Condenados pela dúvida

Perguntaram-me as horas, mas eu não sabia responder. O relógio estava parado, o celular sem bateria, o Sol ardia. Sabia apenas que não era cedo. Olhar desconfiado, meio sem jeito, eu disse: Não sei.

Se tivesse me perguntado a cotação do dólar, eu chutaria algo perto de um e oitenta. Se tivesse me perguntado a sentença do casal Nardoni, também seria mais fácil, “trinta e poucos para um, vinte e poucos para o outro, homicídios qualificados, do pai foi mais grave devido ao laço sanguíneo – assassinato da filha”. Foi uma notícia que protagonizou todos os noticiários durante alguns dias. As horas não.

Talvez eu estivesse louco em dar tanta importância ao ocorrido, mas depois que respondi, o homem olhou-me com um desdém imensurável. Foi como se eu tivesse mentido. Eu não tinha nenhuma obrigação moral em dizer-lhe as horas. Sem contar que é absolutamente normal um celular descarregar e um relógio parar. É claro que não existe a necessidade de carregarmos eles conosco já que estão nessas circunstâncias, mas e a possibilidade de eu não ter notado ambas “deficiências” em meus objetos, não pode ser levada em conta?

Olhou-me como se eu fosse mal educado, entretanto o fato de abrirmos mão de uma gentileza não nos remete, necessariamente, à falta de educação. Provavelmente ele contou para amigos e/ou familiares como fora mal tratado por um estranho ao qual só perguntou as horas. Possivelmente, estes disseram que as pessoas não são mais como antes, que não se respeitam não se gostam etc. Devem ter dado outros exemplos… “ah, uma vez, recusaram-me segurar a porta do elevador e olha que eu carregava um pesado vaso de plantas em mãos…” diz a mãe; “eu disse bom-dia e ela em sequer olhou para mim”, diz o outro… Daí por diante. Ficarão intrigados com a espécie humana e no caminho que as “coisas” estão tomando… Darão risadas, alguém complementará com “acho que vai chover” e vão dar continuidade ao dia, à semana, à vida, até que ocorra tudo outra vez.

Eu fui sincero, não sabia a resposta e foi o que disse. Talvez eu pudesse ser mais detalhista: “Na verdade o relógio que tenho ao pulso é uma necessidade estética já que a eficácia à qual ele se submeteria não mais existe, pois o relógio está parado, sendo assim, seu intuito está longe de ser o de mostrar a horas… Se tenho um celular?! Claro que tenho, mas os excessos de luzes, botões, entretenimento e futilidades consomem o dobro da bateria. Ligar ou receber ligações é uma ferramenta a parte diante de todas as funcionalidades. Até olhar as horas seria mais importante se ele não estivesse, nesse exato momento, desligado e sem bateria”. As pessoas estão sempre com pressa, por mais que estejam andando sem motivo ou em direção a lugar nenhum. Não, ele não esperaria eu terminar de falar. Entre indelicado e louco, eu fico com a primeira opção.

Queria ver se a mesma pergunta fosse feita em 600 a.C. e se eu tivesse uma ampulheta! “Então, caro senhor, nesse momento, nós passamos de três quartos de areia, o que corresponde a uma parcela significativa da manhã. Levando em consideração que meu objeto é dotado de setenta e oito centímetros de comprimento e raio de quinze centímetros e meio”. Bem mais interessante.

Cá entre nós, “que horas são” é uma pergunta de imensidão absurda! Em Chigado poderiam ser quatorze horas, enquanto que em Luanda, dezoito horas, ou vinte e uma horas, em Atenas. “Não sei” era o mais sensato diante da imensidão de possibilidades de respostas. Se Santos Dumont e Louis Cartier não tivessem popularizado o uso do relógio de pulso, ou melhor, se (supostamente) Louis Breguet não o tivesse criado, as pessoas ainda teriam a audácia de nos perguntar as horas? – Sem levar em consideração os celulares e demais adereços tecnológicos.

Eu fui a vítima! Estou irritado. Agora serei obrigado a certificar se o relógio funciona e se o celular tem carga a fim de não chatear mais ninguém? Francamente, vou continuar a semear o “não sei”. Ora e outra posso oscilar entre, “não tenho certeza, mas é tarde”, ou “queria fazer-lhe a mesma pergunta…”.

Se a teoria do caos e seus parâmetros variáveis procedem – onde o bater de asa de uma borboleta em um lugar, pode causar um terremoto em outro do outro lado do mundo -, o que fiz foi um crime! Levando em consideração a metáfora exemplificada anteriormente com a que agora procede, deixar de dizer as horas pode ser uma catástrofe irreparável! Entretanto, prefiro me abster de demais explicações. Que horas são agora? Não sei bem, ta com cara de quatro horas, cor de seis e cheiro de meia-noite…  No mais, não volte a me incomodar!

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