“O inimigo agora é outro”

“Brasil” seria uma boa opção de nome para o filme Tropa de Elite 2. Uma produção inteligente, enredo intrigante, história bem articulada e uma ideia de catarse no final. Apenas a ideia… O que dá maior verossimilhança ao que é contado. A narrativa particular do personagem principal, que dita a progressão do filme, não interfere tão tendenciosamente no seu conteúdo como, de certa forma, se via no primeiro. As pessoas se deixam levar muito mais pelas descobertas ao longo da história do que pelo que é narrado e condicionado como verdade, agora confusa e oscilante, via voice over. O que, nesse caso, foi muito satisfatório.

O primeiro cativou o público pela explicitação da força do crime no Rio de Janeiro e do combate policial a ele. Sangue e violência emocional. A carnificina que tomou a cena do cinema nacional, ainda há quem considere que após a “pornochanchada” (década de 70 até medos de 85, salvo os que ainda a consideram atual), consagrou-se o cinema marginal – agressão, crime, palavrões. A tendência “ultraviolence” (termo referente à obra literária de Anthony Burgess) de se filmar ganhou força no exterior já há algum tempo. Nota-se por filmes como Laranja Mecânica de 1973, Assassinos por Natureza de 1994 ou Clube da Luta de 1999, ainda que tratem de enredos completamente diferentes.  Tropa de elite não é apenas violência emocional, é violência com estatística, é denunciante. Ou melhor, um holofote no cotidiano, uma ampliação do noticiário da TV.

Tropa de Elite 2 vai além. O filme é uma pancada no estômago. Ainda que antes de iniciar lia-se na tela que, embora pudesse haver coincidências, tratava-se de uma obra de ficção, – o aviso era a ratificação do “politicamente correto”, a fim de não ofender aqueles que se julgam no direito de não serem criticados, além de impedir que as pessoas façam alguns juízos de valor desnecessários ou imprudentes – não deixou de ser uma realidade escancarada de excelente maneira. Não há (aparentemente) nada de que não saibamos que acontece na nossa conjuntura social. Nada de muito revelador, apenas ilustra, com fundamental relevância, uma série de fatos e vícios dos quais o “sistema” é eivado. Com certa simplicidade reafirma algumas informações que estão no nosso subconsciente, dormentes, mas ainda distante da nossa consciência crítica.

Deparamos com um Nascimento (personagem do Wagner Moura) agora subsecretário de segurança pública, ciente de que o conceito que ele construiu de “guerra” é amplo, e muito mais ideológico que físico. Não obstante, de que não é na força física que se vence – ou melhor, se combate, já que a vitória é mera expectativa – as barreiras da segurança pública no Brasil, sobretudo, no Rio de Janeiro. Ilustra o senso comum ainda pouco roteirizado – o que inova, a certo modo, a indústria cinematográfica nacional – da supremacia dos criminosos de colarinho branco e das milícias constituídas por policiais, que atuam nas favelas.

O filme permite refletir, ainda que não seja algo anteriormente imperceptível, sobre a fragilidade da justiça e da ordem pública. Rompeu-se com alguns estereótipos em torno de personagens do primeiro filme, muito embora alguns excessos sejam permitidos pela ficção.  Mais uma vez, José Padilha nos presenteia com uma excelente obra. Muitos acreditam que o mérito de Tropa de Elite 1, para prêmios como o Urso de Ouro do Festival de Berlim, tenha sido o impacto da produção, acredito, sobretudo, que se o mérito tiver sido pela obra, como um todo, este segundo filme, pode ir bem mais além.

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