Entre a ode do complacente e o oportunismo do ardiloso

“Quando o coração humano se parte e desespera, do crepúsculo do passado os grandes conquistadores da agonia e preocupação, da desgraça e miséria, da escravidão espiritual e compulsão física, o desprezam e estendem suas mãos eternas para os mortais desesperados.”

Seria possível a escrita de 100 textos para definir esse parágrafo. Parafraseados outros 50 trechos semelhantes com a mesma comoção. Atento-lhes, que o homem que proferiu essas palavras elevou sua nação de país pobre e corrupto à superpotência mundial. Das cinzas, à glória. Seria um herói, correto? Um salvador em um momento de crise. A voz, quando o silêncio os fazia desacreditar, na minúcia do texto e da proposta. Acreditar na amplitude da mudança, na esperança depositada em uma nova ideologia e, depois de esgotadas todas as possibilidades, na chance de ascensão. Até conseguiu. Essa voz conquistou milhares de pessoas, mas executou seis milhões de outras nos chamados “campos de concentração”.

Adolf Hitler inovou o discurso político. Não blasfemou qualquer proposta de efeito dentro, exatamente, do que sua sociedade almejava (digo, não só isso). Vendeu uma ideia muito além da realidade com que dispunham e os alemães compraram, sem questionar. E é exatamente aí que se encontra o caráter nocivo do discurso, a ausência de questionamento. Tantas vezes por uma questão de ética diante de um caráter sublime de “boa impressão”. Outras vezes, como no III Reich, por não existirem palavras com a suficiência de um confronto equivalente. A relação íntima do público com o bom orador está no fato de ele elaborar suas falas com base nas convicções dos que o assistem e não nas suas. São as exposições retóricas de conceitos bem explanados, outrora eivados pela máquina da demagogia. Os grandes nomes nesse quesito sobressaíram pela identidade construída – diante daqueles que os aplaudiram –, através de um imaginário de respeito (tantas vezes não correspondido), fé, esperança, luta… As pessoas se identificam tanto com os termos e as aspirações, como com o tom de voz e  a (ainda que aparente) autoconfiança.  Já na atualidade, contamos com um marketing do discurso tão moderno, que todo o falatório soa como algo perto de uma mensagem subliminar.

Alemanha não estava preparada para Hitler! Mas nós estamos para, por exemplo, os líderes dos Estados Unidos? Não comparo os governos nem as  épocas (o que seria um absurdo), apenas sugiro a lembrança das repercussões e as condições de cada representante em fazer o seu oportunista papel de discursar. Os efeitos do discurso são infindos, ainda que seu propósito seja ínfimo e superficial. Sugere a cognição de marcas temporais como “houve um tempo em que…” e características singulares de cada voz, como a incisiva utilização de formas de tratamento que podem variar de “companheiros” a “führer”.É necessária a dicção, expressão corporal, às vezes um vocabulário específico. É a “tarefa de casa” realizadas pelos publicitários que muito raramente vem à tona. Consiste em estudar os anseios da “platéia” e despejar alguma verborragia em torno disso por quanto tempo puder encenar, ou acrescentar e persuadir.

Entendo o que seria a “exposição didática de um assunto” como a jogada da boa impressão. Como se as palavras suficientemente suprissem os atos e apagassem as omissões. Obama, na última semana, proferiu uma fala ímpar, sobre a importância do Brasil e do nosso presidente ao mundo, mas eu simplesmente não compro mais discursos. O atual presidente dos Estados Unidos se desincumbiu de uma tarefa em que Bush falhou, ou sequer pretendeu (dissipar-se do Texano “matuto”, coisa que até o Lula conseguiu). E o poderio bélico hoje é secundário se não vier acompanhado do exercício em demasia da retórica, que é ainda mais nocivo que o primeiro, por se vestir como seu legitimador.

“É mais difícil abalar a fé do que o conhecimento, o amor sujeita-se menos às mudanças do que o respeito, o ódio é mais duradouro do que a aversão, e a fé é absolutamente determinada a crer que dois erros justificam um acerto, e ela não deixará os fatos ou a razão bloquearem seu caminho”.

Adolf Hitler.

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