Adeus Esbórnia Perene

 

 Para que a percepção da existência de um sistema cerebral “operante” dentro de mim se concretize, preciso muito mais do que sinapses e demais reações. Preciso de acontecimentos, preciso de notícias…

  As férias estão afogadas em demasia. Não sei quanto a vocês, mas elas envelhecem meu cérebro uns setenta anos. Sem trazer com a idade a carga vivida e o conhecimento, apenas o lento processamento das informações, a dificuldade em armazená-las e, não obstante, compreendê-las. Típico de um órgão fisicamente envelhecido e frágil. Trágico, não?

  Com todo esse tempo ausente das minhas obrigações, perdi (momentaneamente) a capacidade de me transbordar nas palavras e elaborar produções textuais rotineiras. Conseguem acompanhar o drama? Apelei para alternativas inusitadas. Acordei com uma caneta imaginária em mãos. O que for útil, será registrado e, no final do dia, ou a crônica nasce, ou os personagens hão de me devolver o sorriso em um conto. Na última instância, uma breve poesia.  

  Aos poucos, temos aqui, o resultado de uma tentativa eficaz (ou não), sem brechas para o fracasso, de criação de texto, com começo e fim! – Do meio, as enunciações se encarregam. …O dia não estava muito agitado, “tendenciando” o pessimismo do qual eu fugia. Visitei um amigo. Esse compartilhou comigo algumas incertezas que passamos, já que estamos em uma fase de nossas vidas, acompanhadas de cobranças semelhantes.

  Falamos do futuro das nossas economias e da possível ausência de dinheiro. Eis o poder da compra e a tendência epidêmica do consumo – juntos, discutimos. O comunismo se foi. Nunca fui comunista, nem pró-capitalismo. Um dia sonhei com uma balança que intercalando ideais antagônicos construiria uma sociedade mais interessante. Ingenuidade! O comunismo morreu junto com os seus princípios! Levou uma camisa empoeirada do Ernesto (só para não fugir do clichê) e uma bandeira irreconhecível do PC do B.

  Pela noite, liguei a TV, um adolescente era destaque porque foi o responsável pelas ideias do enredo da escola de samba vitoriosa no Rio. Só não desliguei porque ao anunciar a reportagem o jornalista disse “o carnaval acabou…”. Ah, que belas palavras, valeram-me o dia! O que comemoramos? O carnaval foi criado pelo cristianismo, é o período que antecede a Quarta-Feira de Cinzas, um dia importante, com ideal de conversão e unção para a Igreja Cristã. No entanto, é durante esse rito festivo, oriundo da sagrada igreja, que o Brasil excede no comércio de bebidas alcoólicas e preservativos. Curioso, não? Não diria que é ironia, mas sim a dissipação de valores ultrapassados para um brasileiro que tem a tendência instintiva de transformar tudo em festa.

  O jornal de economia deu continuidade à programação. Permitam-me a sinestesia: Economia é delicioso! Ó céus, não fazia ideia da cotação do dólar ou das propostas do Ministro Mantega para o início de ano. E as taxas de juros? As ações na bolsa?! Como foi gratificante ouvir esses números outra vez.

  Fui além das expectativas em meio a pensamentos enferrujados, o texto de assuntos em desarranjo se conclui em parcial metalinguagem. Enfim férias – das férias. Até julho, e que não venha depressa… A rotina, cansativa ou não, é o que me mantém mentalmente vivo!

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