Vizinha(?)

Às vésperas do alaranjado manchar o céu, no instante entre os mais belos do dia… Passo a passo ela caminha. Não tem pressa, é sutil, aos poucos põe abaixo a ladeira. Bela, por sinal. Não a ladeira; digo, não  a ladeira. O Sol não tinha compromisso, se estendeu enquanto pode. Contudo, o vermelho dos seus cabelos substituiu ao ambiente a cor que antes havia citado.

    Não só do sangue se assemelhava, uma luz oriunda da raiz era a suficiência do seu contentamento. Ciente estava de que a distância entre eles não se limitava em alguns degraus da escadaria, mas sim em um grande abismo. Esse aos outros, invisível. Real apenas aos seus olhos. Se manteve a observá-la.

    Não a ama, de amor, na verdade, pouco (ou nada) sabe – quanto a isso ele não importa. Não a quer em seus braços, pois a impossibilidade do toque é o que lhe encanta. Apenas a ideia de ter os cabelos dela entrelaçados a sua pele, já era o suficiente. Carne alguma substituiria o prazer da idealização e a magia do seu pensamento.

   O percurso é longo, mas a ruiva se desfaz na luz como um estalo. Fechou o livro, saiu da varanda para buscar um café… Ele sabe que amanhã, lá pelas seis, ela volta.

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