Enquanto isso, na tribuna de honra do transcendente :.Parte I

… Cinco adjetivos e seus discursos envolvidos foram convidados pelos filósofos a sentar e beber.

O Misantropo:

– É preciso uma pessoa para fazer o papel de medíocre. Aliás, é preciso um para sobressair aos outros, pois todos nós somos medíocres. Somos lixo, um escarro do mundo, uma lastimável parcela de massa ambulante, produto de uma sociedade que por vez é de nosso fruto, ou seja, somos oriundos de nossa própria incompetência. Eis que assumimos o papel de lixos hipócritas. É como querer crucificar o cara que você vê no espelho. Não são os Deuses grandes demais, nós é que somos muito pequenos, e por via da transmissão de credibilidade, somos comparados a eles… Como se ambos partíssemos de uma mesma origem e pudéssemos todos terminar com um mesmo fim. Isso favorece para que algumas religiões sejam tão questionáveis e o homem tão absoluto quanto a sua pouca importância – se tratando de existência, se é que me entendem. Tiro um peso dos ombros. Não por agredir a mim mesmo – tão como meus semelhantes -, mas por cuspir na cara do mundo.

Nietzsche refutou:

– Um amigo deve ser mestre, tanto na arte de adivinhar, quanto na permanecer calado. Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno. Feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade. *

O Hermético, não podia ficar calado, quis dar um disparo de voz, uma contribuição que a muito não intervém:

– Eu não sei se sei bem, mas sei que de algo tomo conhecimento. Simples assim. Digam-me vocês, quais são as tendências? Ou melhor – entretanto, contrapondo minhas próprias ideias – o que é sensato e o que não? Quantos são os sinônimos para que as coisas façam sentido, ou o sentido redundante, que provém da essência adjacente do ser, em sua ontologia metafísica, física, psíquica e imoral, para que nos provoque a epifania comum e cotidiana, da qual nos abstemos a fim de não ter fim algum? Temos a pretensão em pensar, entretanto, sem muitos objetivos e sem muitos sujeitos acrescidos de valor?

Platão:

– Pode ser que sim, pode ser que não…

O Cético, já irritado:

– Não sei ao certo quais são os mais sensatos, quais são ouvidos e quais não. Não faço ideia do que seja justiça, já que vejo na injustiça parte da minha razão. Não vejo explicações nem a ausência delas. Por um tempo acreditei que eu era o problema, que o erro era ser o cego. Mas a questão não é particular, se não posso provar, questiono. “Para que?”, “Por quê?” e “quem?” sanaria meus desejos. Sou quase uma doença, mas eu persisto na crença imunda do “não crer”. Que seja da melhor maneira, até que me provem o contrário, ou até que eu aceite que, definitivamente, não há mais salvação. Diante das circunstâncias e das inconveniências, deixemos os dias passarem, deixemos as dores curarem e que as respostas se materializem diante dos nossos olhos, oriundas das nossas próprias cabeças.

O Otimista não via a razão daquelas palavras:

– Na renúncia da nossa existência, na cegueira da nossa intenção… É quando o nome se dispersa, a face se regenera, o amor se perde. A verdade enrijece e a dúvida se sobrepõe à razão. O que fiz? Como pode? Como vai ser? Perguntas que são feitas tarde, a falta de identidade fez de o drama merecer. Bastam os espelhos certos e na hora certa em fazer. É ser você mesmo e, não obstante, aceitar. Seja como fardo ou bênção. Não há muitas escolhas, mas as existentes já são suficientes. Daí por diante, são os caminhos que tomamos da forma como lidamos para no futuro podermos nos deparar com o que um dia foi semeado por nossas próprias mãos. A realidade é um sonho bem moldado, mas não é, necessariamente, uma utopia.

Platão caçoa:

– Não há ninguém, mesmo sem cultura, que não se torne poeta quando o amor toma conta dele. *

Schopenhauer complementa:

– Quanto menos inteligente um homem é, menos misteriosa lhe parece a existência! *

Aristóteles, cheio de onisciência:

– De fato a dúvida é um princípio de sabedoria. O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete. *

O Imparcial:

– Perceba que as coisas não são claras, as coisas não são óbvias, às vezes elas nada são. Dirão que essa minha frase é do Hermético, que a filosofia é fora de moda e que o pensamento é insólito, incoerente ou unilateral. Eu não direi nada, pois de um ponto de vista a outro, estamos todos certos e estamos todos errados. Contudo, não se trata, ao certo, de uma verdade absoluta.

Freud, um tanto quanto receoso:

– Essa eu explico. A felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz. *

Kant:

– Felicidade não é um ideal da razão, mas sim da imaginação!

Sócrates, a fim de causar (des)ordem, grita (em direção ao balcão):

– A conta, por favor!

Sartre:

– Deixe que eu pago.

*Citações adaptadas.

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