias de greve, Dilma se vê numa dicotomia (que existe desde que a greve foi deflagrada); negociar dentro daquilo que anseiam os professores e, dessa forma, abrir um precedente grevista que teme não ser capaz de controlar, ou ratificar a rigidez do governo e dar por encerradas as negociações, deixar que as consequências se prolonguem e se perpetuar como aquela que disse “não” à educação, sobretudo pelo fato de que a insatisfação, cedo ou tarde, retomará um projeto de greve. E o contexto nos inunda dessa ausência de certezas, o que nos faz refletir como o que foi supracitado, à base de possibilidades.

A política não pode ter pretensões proféticas. Os desdobramentos ainda podem surpreender, mas é inevitável, arrumar um conflito direto com a classe estudantil tem consequências severas.  Os estudantes, quando ouvirem o nome Dilma, terão um símbolo nada positivo para remeter. Embora a presidenta goze de mais de 70% de índices de aprovação, o contorno que faz do seu governo é que se encarregará de preencher as páginas dos livros didáticos, não obstante, as lacunas de nossa criatividade simbológica, somando-se ao acervo que guarda Juscelino, Collor, Lula… A população matriculada em Instituições de Ensino Superior pode estar apenas em torno de 6,5 milhões, mas somados aos professores, técnicos, amigos e familiares, além do resto da população que consegue ficar a par do que acontece através das cortinas, muita  gente se lembrará dessa história. Se dessa maneira for, Dilma Roussef caminhará para ser aquela que negligenciou o ato de educar.

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