“Deixa que o demônio põe pra nós beber”

– São 20 reais.

– Caramba! Andaram aumentando o preço da cerveja?

 

Enquanto resmungava, juntou os pedaços embolados com duas notas de cinco, uma de dez e entregou ao homem do balcão. Saiu caminhando, para lugar nenhum, continuando com a lastimação (podemos concluir que os bêbados falam sozinhos por solidão e não por insanidade):

 

– Será se pobre não pode beber? 20 reais compram um almoço e janta! O miserável tem que escolher entre comer ou beber? …Devia ter sido consultado no “nascer ou não nascer”, “ser pobre ou não ser”… Mas não, só é questionado com o “beber ou não beber”! É só isso que ele pode decidir sozinho. É uma palhaçada.  

 

De repente, uma voz rouca, peculiar, vinda não sei de onde:

 

– Contente-se com o que tem, homem! Pare de chorar a dor alheia.

 

(uma dica, caro leitor, não faça isso. Não provoque um homem alcoolizado)

 

– E quem é que está chorando? – Olhou ao redor e não viu ninguém – No mínimo mais um que ‘abomina’ (ironia) o álcool! Comprei com teu dinheiro?

– Não. (risos)

– Então vai à merda!

– Melhor não repetir o “pedido”, caso contrário terei de levá-lo comigo.

– Só pode ser um velho moralista!

– Velho talvez, mas moralista não…

– Se não é um moralista é um imprestável desocupado! Devia ter pena de morte aos imprestáveis!

– Mas aí não teríamos cemitérios o suficiente, Juarez.

– Quando que eu teu falei meu nome? Você lá é coveiro pra entender de cemitério?

– Na minha condição, sei de coisas que não precisam ser ditas. Coveiro não, mas tenho certo “contato” com os mortos.

– Ah, nem vem, de louco já basta eu e “Pai de Santo”, para cima de mim, é furada!

– Nem louco, nem “Pai de Santo”. Estou te olhando já tem tempo, Juarez.

– Então some da minha frente ou desço-lhe a mão, seu curioso! Nem tenho nada de valor, se é assalto, perdeu seu tempo!

– Não seja tolo! Quando souber quem eu sou, vai retirar o que disse.

– É juiz? É Delegado? Se for uma das opções, já vou pedindo desculpa, estou meio nervoso, não queria ofender o senhor… Se for polícia, nada fiz para ser preso…

– Diabo.

– Que raio de nome infeliz é esse, companheiro?

– Não, Juarez. Sou o Diabo, vivo!

 

Pausa… Silêncio. Juarez analisa a situação:

 

– Rapaz, mas que coisa… Olha, seu Diabo, eu esperava até o papa, menos você.

– A maioria das pessoas se assusta. Correm, gritam, desmaiam – Diz o diabo, com ar de surpreso.

– É mesmo? Que triste. Olha, eu sinto muito, o povo é meio besta mesmo. Repara não.

– Não! Não sinta, é a tendência natural das coisas, o estranho é você.

– Eu até pagaria uma bebida, sabe, mas o bolso ta vazio… De qualquer forma, vamos sentar no bar do Zé, jogar conversa fora é de graça.

– Como queira. Não se preocupe com a bebida, dessa vez eu pago – disse o Diabo.

 

[…]

 

– O pessoal costuma contar muita história sobre o senhor.

– Senhor está no céu, o meu lugar é mais embaixo.

– Verdade, verdade. É o costume, vai desculpando. Enfim… E a tal relação com bode…?

– Odeio bode!

– Ah, melhor assim. (pausa) E essa de que 666… (é interrompido antes de terminar a frase)

– Não tenho relação nenhuma com os números. Isso é coisa do cristão.

– Há, eu sabia! Nunca levei essa de “número da besta” a sério.

– Pois então. Besta é quem me chama assim.

– Claro. Com toda razão. Falta de respeito com o senhor… Digo, com ‘você’. (pausa. Um breve silêncio) Diabo, demônio, Capeta… É tudo uma coisa só, ou é teu pai, teu primo…?

– Juarez,  não seja tão tolo. Sou o diabo, o único ser que habita o inferno. O resto é homônimo, pseudônimo, apelido…

– Ah, ta certo então. Exagero, né? Pra que tanto nome?! Sem querer ser inconveniente, mas nem mesmo o papo de “Lúcifer”, lá da bíblia, é verdade?

– Essa muito menos. “Anjo Caído” (ironia) tem coisa mais brega? Parece nome de novela das seis. Mas confesso que a história é interessante. Se não me engano, segundo ela, eu era um dos anjos Dele, me rebelei, fui expulso do tal paraíso. É até criativo, não podemos negar.

– E como é! Nessa eu até acreditava.

 

[…]

 

A conversa rendia, a garrafa ficava vazia e o Diabo insistia em bancar as doses seguintes. Os dois persistiam na conversa, no auge da exaltação.

 

– …Eu lá, me declarando com a Amélia, todo feliz… Só porque ia pedi-la em namoro ela some da minha vida, do nada! Isso é coisa sua, seu Diabo! Só pode ser!

– Ah, seu bastardo! Deixou-a plantada horas, te esperando, no dia do tal pedido. Queria o que?

– Ah, é verdade, nem me lembrava disso. Mas saiba que tive meus motivos. (Buscava na memória outros nomes e outras situações. A Exaltação continuava) – Mas e a Marieta? Essa você tirou de mim! Saímos, dormimos e no outro dia sumiu!

– Você foi embora e esqueceu-se de pagar a conta do jantar, dormiu na rua, com uma prostituta, confundiu a com Marieta, ela roubou sua carteira e você passou semanas sem se lembrar de nada!

– Caramba… Foi assim mesmo? Por isso que… Ah, melhor deixar pra lá.

– Não sei do que reclama. Com a Rosângela você quase se casou! Na primeira noite eu até lhe ajudei a “levantar”, se é que me entende.

– Opa, fale baixo! Essas coisas a gente não espalha… E foi você? Eu jurava que tinha tomado Viagra.

– Confundiu as caixas, idiota. Tomou analgésico.

– Hum, menos mal… Pois bem. Final do campeonato de futebol entre bairros. Quebrei o pé no último jogo! A partida estava em minhas mãos, fui ter uma torção na cara do gol, no último segundo, no último ataque. Não seria possível que essa passasse despercebida!

– Certo. Essa fui eu.

– Maldito, filho da mãe!

– Ah Juarez, contenha-se, sou o Diabo, não seu anjo da guarda! Não tenho porque fazer “bondades”, marcar gol, ou ganhar partida de futebol.

– Custava, ao menos, não interferir? Se fosse pra sacanear, quebrasse minhas duas pernas, mas depois do jogo, não na hora do gol da vitória!

– Se quiser quebro-as agora!

– Ou, não é assim, relaxa… Já até esqueci o episódio.

 

(outro gole na cachaça)

 

-… Ao menos o gol eu merecia ter feito.

– Ainda nesse assunto?! Você era um prepotente! Seu time subestimou todos os outros da região. Eu devia ter rachado essa sua cabeça, para diminuir sua arrogância.

– Ah, ta bom então… Não está mais aqui quem falou. Mas uma coisa eu digo, fazer-me bater a moto do Zé foi sacanagem! Minha conta no boteco já era extensa, custei pagar o conserto daquela magrela.

– Eu? Você quem pegou a moto, sem condições de dirigir! Bêbados não guiam nem mesmo o próprio corpo, veja lá um veículo!

– Então fizesse com que eu caísse antes de subir nela, ou então que o estrago fosse quase imperceptível!

– Francamente, quantas vezes eu tenho que repetir que são donos das próprias ações? Para vocês, se algo der certo, foi Deus! Se der errado, foi o Diabo! E quando que a culpa é para quem cometeu o ato? Vocês são o que? Marionetes vulneráveis? Eu tenho que aceitar a culpa de todas as cagadas que você faz?

– Eu tenho que passá-las para alguém, se eu guardar comigo, daqui uns dias não tem mais espaço para a consciência.

– Não seja desprezível, Juarez…

 

[…]

 

– Me leva com você?

– Para onde, infeliz?

– Para o inferno, oras!

– Tem uma vida por aqui, não seja tolo em abandoná-la.

– E quem disse que eu gosto da vida?

– Então se mate!

– Mas se eu for para o céu?

– E se não existir o céu? Sem contar que suicídio é pecado, ao menos é o que dizem. Se estivermos certos, tu vais direto para mim.

– Se todo pecado leva ao inferno, o céu ta mais carente que aqui!

– E quem importa?

– Importar, eu não importo, só queria entender.

– Não entende nem a si mesmo, homem, veja lá sobre morte, céu, inferno…

– Que seja, vá pra inferno então!

– Com todo prazer. Até a próxima, meu caro. (sumiu sem ser notado)

 

Enquanto se levantava para partir, Juarez escuta o grito do Zé, de trás do balcão:

 

– Aonde vai, seu malandro?

– Para onde mais eu iria, Zé? Para casa, oras.  

– E essa conta, vai ficar aqui? Acha que sou burro de levar um cano alto desses?

– Do que está falando? Meu amigo pagou tudo.

– Que amigo?

– Ele foi embora tem pouco tempo.

– Acha que vai me passar a perna? Você esteve a tarde inteira sozinho. Bebendo doses e mais doses aí nessa mesa, conversando com as paredes!

– Era o Diabo, Zé! Sabia que não podia confiar no miserável!

 

Depois disso, o homem se acalma, diante da possível invalidez daquele bêbado:

 

– Você estava discutindo com a própria sombra, Juarez. Precisa é se tratar, meu caro!

 

Juarez fica estático com a notícia, mas antes de se preparar para correr – já que não teria como pagar -, soltou um grito estridente, olhando para o chão:

 

– SEU FILHO DA P…!

 

Testemunhas dizem que o xingamento foi respondido com risadas macabras que ninguém sabia de onde vinha. Zé enfartou na hora, tamanho fora o susto e Juarez assumiu o bar… Por pouco tempo, claro, pois morreu alguns meses depois, após beber toda a bebida do estoque. Provavelmente, procurava o “amigo”; antes para acertar as contas, agora para agradecer.

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