Menina com fome d’alma

  Enquanto eu sentava no banco, avistei-a caminhando ao redor do lixo. Acredito que a sacola maior cabia aquela criatura dentro, o que mostra o quanto era pequena, mas foi, pelo menos por alguns minutos, imensamente significante. Cabelos curtos, sujos. As roupas não serviam mais, mas pouco importa, já que nus, só estavam os pés. Abriu um saco, olhou com desdém, revirou uma caixa de papelão.

  Não era um dia de sorte, trazia essa imagem no semblante. Por acaso encontrou uma garrafa pet, com um resto de um líquido escuro. Poderia ser refrigerante. Ela cheirou o “produto” – não para certificar o estado de conservação, quando fazemos normalmente diante de um alimento. Isso para ela pouco importava, pois era o lixo, nada ali ia cheirar bem, o gesto foi no intuito de identificar do que se tratava, mesmo sendo incapaz de fazê-lo. É instintivo. Contudo, devolveu a garrafa ao chão com um ar de frustração. Definitivamente, não era um dia de sorte, aliás, “era um domingo, isso basta” pensei. Ingenuidade minha. Era domingo para mim, para ela era um dia igual a todos, já que o seu vazio é constante e todos os seus dias assim, mórbidos, como aquele (meu) domingo.

  Pouco antes de se afastar dali, ela olhou para mim. Não sei como me notou, já que eu estava a uma distância considerável. Só sei que viu… Voltou para o ponto de origem, tentou refazer a cena inicial, mas dessa vez mexia ao lixo com maior desdém, com a convicção de quem não quer nada, pois a sua “busca” já tinha sido feita, no mesmo local, minutos antes. Ela só queria chamar a atenção do seu observador. Por um momento fiquei constrangido afinal, eu a encarava! Fingi que tinha parado de olhar, mas foi inútil, ela continuou o teatro, pois estava certa de que eu ainda estava lá, observando-a. O que queria? Despertar-me piedade, para que assim eu a levasse para casa? Pouco provável. Ela não teria idade mental para formular uma maneira de me persuadir quanto a minha “falta de bondade”. Não seria capaz de circundar o lixo com um ar de sarcasmo a fim de estampar em mim a minha própria angústia e dizer, sem soltar nenhuma palavra, “Veja como sofro, seu burguês! O que você, meu senhor, tem feito para mudar essa realidade?”. Dava dois passos, olhava ao chão e me fitava simultaneamente, como se fosse um ritual, me sugando os sentidos e a capacidade de “pensar”, tornando-me um acéfalo, inerte a tudo. Pergunto-me se ela tinha consciência da forma que roubou a cena e assumiu como protagonista, sem grande platéia, mas satisfeita com o show.

  De repente, sem mais, ela partiu. Não sei se desistiu, na verdade nem sei o que queria, mas seja lá qual tenha sido sua intenção, não durou muito (para ela). Saiu caminhando devagar. Diferente de quem está indo para casa, já que, provavelmente, nem isso tinha. Era alguém indo em direção de lugar nenhum. Isso ficava claro, pois trazia nos olhos, a dolorida expressão de quem faz pouco caso da vida, já que não entende, por que ela não a acolheu. Devia ter fome, mas não ia encontrar comida tão fácil. O que pensava? O que desejava? Para onde ia? Perguntas que eu nunca vou conseguir responder. Enquanto ela distanciava do meu campo de visão, uma navalha ia cavando o meu peito. Ela não tinha noção total da gravidade das coisas, dava “pulinhos” discretos, uma sutil carecterística de criança, já que a infância nunca lhe foi entregue.

  Eu poderia ter ido ao mercado e comprado uma bolacha ou um chocolate. Não me custaria nada, enquanto para ela seria um prêmio. Não sei se me agradeceria, ou retribuiria com um singelo sorriso. Quem sabe os dois, ou nenhum deles. Por um lado o alimento comprado passaria a fome daquela criança por alguns instantes e remeteria a minha “boa ação do dia”.  Por outro, seria uma ferramenta, que permitiria à minha mente remeter a ideia do “eu fiz minha parte”, consolidando a minha hipocrisia e deixando a consciência falsamente limpa.

  Ainda era cedo, clima frio, início do dia. Passei o resto da semana anestesiado, para não dizer vazio. Perdi-me naqueles olhos escuros que traziam em si uma incógnita irrespondível. Menina da saia rasgada e do cabelo sujo… Volte com o vento que a levou, encontre-me e devolva a minha alma, pois parece que desisti de “acreditar”.

  Como fazer uma criança entender que não pode ter um hambúrguer, grande e “bonito”? Aquele que outro garoto da sua idade tem em mãos, separados pelo vidro da desigualdade (que esconde um Big Mac)…  Tão como explicá-la o porquê de não ter uma casa, carro e roupas. Não há possibilidade. Vivera uma antítese onde a incerteza é o entendimento e a angústia é a consequência de tudo; da dúvida, da inconstância e dessa exclusão social (a ela) injustificável e incompreensível. 

  Até quando vamos negligenciar a existência delas, as roubadoras de almas? Até que todas morram e outras centenas ocupem seus lugares, ou até morrermos nós, para que os descendentes se encarreguem da culpa? A existência dessas questões é um problema. Mas o pior, é nossa incapacidade de respondê-las.

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