Autógrafo de epitáfio lúcido

Santo Deus, que quarto sujo. Que desordem. Claro que de cabeça para baixo, tudo parece que é confusão. Mas ainda acho que devia ter limpado. Devia ter arrumado as gavetas, escutado o meu CD preferido. Eu podia mesmo era ter assistido mais uma vez ao Tarantino. O cigarro vai terminar primeiro, antes que eu perceba que não estou mais ali. As cinzas caem ironicamente e eu vejo graça em assistir a desgraça acontecer. Meu suspiro é leve como pluma, existe um ar que circula, mas já não me vitaliza. Exatamente como a chuva lá fora, que pouco molha, mas incisivamente esfria. …E como, está tão frio que minhas juntas doem e já não sinto minhas pernas. Talvez seja apenas o meu corpo que já não mantém calor como antes, ainda que conflitando com espasmos. Talvez seja a cessão da minha capacidade de sentir e qualquer outra relação a isso é mero vício da fala a fim de criar sinestesia. Está nublado, ou são minhas vistas? O dia está triste ou é só minha ex-vida? Se ao menos pudesse acender a luz… Percebo que as despedidas são deveras demasiantes ainda que não se tenha a quem despedir… Acompanhe.

Eu espero ansiosamente alguém entrar pela porta. Não para me dizer que era tudo uma brincadeira e que na verdade estou salvo. Não para dizer que vou ficar bem, isso já não importa. Era só para eu desfrutar de um último abraço ou assistir, naquele quarto, uma presença viva. Sabemos que não vai acontecer. Não há absolutamente nada pior do que frustrar-se com si mesmo. Assim o fiz. Espere que as pessoas se decepcionem com você. Espere, pois vai acontecer. Vão dizer que seus problemas são menores e que suas angústias são reversíveis. Vão lhe atribuir toda a culpa dos problemas do mundo. E estarão certos. Esperam de você o que não pode dar. E serão apoiados. Poucos méritos atribuirão àquilo que se esforçou para obter, isso quando for reconhecido. A decepção é comum e é a certeza. O sucesso, a vitória, é exceção, é surpresa pode ou não ocorrer. Eu me esbarrei no “não”.

Hoje tenho companhia. De todas que não percebi uma que sempre esteve presente. A outra, consequência. Uma que sempre me cercou e eu fugi, negligenciando as possibilidades. A outra, simplesmente consequência. Fui tão incompetente que nem a mim consegui enganar. Hoje, sou eu, a solidão e a saudade. De tudo o que eu achei que tive, é só o que levo comigo.

Daqui eu vejo meia dúzia de livros, o computador ligado e a cadeira ao chão, me acompanhando… Minha estante, meu quadro dos Beatles e o guarda-roupa, me assistiam…  Esperei por muito, muito tempo, que os sonhos batessem à porta e me tirassem da inércia. Esperei que o sorriso pudesse ser comprado e que do destino alguém se encarregasse. Por essas e outras admiro – e sugiro que façam o mesmo – aqueles que são determinados e não esperam sentados e de braços cruzados que as coisas, por si só, possam acontecer. A realidade se movimenta e precisamos de ritmo para acompanhá-la, caso contrário é fazer como eu e, mesmo sem saber, dar tempo ao tempo. De tudo o que ouvi na vida, jargões e filosofia barata, uma coisa é certa: é triste morrer sozinho.

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: