Canja quente

Canja. Pior que muita coisa. Melhor que ficar com fome. A colher tinha uma marca de sabão. Levantei irritado, mas não pela sujeira no meu talher, apenas porque não queria me movimentar. Nada de poupar energias, só não queria um motivo para sair do sofá, me continha lá, quieto, apreciando a dádiva falida da minha existência. Para muitos (eu disse “muitos”, com toda proeminência do advérbio), eu nem existia.

Molhei, esfreguei um pouco entre os dedos e estava nova. Voltei e me sentei com ar de vitória. O “vencer” era só de voltar à minha derrota. O televisor nem entretinha ninguém, só rompia o silêncio. A canja ainda estava quente, eu soprava e só olhava para a colher, mas podia perceber Gorete despejada no outro sofá como um saco pesado de areia. Eu soprava a colher e escutava a tosse habitual de Dona Clotilde no quarto, na cama. Dizia ela que só estava esperando a sua hora, sem ânimo de incomodar, mas sei que, naquela casa, ela era quase a única que ainda torcia por si, ainda que encenasse, diariamente, um pessimismo mórbido. Os outros a viam como um estorno. Ela era, inclusive, a que menos tinha pressa de partir.

…A canja estava esfriando. Alguém mexia na cozinha, entre os pratos que ainda restavam e as panelas. Devia ser Seu Antônio, a fim de coar um café. A canja estava sem sal, sem vida. Eis a minha referência, se comparado a um alimento. Se, por conseguinte, aquela canja pudesse algum dia, servir de referência como alimento. Nesse caso, aquilo não seria uma refeição apenas, seria um ritual de canibalismo, onde me alimentava da minha própria imagem. Sem graça, sem sal e agora fria.

Gorete roncava como um carro velho subindo um caminho em declive. O café não saiu e Clotilde parou de tossir. Não se espantem com a aparente desordem. Não quero ser o novo Aluísio, ainda que com semelhante insalubridade, coletividade e ambiente catastrófico, isso aqui era diferente, era uma concepção grotesca de “Família”.

O aluguel não fora pago, a luz a ser cortada e a canja não fora consumida, restavam algumas colheradas quais eu não estava disposto a concluir. Subi para o meu quarto, que por sinal não era completamente meu, já que eu dividia com o Júnior. Não havia cômodos suficientes. Pra piorar, um novo morador estava por vir, o bebê de Glória. Para Seu Antônio aquela espelunca era como o jargão “coração de mãe, sempre cabe mais um” só que sem a mãe (e sem o pai).

O prato que deixei sobre a mesa provavelmente atraía moscas, mas na pia da cozinha não tinha espaço para mais um. E não vivíamos em um recinto de ordem e coisas postas no lugar. Um prato, copo, ou até mesmo um elefante largado na sala, não se faria por ser notado, nem seria incômodo.

Eu não tinha profissão e nenhuma profissão me queria. Eu escrevo, e quem escreve é desempregado, é vagabundo. Escrever é pra filho de rico. Eu desenho, mas quem desenha é lunático (e vagabundo). Eu toco alguns instrumentos e canto (digo, já cantei, noutras épocas), mas músico, se não é famoso, é vagabundo. Na verdade todos esses adjetivos cabem reciprocamente e, ao mesmo tempo, a todas as “profissões” sugeridas. Mas eu sou apenas um vagabundo. É mais fácil definir assim, ou assim é a maneira como, mais facilmente, me definem. Com o tempo aceitei o rótulo, a casa, a vida…

Ainda tinha canja na panela. Provavelmente seria o meu almoço de amanhã. Dona Clotilde nunca mais tossiu e demoramos um pouco para notar, se não fossem as narinas… Fiquei triste, mas não tanto como deveria. Gorete tinha um compromisso com amigas que nunca existiram. Glória tinha serviço. Eu e seu Antônio tínhamos pena, então fomos com Clotilde, jogar-lhe umas flores sobre a terra e diante da lápide feia e sem epitáfio, fazer-lhe “o nome do pai”.

Gorete, a gorda, queria o quarto, mas temia uma aparição. Eu não queria transportar-me para um espaço com ainda pior cheiro que o meu, neguei, por conseguinte. Talvez o Júnior. Esperemos, que quando chegar da escola ele decide.

Éramos todos fantasmas naquela residência. Negávamos, paulatinamente, a convivência. “Sub-vivíamos” com o que dava para comer e com e que precisávamos, ao mínimo, para existir.  Gorete era depressiva, mas ninguém via. Gorda e comia como um porco. Fazia outras coisas também como um porco, mas não há porque citarmos. Via-se presa na sua própria infelicidade e tinha a sua gordura como uma defesa, como um habitat particular mediante tanta desgraça. Introspectiva e mal educada.

Glória fazia-se de feliz da vida. O que me dava certa raiva que felicidade sem motivo nenhum, ou é idiotice ou hipocrisia. Trabalha de manhã à noite. Ajudava com o que podia e ainda punha um filho no mundo. Pobre glória. Pobre em todos os sentidos. Seu Antônio, um tio, irmão de uma mãe, aposentado, porém tinha dívidas para mais três vidas… Clotilde, uma avó, morta. Júnior, um sobrinho bastardo, adolescente. Eu, vagabundo e órfão.

Os dias se passam misturados às horas e a gente nem nota. Certas coisas acontecem por acontecer. Desencadeadas por uma sequência de atos sucessivos, ou por uma palavra apenas – no meu caso, por um conjunto delas. Dentre minhas palavras rabiscadas em cadernos, algumas tomaram outro rumo. Um rascunho nas mãos de um amigo, que tinha um amigo que era amigo de outro amigo que conhecia alguém que entregava jornal em uma editora, que por sinal trocava palavras e carícias com a moça da diretoria. Ela gostou do que leu e eu gostei do fim que foi dado.

Fui convidado a me apresentar à editora. Custei encontrar uma roupa limpa, mas isso nunca importou muito. Como não possuía nenhuma ocupação pude chegar ao local combinado com duas horas de antecedência. Na verdade, havia poucas opções de transporte coletivo, eu tive que pegar o ônibus que passava mais cedo, o outro geralmente atrasava. Não estava acostumado a uma conversa de negócios e nem era capaz de concluir o que o excesso de neologismos e metáforas ditos por aquela mulher significavam. Soube, por carta, que outros editores se interessaram pelo texto e que alguém, eventualmente, se encarregaria de publicá-lo. Confesso que tudo aconteceu como um súbito. Não sei explicar bem porque na verdade, à época, não assimilei toda a sucessão de acontecimentos (dos quais, em poucas oportunidades participei).

Segundo uma revista qualquer da qual não me recordo o nome, eu havia escrito o Bestseller da realidade pobre brasileira.  Ocultada, claro, pelo futebol, pelo carnaval e pela nudez da Cléo Pires. De todas as minhas escritas, talvez a mais idiota. Auto-ajuda barata e insossa com cunho de ficção. A balbúrdia de “O Cortiço”, a interlocução de “Dom Casmurro”, uma tragédia com princípio de Sófocles, mas desfecho de amador. O personagem principal é o bonito do meu estereótipo, mas nada como Doryan Gray… As pessoas se surpreenderam e ainda me perguntam como produzi obra tão boa e completa, enquanto na verdade, são apenas paráfrases da vida alheia que ainda existem em mim. Carregado pelo clichê “ta aí, diante dos olhos e ninguém vê”, meu livro ficou famoso e meu vagabundo (antes por ocasião, agora por conveniência), cá fora das páginas, bem-sucedido, sabe-se lá o que significa isso.

De todo modo, devo assumir que tenho novos estereótipos, menos pejorativos e talvez, menos verdadeiros. Nesse país escritor não fica rico, mas a minha realidade até esmola seria capaz de modificar. Dessa forma,  a TV dobrou de tamanho e ainda rompe silêncios. Existe um carro na garagem, aliás, existe garagem. Não só o quarto passou a ser meu, mas também a sala, a cozinha, a casa (uma casa de verdade)… A energia, tudo indica, não será, por tão breve, cortada. Os outros não estavam aqui. De todo modo, acredite se quiser, a vida é muito mais que isso – só não sei como, nem onde.

Hoje, sentado no sofá, frente ao televisor, com um cotidiano diferente, com uma realidade material diferente, mas com a insignificância existencial de sempre, eu sinto falta de uma coisa: da canja quente e da colher com vestígios de sabão!

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