No banco do réu

  Preso! O cronista foi preso. Preso em suas próprias palavras. Acorrentado em suas vontades não cumpridas, em suas obras mal esculpidas… Ó, céus. Por onde andam? Eu, dono de mim, um tanto recatado, cronista ultrapassado, uma dosagem infimamente antiquada, um coloquial sem fim, do qual as noites sentem falta e o álcool de muito tempo não se apossa.

  Se “abram alas pro amor”, trouxe à tona com um som, a resposta dos populares ao erudito teatro italiano (de um cantar em latim), do qual Arlequim abriu mão, diante da ponta da rua, no idioma que qualquer um podia ler… Que posso eu, mero tolo sem dote, de parco conhecimento, no envolvimento das falas deixar-me escrever? 

  Citei o poeta moderno, um jazz brasileiro, o qual vocês não deviam abster-se em conhecer. Quanto isso, pouco importa, minha linguagem sem emoção é nua, só o Aurélio faria questão de me enobrecer, já que este, além das significâncias, tem uma função estética. Nele pouco recorro. As letras eu trago comigo, na rotina nunca utilizo, venho aqui cuspi-las, tirá-las de mim por um tempo, trazê-las de volta à memória, fazê-las do uso um hábito, sem aparente motivo.

  As correntes, deveras pesadas, me impedem de dar passos largos, correr para aquele caminho que, depois do tempo parado, nem me lembro para onde vai, ou de onde vem. As grades podem ser reforçadas, quando a liberdade habita-se em mim. As portas podem estar abertas, diferença não fará se preso estiver a um pensamento ruim.

  O cronista fora incriminado, não sei ao certo, mas talvez por permanecer sentado, lá no seu canto, de braços cruzados, quando a sua função deveria exercer. Tecendo a rede intelectiva, da qual domina e recusa-se a aceitar ou reconhecer.

  Se sentenciado foi, a ser concebido, fará da melhor maneira possível, que os dias fiquem marcados, que o seu nome fique registrado e que ninguém ouse lhe esquecer. Ou que um museu aposse de suas escritas, que seus semelhantes ao lerem, reflitam… Afinal, que desdobrem os dias, e que a vida tome corpo como deve ser.

  De tantos habeas, mal utilizados, de tantos recursos recusados, autorizado foi a visitar os seus entes. Dentro de algumas circunstâncias não voltará a usar as correntes, desde que de agora em diante, faça sonante o clamor de suas falas. Que seja ecoante toda vez que expor uma palavra. Que seja assim sempre, parafraseando, parafraseando…

  Tentarei não me manter calado, acompanhando o sax que nunca desafina e a voz detrás da cortina em um usurpado ar de coliseu. O cronista que encontra a aurora detrás de toda neblina, tem lá o seu crédito. Convenhamos… O sentimento a pouco descoberto, faz do meu sincero “obrigado” merecer.  

 “Gritos e sussurros, fora da lei…”.

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