Certa Maria da Graça e a desgraça do “destino”

  Era só para fazer show. O intuito sempre foi o mesmo: Chamar atenção. Era o dono da graça, da praça, da raça em extinção: Palhaços do abraço! Despertava-me um sorriso singelo, daqueles que nem fazendo força é possível parar de rir. A ponto de doer-me os músculos que abrigavam os dentes amarelados pela nicotina que desatina o pensamento e a cor.

  Eu queria não pensar em nada, tão como não desejar nada, só assistir aquele momento, fazendo-o ínfimo, mesmo que só no coração. Ele rodopiava, nem me notava, na verdade não notava nada ao seu redor… Era tão seguro de si  que sozinho construía a própria alegria, pouco ciente da capacidade de semear a felicidade por onde estivesse a passar. Olhou mesmo pra mim? Não, deve ser impressão minha – pensei. Errado, para variar. Veio em minha direção, meu coração mais em prantos do que pulos, como se estivesse a engolir um anfíbio vivo e pulsante. Olhou-me aos olhos, desviou ao chão, intimidado. Devo ter-lhe constrangido com uma prévia seriedade de quem não crê no que se passa.

  Todos os dias nós estivemos ali, os dois… Astro e platéia, príncipe e plebéia, arquibancada e show. Hoje, justamente hoje, o jogo tomou novas regras e os dois lados tornaram-se um só. Sonhava que um dia isso poderia acontecer, mas sonhos não são para ser realizados, sonhos são para ser idealizados, para alimentar a tristeza do que dorme acordado, para disfarçar a dor.

  Não, sonhos não se realizam. Contudo, ou sonhei o sonho errado, ou um engano havia se consumado, ou eu ainda estivesse dormindo. Se foi um, ou se foi outro, pouco sei… Na verdade nada sei, já que juntos, nossos lábios preencheram a paisagem. Eu não podia me permitir pensar. Após o ato, o silêncio malicioso nos impediu de falar e a magia se consolidou sem os nossos esforços.

  Podia ser João, podia ser Pedro… Tanto faz já que o “circo” de alegria eu nunca mais vi. Entretanto, poupei as lágrimas. O beijo, eu guardei na gaveta da chave que já sumi. O pensamente era leve, a imaginação se perdeu no tempo e a lembrança, venceu a velhice enquanto pode, deu lá seus últimos suspiros e, atualmente, luta para lembrar porque sou infeliz.

  Um pulmão teve que desistir da tosse, o outro ainda exala a fumaça, aquela que já não desatina, mas ainda me faz abrir a boca. Quem importa? O clichê está consumado, um dia todos hão de morrer. Não sei se foi Deus, não sei se foi castigo… Assim sucedeu minha lástima, assim fizeram comigo. Desejo que as horas passem mais rápido e que esteja em ruínas o que me sustenta de pé, já que me faltam motivos para tal.  Ainda penso, “o criador negligenciou a criação. Deu-lhe a vida sem pedir a questão, mas esqueceu de buscá-la por aqui”.

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: