Passares por aqui, um memorável “infeliz contente”

  No final das contas, tudo é interessante, inclusive a dor. Não sei por que de tanto medo, a dor é vital, é necessária e é aprendizagem. Confesso que sem dor, melancolia e tédio, eu já teria apelado para o suicídio – deixando claro que a ideia nem passa pela minha cabeça. Na dor, quando você não chora, limpando a alma, você namora a própria consciência flertando com a tolerância. Só assim ficamos diante de um (auto) entendimento que não tem preço.

   Eu fico aqui, escrevendo sobre a carne, o extinto, o “sofrer”, o racional… Sobre o “não sentir”, “não amar”, “não viver”, e acabo me perdendo nas minhas próprias palavras, acabo sendo vítima da minha própria dúvida, escravo do meu pessimismo, um subordinado ao rancor. Sou tão convicto do que escrevo que ando absorvendo isso para mim de forma irreversível. Ando meio vazio. Isso não me incomoda, mas às vezes amedronta e o único problema do medo é que ele é egoísta, egocêntrico e todos os “egos” a mais. Quando se tem medo, não se sente mais nada, ele por si só, preenche o espaço no cérebro destinado a qualquer outro “sentimento”. Medo é vulnerável demais, é tolo demais… Digamos que sou tomado por ansiedade. Essa sim compartilha “espaço”, mas vem junto da agonia e da aflição.

   Eu gosto do frio, do vento, da dor e até mesmo das lágrimas, por mais que elas não costumam me visitar. As palavras são máscaras e, junto à composição dos textos, a prova da minha covardia. Talvez eu tenha essa mania de “teorizar” tudo a fim de me preservar e me esconder da vida. Aqui eu desisti das pessoas. Lá fora, eu sou o dono do sorriso. Difícil é entender que esses dois são um só.

   Eu queria ser um eremita, eu queria ser um comunista, eu queria ser um budista, eu queria até mesmo ser misantropo ou um lunático viajando o mundo. Morrer na África abraçado à escória do mundo, ou me esbanjando na “libertinagem” de Amsterdã. Poderia lutar por isso, mas não luto, poderia correr atrás disso, mas não corro, poderia batalhar pelos meus sonhos, mas não batalho.

   Fizeram a escolha por mim. Sou um filho da sociedade moderna. Farei apenas o que me remete a uma “aceitação” medíocre. 

    Faculdade, concurso público. Alta conta bancária. Uma mulher, dois carros, dois filhos. Casa em condomínio fechado, imposto de renda pago e TV a cabo. Incrível, vamos aplaudir. Conseguiram conceituar a “felicidade”.

 

somos os filhos da revolução, somos burgueses sem religião…”.

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