Quando Amado amou.

Mais um dia turbulento. Amado estava exausto, não se conformava com a prisão que a rotina se tornara. Noite fria boa para esfriar a cabeça. Resolveu andar pela rua. Encostou-se a uma árvore no bosque, olhou ao céu e percebeu quanto era só… Sempre esteve em locais bem freqüentados com os supostos colegas. Sempre existiu alguém para venerá-lo, os oportunistas – mesmo não tendo muito a oferecer… Ganhara elogios às vezes. Já saiu com algumas garotas, poucas, não era habituado à “caça” como a maioria dos homens. No seu íntimo, no seu social, Amado era só, era triste…
Naquele instante, Amado viu-se contagiado pela música. O som do violão, a sutileza da melodia: “De onde vem?”. Correu pelas ruas, causando espanto em quem passava. Amado estava assustado, – ao menos aparentemente – correu até perder o fôlego, pois de algum lugar aquilo saia…
Duas, três, quatro quadras, parecia mais alto, de repente ficara estridente, a ponto de doer à alma. Ele avistara ali, a alguns metros, uma garota linda, sentada em um banco, em frente a estação… Nunca estivera tão confuso. Aproximou-se, sentou. Ambos olharam nos olhos, antemão a garota assustou-se, se conteve, mas ninguém pudera resistir ao sorriso que Amado abrira. Por sorte, foi recíproco.
A música parou, e com ela as pessoas, o mundo, o ar, o tempo… Tudo congelou naquela cena. Amado não fazia noção de onde vinha tanta alegria, tanto amor… Ninguém tocava violão por ali, não havia nenhum cantor, nenhuma música, o som fora “libertado” pelos seus instintos, os quais ele nem mais acreditava; amor talvez.
A única distância entre os dois rompeu-se quando ambos os lábios que se tocaram suavemente. Os dois corpos ficaram, por alguns instantes, sendo um só.
Amado viu a sua salvação, mentalmente fizera milhares de planos, de hoje em diante deixaria de existir; passaria a viver, enfim ser feliz. Não se conteve, abraçou-a, sentira o coração tão pulsante quanto o seu.
A garota parou de sorrir, levantou, lançou seus cabelos loiros ao vento, olhara com seus belos olhos verdes mais uma vez a Amado… Caminhou até a ponta da estação e entrara no trem.
A única sensação que restara a Amado era o vazio, chorou pela primeira vez. Virara a noite por ali, passava tardes, dias, o maior tempo possível esperando a sua musa voltar… Semanas, meses, anos, até que um dia entrou em um dos trens, o único que passara por ali. Desceu no seu destino, uma cidadezinha aparentemente calma. Amado não ouvia a música, só a angústia… Andara desconsolado pelas ruas, até cruzar uma esquina onde do outro lado a loira estava. Pela primeira vez teve medo, a música não tocara, o peito apertava cada vez mais, ela veio atravessando a rua, olhando-o com serenidade. Não percebeu o carro que vinha a sua direção. Fatalidade irracional, um desatino inconsequente do fio que define a  vida e o reflexo do quão fácil é perdê-la… Amado nada pode fazer para evitar aquela catástrofe. O impacto foi forte o suficiente para matá-la, mas não para impedir que dois amantes olhassem pela última vez nos olhos. Foi o fim, um só corpo se foi, mas duas almas ali morreram.
Hoje, Amado abriu mão de tudo que o cerca, passa noites a tocar a música que alimenta corações isolados. Impedindo que o silêncio volte a pairar. Preparando a alma daqueles que virão a sofrer, esperando descontente pela sua garota que nunca mais vai voltar.

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