Abstraindo vida por um empirismo banal

O dia era frio, em vários aspectos. Exatamente como Rick Fitts (American Beauty 1999) descreve um dia qualquer, em que há eletricidade no ar e o tempo antecede a neve. No caso em questão, só choveria. O vento suave e gelado arrepiava cada fio de cabelo do corpo. Leve. Constante, sentia que minha alma era levada junto. A sujeira ao chão ganhava forma, as nuvens faziam desenhos. A poeira, acrobacias circulares como se houvesse um padrão… O silêncio era pertinente, só uma folha seca que insistia em arranhar o asfalto, contribuindo discretamente com o espetáculo. A luminosidade diminuía junto à temperatura. Seria Deus?

O que era leve voava sem rumo. Pedaços de coisas se arrastavam indo para algum lugar. Portas fechadas. Os primeiros relâmpagos rasgando o céu eram sinais de que seria divertido. A primeira gota pingou no meu braço. Apenas o óbvio: Perfeitamente úmida. Escorreu como se procurasse saída. Eu me contive ali, parado. A segunda gota fez sinal no chão. Pesada, veloz, como se não soubéssemos de onde vinha. Nessa hora acreditei realmente estar vivo. Além disso, descobri a grande dádiva da vida, que independente de qualquer propósito, ou doutrina, é “sentir”.

A água poupou demais apresentações. Caiu elegantemente furiosa. Lavou-me os cabelos, molhou-me os pés por dentro dos sapatos. Senti-me instantaneamente encharcado. Senti-me, instantaneamente satisfeito. Senti-la, foi sentir-me feliz. Eu estava prestes a morrer afogado em meus batimentos cardíacos, podia sentir cada partícula de sangue que percorria minhas veias enquanto a água mantinha-se a escorrer de cada centímetro do meu corpo.

Trinta minutos depois, caminhava para a casa, de cabeça erguida e sorriso estampado. A tempestade havia parado e eu era uma goteira humana. A triste certeza: A vida voltou ao stand by, enquanto isso a rotina é ativada. Damo-nos, sem saber, com a ausência de Deus, e pior, a ausência de “sentidos”. Onde chuva é apenas chuva, ou fenômeno meteorológico. Ao contrário de nascer, viver é opção, não obstante uma questão de percepção mais aplicada às coisas. Simples assim, um empirismo banal e rotineiro.

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