Eles

Capítulo primeiro: Devaneios.

 Dele:

“Nossa, como ela é bonita, Artur, tu conhece aquela ali?” – o Artur não respondeu, nem mesmo viu a moça, o álcool que ele tomava foi quem assumiu a ação e por vez tomou… Não a sua própria essência líquida, mas a consciência do homem que a consumia.

Dela:

“Fernanda… Olha só! Ali, canto esquerdo, perto do balcão” – a amiga devolve – “o bêbado?” – impaciente – “Não, tola, ao lado, o de camisa azul! Está conversando com o bêbado! Pelo visto estão juntos”.

“Huuum… Esse é bonitão, amiga”.

 Deles

 Ele encara.

 Ela se esquiva.

 Ela vai para a pista, quer chamar atenção, valoriza o corpo que tem.

 Ele olha de longe, acha que ta fazendo charme, acha que desperta interesse de alguém…

 Ela ta ansiosa: “será se ele me viu? Devo chegar mais perto?”

 Ele é tolo, antecipa a derrota, foge da gloria, mal sabes a chance que tens… “Muito linda, mas é muito mesmo! Essa não é para o meu bico, to dando bobeira intimidando a moça!” – faz cara de frustrado, vira de costas para a pista.

 Ela nota o feito, dá-se um ar de ‘bem feito’ – “quem mandou ser tão oferecida?!” – vai pro canto, pede uma bebida, alimenta a angústia e a esperança da aproximação do rapaz.

 Ele se apunhala, ‘engole erros’ em infinita sucessão – “eu sabia que ela tinha notado, saiu nervosa! Sou um canalha, que vergonha, não vou mais olhar…” – pega o copo, sai de fininho, senta no sofá mais afastado, na extrema direita do bar.

 Ela repete o feito, indo à esquerda, fugindo da multidão, conformada com a solidão, mas tinha no fundo um intuito (persistente) de que ele notasse que ela afastou dos outros para dar-lhe espaço. Isso nem passou pela cabeça do rapaz…

 

“Vamos lá fora, amiga! Ele vai ver e vai nos seguir…” – descontente a moça diz – “duvido muito… Mas vamos sim, é bom que tomo um ar”.

 

 Ela se enche de esperança.

 Ele é tomado de raiva! – “Sabia que ia dar nisso! Foi embora… Se ao menos soubesse o seu nome! Artur… vamos embora, a festa acabou”.

 Artur partia em direção à saída, quase atrás da moça… “Por aí não Artur, o carro ta atrás, vamos pelos fundos” – responde Ele, desapontado com a noite e com as (aparentes) poucas chances.

 Ela volta, na mesa frente ao sofá, apenas um copo vazio. O bêbado também sumira, “foram embora” – pensou. Sem dizer uma palavra, apanhou a bolsa e saiu. A amiga seguiu dando continuidade ao silêncio.

 

Um carro pela frente, o outro pelos fundos do bar… Um rumo ao norte, outro ao sul. Dois desamparados e seus dois bêbados.

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