Casou-se com o descrer, na ausência do pudor

  No horário que até mesmo o vento respeita o silêncio da noite, devemos estar em casa, embaixo dos cobertores. Madalena não, essa era exceção, mas quem importa?

  O tecido é justo e na escuridão das ruas todo aquele aglomerado de cores torna-se mórbido, mas não faz diferença, já que apenas a sugestão do traje é suficiente…

  Devemos chamar de destino o episódio pelo qual não optamos por acontecer, mas não era o caso. João quis estar ali, foi mais do que acaso, foi descaso, com aquela que, segundo ele, o menospreza e não reconhece o valor que tens. “Que esteja dormindo e nem note quando eu chegar” – pensou.

  Essa era mais “viva” que aquela. Tendo um preço ou não. É sempre um financiamento mesmo, tanto à que limpa a casa quanto à “mãe-de-todos”, a diferença é no retorno, ou melhor, na retribuição. O “reconhecimento” na rua era maior e o prazer da carne satisfaz o tédio tão como anestesia qualquer dor na consciência.

  Madalena diferente da mulher tradicional, era hedonista, vivia em prol dos próprios extintos, a saciá-los e entendê-los. Contudo, cedera a João o afago. Concedeu-lhe a dádiva do matrimônio, mesmo que na informalidade, já que o ato já havia se efetivado anos antes, com outra senhora, em outros cobertores…. Naquela época, esse laço quando dado, difícil de desatar. Fugira aliviado, como um viúvo sem causa, tendo a companhia daquela que abdicara de tudo que havia aprendido a gostar. De condado para condado não há muita diferença, é de costume de um povo o dom ou a lástima de “comentar”. João não se importava, tinha a confiança necessária naquela que trouxera para casa, aquela com a qual estava a compartilhar a vida.

  Ela sempre ia caminhar logo após o pôr do sol. Leva tempo para se acostumar com uma nova vida, cercada por paredes. Certo noite, assim que chegou em casa, o seu odor suave de Sândalo misturava-se a um forte Almíscar amadeirado. Bastaram alguns “tapas verbais” para chegarem à conclusão duvidosa de que não se fazem mais perfumes como antes. …Da mesma forma o batom borrado: “Era um batom barato!”. O sutiã rasgado: “Já estava velho, mal tratado”. Nem toda mãe é santa, assim como uma Madalena era digna de uma absolvição.

  – E porque está sem calcinha?

  – Veja como são as coisas, João! Lavei todas, antes de me despedir do sol, mas me esqueci de colocá-las a secar.  

  Se Madalena amava João, talvez. Ora sim, ora não, mas quem importa? …João amava era a incerteza.

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