Colocamos à prova o termo da existência

Norman Cousins:  “A morte não é a maior perda da vida. A maior perda da vida é o que morre dentro de nós enquanto ainda vivemos”.

Estamos todos mortos.

Para que a coerência do título fosse mantida, bastava cair sobre nós algumas toneladas de terra. Faria jus ao título, preservaria a introdução e uma verdade que já perdura algum tempo.

Esses dias eu andava pelo mercado, vi uma xícara exposta à venda. Gostei dela, parei na loja e peguei o objeto. Nela estava escrito “arte” em sua lateral. Para muitos apenas uma palavra ilustrativa. Para mim era mais que isso. Era uma metalinguagem bastante peculiar. Aquilo deu brilho à xícara. Deu-lhe vida. Enquanto a manuseava, notei que no fundo tinha grafado: Made in Taiwan. Era o que bastava. A xícara morreu ali, na hora.   Essa xícara provavelmente foi feita por falsos “trabalhadores” que na verdade são escravos do capitalismo. No sentido literal, eu digo. São submetidos a atividades e cargas-horárias desumanas e entre esses estão crianças, que tiveram a infância assassinada tão como o objeto que elas ajudaram a produzir. São cidadãos como qualquer outro e estão em toda parte do globo terrestre.  O clichê da “mão-de-obra barata” esconde um arsenal de horrores e essa mão-de-obra ESCRAVA é o paraíso das multinacionais. Essas que talvez matem ao ano, tanto quanto o câncer, a diferença é que os dados do câncer saem no jornal.

Na mesma loja notei que uma senhora acompanhada de dois filhos comprou duas canecas. Uma para cada criança. Eram canecas mortas, pagas com um dinheiro morto e banhado de sangue – esse que já morreu há séculos, talvez assim que nasceu. Em uma das canecas estava escrito “amor” e na outra “vida”. Antemão eu também achei uma irritante ironia, mas a palavra que melhor preenche as lacunas dessa situação é “hipocrisia”. Somos hipócritas a ponto de declarar que não temos conhecimento da barbárie. Somos hipócritas a ponto de nos sentirmos melhores por acreditarmos que não podemos fazer nada, fazendo com que isso alivie a culpa e purifique a consciência. “Hipocrisia infinita” é o nosso combustível.

Convenhamos… Para um ter emprego, dez são demitidos. Para comprarmos um produto que teve um custo de produção de dez reais, pagamos trinta, ou até mais… Alimentamos diariamente o ciclo vicioso do comércio, da extorsão, da injustiça. E o que expande a desgraça toda, é o (falso) argumento de que é tudo necessário.

Definitivamente, estamos mortos. Nós fechamos o vidro do carro no sinaleiro, para não olharmos nos olhos do garoto de doze anos de idade, usuário de cola desde os quatro, para que, consecutivamente, não corrermos o risco de assumir uma culpa, que segundo nossos falsos princípios, não é nossa… Vou mais além, não queremos encarar o espelho da nossa sociedade estúpida, que escola diz que devemos respeitar. Negligenciamos o fato de que aqueles “pedintes” estão mortos e ajudamos todos os dias a matar os que chegam.

Eu, caro leitor, estou morto, não só por compartilhar com vocês da tão citada hipocrisia global, mas por além de tudo, reconhecê-la. Por estar repleto de um sentimento que maltrata ainda mais: A impotência. Estamos mortos e não sei dizer a quanto tempo.

Transitar pelas ruas da cidade é como andar em um necrotério, a diferença é que não é tão calado quanto lá e não aceitamos os fatos, tão como buscamos soluções alternativas para tornar tudo invisível. Um pouco diferente dos corpos estirados em uma sala do IML, que estão isentos de qualquer reação.

Contudo, vamos – ironicamente- preservar as palavras de Joseph Stalin para fugir da tendência depressiva – “uma morte” é tragédia, “milhões de mortes” é estatística.

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