Muito além da Julieta

Amar é ser xingado, sem ódio. É esquecer a tampa do vaso em pé e, por isso, não ser perdoado. É demorar a levar o lixo para fora. É a bronca porque resolveu tomar uma cervejinha depois do serviço. É a bronca, simplesmente porque ela acordou mal humorada. Bronca motivada pela ausência de motivo e você não tem como, e não pode, se justificar.

Amar é se enjoar da comida. Se entediar aos domingos. Chegar em casa todo o dia exausto e ainda assim continuar lá. Amar é cara feia durante a semana inteira e sexo, talvez, no sábado. É a dor de cabeça crônica que prolonga o dia do ato, te estressa, mas é tão comum quanto o efeito de acordar ou dormir. Cabe-nos apenas esperar.

Amar é perder a cabeça porque estouraram o seu cartão de crédito (lê-se, “ela estourou”), e a conta de água ainda está para pagar. E você paga antes que cortem! É ser cobrado pela viagem à Paris que nunca aconteceu enquanto as contas que você não fez ainda estão lá para você pagar. E claro, você paga. Amar é ir ao aniversário da sogra em uma segunda-feira à noite, é aguentar tios, primos, avós sem poder se recusar e ficar até o fim.

Amar é um sermão por algo que você não disse e você escuta. É a ira, o orgulho, a preguiça, a gula, a inveja, a luxúria, a avareza e tantos pecados a mais. É ser convencido de que você não comprou alguma coisa, quando tudo já está lá. É ser o culpado pela bagunça quando não existe o que organizar. É ter que assistir novela durante a final do campeonato brasileiro. No máximo, vai para a sala, já que sair de casa seria um pecado mortal.

Só assim é que duas almas se compreendem de verdade. É a prova de que se entregaram e a constatação de que se desejam. É passar raiva e ainda morrer de medo de isso um dia acabar. É dormir magoado e acordar satisfeito por ter ela ao seu lado, nem que seja para a cama compartilhar.

Brigam pela manhã, mas no final do dia, correm para a casa, ansiosos pelo momento da reconciliação, que vocês sabem que vai acontecer. Dão risadas das próprias besteiras. Trocam a aliança se está velha, mesmo que ainda tenha brilho. Não deixam de dar as mãos… E quando um chora, sabe que o outro vai abraçar.

O amor tem que conhecer as duas faces de todas as emoções e todas as circunstâncias. São as imperfeições que nos alimentam, é o convívio contínuo, com as mágoas e os sorrisos, que nos fazem querer sempre mais. É se acomodar com a vida e ocasionalmente esquecer o quanto é feliz. O amor não é melódico, este é apenas um método (de exercer, ou de tentar). O amor, por si só, é áspero. Como todo sentimento que se posta inerente, oscila enquanto se perpetua.

As fábulas que narram romances perfeitos são tristes. Parece que as pessoas precisam ser alienígenas para conseguirem ser daquela forma, como na TV. Não obstante, remete uma ideia de que é impossível, na “vida real”, alguém ter felicidade, no máximo você pode se espairecer (se iludir) com a ficção. Não! Amar é mais que isso. As falhas e os conflitos nos tornam mais humanos e é quando provamos que amor é real. Um dia a gente se acostuma com a ideia. No mais, só quem ama entende.

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