Bosquejos de Vincent – Parte I

Estava no respaldo do meu quarto, me submetendo à lástima de idealizar a minha viagem sem volta, no caminho dito incerto, que para mim era mais que certo; nada mais do que o fim. Eu senti a melancolia do tempo – passível a todas as interpretações. O tempo cronológico, à hora certa, o meu momento; o segundo, um tempo “meteorológico”, o dia frio, a neblina constante. Essa angústia – disse a mim mesmo – é o espaço exíguo que dentro me resta. Aquele que não poderá ser preenchido e que me causa um vácuo de sentimento, oriundo de sua ausência. Levantei da cama, e mesmo sozinho, no auge (talvez) da minha esquizofrenia continuei soletrando esta aflição que soava como elegia; “vos que já não me pertences, tão pouco sentes o pesar que meu ato inescrupuloso causa-me…”. Calei-me enquanto pude, postei-me a rua. Fugindo não sei do que, muito menos para onde. Na rua, sentei no primeiro assento. Exposto ao frio desumano, esse adjunto de um vento gélido. Uma tortura justa e necessária. Eu senti que algo minucioso aproximava-se, nada via, ao chão talvez estivesse – não era o saco plástico cinematográfico de Sam Mendes nem o Gato Preto de Allan Poe. Assim ocorreu. Era um cão. Rastejava como um verme, não tão diferente de mim, era o escarro da sociedade. Nada mais que um vira-lata, pelagem imunda, sujeira que em mim residia por dentro. Fitou-me aos olhos, pensei; “ó céus, que fizestes eu para merecer tamanha mortificação?”– permanecemos, os dois, apáticos, de mutualidade no olhar, ele na condição de cão de rua, eu sem a dignidade de algo merecer, nem mesmo à condição de animal. Pouca sabia aquele desgraçado, o quão tormento seu comportamento me causara. O último a me apontar um olhar tão hermético fostes Helena, antes de eu matá-la – raciocínio que me rendera náuseas, há tempos seu nome não era citado, nem mesmo em pensamento. A cena ridícula permanecia inerte, ele não se mexia, tinha eu a impressão de que aquilo era um aviso, um escárnio para que as coisas se tornassem claras. Sem mais, o cão levantou-se e saiu, alargando ainda mais as lacunas da minha incerteza. O vento desta vez soprara outra melodia: “Helena te espera…”. Enfadado, me convenci de que era o certo.

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